Os últimos dias

No luto, amigos tentam entender o que se passava com Plínio Zalewski

Durante cerimônia de sepultamento em Porto Alegre, aliados penitenciavam-se por não terem percebido mudança de comportamento

Por: Fábio Schaffner
18/10/2016 - 19h39min | Atualizada em 18/10/2016 - 22h52min
No luto, amigos tentam entender o que se passava com Plínio Zalewski Omar Freitas/Agencia RBS
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Uma fina garoa insistia em cair sobre a Capital quando o cortejo fúnebre de Plínio Zalewski deixou a capela 9 do Cemitério João XXIII, no início da tarde desta terça-feira. Seguido por um séquito de familiares, amigos e correligionários, o corpo do coordenador do programa de governo de Sebastião Melo (PMDB) foi sepultado ao som de um arranjo para violinos de Felicidade, canção de Lupicínio Rodrigues interpretada pela Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, entidade que Zalewski havia ajudado a criar. Coube ao bispo anglicano Dom Humberto Maiztegui proferir as palavras de conforto na derradeira despedida do peemedebista.

— A vida é muito curta. Desabrochamos como uma flor e já começamos a murchar — consolou o religioso, diante de lágrimas e aplausos das cerca de cem pessoas presentes.

Aos 53 anos, casado e pai de três filhas, Zalewski foi encontrado morto na segunda-feira à tarde, na sede do diretório municipal do PMDB. Ele estava desaparecido desde domingo e a polícia trabalha com a hipótese de suicídio. Durante o velório, amigos e companheiros de campanha eleitoral penitenciavam-se por não ter identificado os sinais da mudança de comportamento de Zalewski nas últimas semanas.

Leia mais:
Enterro de Plínio Zalewski reúne políticos de diferentes correntes
Como foram as últimas horas de Plínio Zalewski
Perícia poderá permitir ler o conteúdo do bilhete deixado por Plínio Zalewski

Ele estava mais introspectivo, praticamente monossilábico, em contraste com o intelectual vigoroso e militante combativo a que todos estavam acostumados. Em conversas particulares, admitia perturbação com os rumos da campanha eleitoral, sobretudo pela inclinação agressiva no segundo turno. Em mensagem por WhatsApp enviada a um colega no dia 8 de outubro, desabafou: "Não gosto desse caminho. Ou a gente ganha na política ou pedimos matrícula nos Bala na Cara".

O que mais incomodava Zalewski, contudo, era a perseguição a que estava sendo submetido. Um vídeo divulgado no YouTube por um ativista ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) o acusava de trabalhar na campanha de Melo durante o horário de expediente na Assembleia Legislativa. O MBL chegou a ingressar com uma ação contra a Assembleia exigindo sua demissão, mas Zalewski pediu exoneração no dia em que o vídeo foi publicado. Sua mulher, Luciana, disse a amigos que Zalewski "era outra pessoa" após a divulgação do vídeo. Ele também reclamava de estar recebendo telefonemas anônimos em casa, de madrugada e de ser constantemente vigiado.

— Ele contou que estava numa reunião no Lido Hotel e, quando saiu, tinha um rapaz filmando. Ele foi até lá e filmou o cara também — conta o presidente estadual do PSB, Beto Albuquerque.

— Ele me disse estar preocupado com a família, que estavam filmando suas filhas — complementa uma amiga.

Zalewski havia registrado duas ocorrências na 2ª DP da Capital. Em 7 de outubro, comunicou problemas para acessar sua conta do Facebook com a senha pessoal e que suspeitava de invasão. Também disse que teria ocorrido um acesso indevido a suas contas de Gmail e de Messenger. Uma semana depois, denunciou invasão em seu celular, no da esposa e no de uma das filhas, afirmando que haviam quebrado o "código de privacidade do sistema Vivo".

Diante dessa espiral de suspeições e ainda alvo de três queixas-crimes impetradas pela campanha de Nelson Marchezan Júnior (PSDB), Zalewski procurou dois advogados e estava disposto a buscar reparação judicial. Antes, porém, queria encerrar a campanha. Embora desde o início do segundo turno o súbito abatimento o tivesse afastado dos debates no rádio e na TV, ainda era o principal conselheiro de Sebastião Melo. Dono de uma memória prodigiosa, preparava o candidato fornecendo números, dados e argumentos técnicos para sustentar a plataforma política do PMDB.

Leia mais:
Morte de Zalewski será investigada apenas pela Polícia Civil
Na TV, Marchezan pede "paz" a Melo para sequência da campanha

Somente na última semana de vida, participou de reuniões do comando de campanha na quarta-feira, na quinta e no sábado, mesmo dia em que recebeu uma intimação judicial. Expedida pela Justiça Eleitoral, ela determinou a averiguação de um imóvel do PMDB, após a equipe de Marchezan denunciar que se tratava de um comitê clandestino. Zalewski não percebeu que, junto com os oficiais de Justiça, dois integrantes da campanha tucana também ingressaram no prédio e manusearam documentos. Mais tarde, revelou se sentir culpado pela desatenção. Ainda assim, participou da redação de uma nota oficial no qual Melo repudiava a ação do adversário.

No domingo, último dia em que foi visto com vida, se dirigiu pela manhã ao comitê da Avenida João Pessoa. Estava chovendo e havia poucas pessoas no local. Convidado pelas equipes de rua a comer um churrasco, ele ligou para a mulher e disse que iria almoçar por ali. Terminada a refeição, ninguém viu quando ele pegou uma das facas de cortar carne, tampouco quando se trancafiou em um banheiro nos fundos do prédio. Por volta das 21h, a mulher começou a ligar para os assessores da campanha atrás do marido. Às 23h, registrou um boletim de desaparecimento.

No início da tarde de segunda-feira, uma reunião de dirigentes partidários levou mais de 50 pessoas ao comitê e alguns se queixaram que o banheiro dos fundos estava sempre ocupado. Um rapaz espiou por uma janela lateral e viu que havia alguém caído lá dentro. Quando a porta foi arrombada pelo assessor de imprensa Gustavo Ferenci, o corpo de Zalewski jazia de bruços. Com ele foram encontrados uma faca e, no bolso da camisa, um bilhete manchado de sangue, cujas poucas frases legíveis indicavam uma carta de adeus.

* Zero Hora


 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.