The New York Times

A luta livre quer se instalar na China

Por: The New York Times
10/01/2017 - 21h43min | Atualizada em 10/01/2017 - 21h43min

Xangai – Wang Bin olhou para o chão. Um homem vestindo um collant azul se contorcia a seus pés. Sorriu. Este era o momento que ele estava esperando.

E Cheng Shi também. Quando Wang levantou o homem a seus pés e o jogou no chão, marcando pontos, Cheng realizou por completo seu sonho de ver um lutador profissional chinês de luta livre – um dos maiores espetáculos americanos de encenação.

"Estou feliz e orgulhoso de vê-lo atuando hoje à noite, assim como todos os outros fãs", disse antes da partida Cheng, estudante de 21 anos que faz vídeos para os torcedores chineses. Ele apontou para a tela do seu smartphone para mostrar milhares de pessoas que assistiam sua transmissão ao vivo. "Estamos muito contentes."

Em busca de plateia e novas fontes de dinheiro, a World Wrestling Entertainment (WWE) – empresa que trouxe Hulk Hogan e Dwayne "The Rock" Johnson para as casas americanas – ambiciona chegar a esse mercado grande, mas muito mais complexo. Para isso, começou um novo serviço de streaming ao vivo de lutas narradas e comentadas em chinês e, de quebra, também visita províncias da China para encontrar de talentos como Wang.

O país apresenta desafios formidáveis. Nomes do entretenimento como Netflix e Rupert Murdoch visaram à população de 1,4 bilhão, mas acabaram afugentados pelo controle rígido do país sobre os meios de comunicação. A violência caricata da luta livre e às vezes algumas tiradas obscenas poderiam chamar a atenção do governo. E, mesmo tendo seus fãs, o estilo americano de luta livre como entretenimento ensaiado é, em geral, inédito no continente chinês.

"Não há a presença de produtos por aqui. Ao aprender o idioma, passei a ser um tipo de veículo para promover o que fazemos", disse John Cena, o lutador de queixo quadrado e estrela de filmes de ação que aprendeu a falar um pouco de chinês como parte da estratégia.

A ideia é ser local e digital. Ao ignorar a televisão controlada pelo Estado, a WWE se juntou a uma empresa de streaming de vídeo para chegar até os fãs através de computadores e dispositivos móveis.

E também se dedicou a apresentar o suplex, o slam e o drop a uma nova audiência. A empresa contratou quatro diretores de mídias sociais em tempo integral em Xangai para atualizar as contas nas redes sociais de língua local para seus lutadores e executivos. Também promove festas para assistir às lutas, como a de dezembro, na cidade chinesa de Guangzhou, na qual os habitantes locais devoraram pizza e refrigerantes durante uma transmissão Pay Per View de uma luta, além de jogarem o mais recente videogame da WWE no Xbox.

O sucesso exige a exposição do público chinês a um novo tipo de entretenimento, um drama coreografado no qual o resultado é conhecido, apesar de que seus perigos e lesões às vezes surpreendentemente reais.

"Nunca viram nada como o que fazemos. O esforço físico é muito real. Tiveram mais dificuldade com as histórias e a parte de encenação, pois os limites são tênues", disse Paul Levesque, executivo da WWE encarregado de eventos ao vivo e que também é um lutador parcialmente aposentado, mais conhecido como Triple H.

"Acho que o jeito mais fácil para fazer quem não está familiarizado com a luta livre entender o negócio é dizer que essa é uma versão americana, ou global, do romance de kung fu. Aí pegam na hora porque têm uma conexão cultural e uma imagem mental da coisa", disse Jay Li, executivo de empresas multinacionais na China que, em abril, entrou para a WWE como gerente geral da China.

Nos últimos anos, muita atenção foi dada à expansão de empresas chinesas em Hollywood, como a Dalian Wanda, mas a maioria das companhias estrangeiras de entretenimento luta para fazer incursões comparáveis à China. Para algumas, como a Disney, entrar no país significa dar ao Partido Comunista uma maior abertura a seus negócios por lá.

Quanto aos esportes – ou algo que se pareça com um esporte –, a situação pode ser diferente. O segmento se beneficia do apoio temático do governo, que valoriza a realização de eventos internacionais como as Olimpíadas e a promoção de categorias como o futebol. O trabalho feito para incluir essa modalidade nas escolas e tornar o país uma potência na modalidade fez com que empresas pagassem grandes somas por direitos de transmissão.

"O esporte era historicamente subdesenvolvido na China e on-line e muitos jogadores estão procurando maneiras de rentabilizá-lo", disse Vivek Couto, um dos fundadores e diretor da Media Partners Asia, uma consultoria de pesquisa.

A luta livre profissional teria muito a ganhar com o aumento de público. Como outras empresas de mídia, a WWE está lutando com o novo mundo em que os telespectadores cancelam suas assinaturas de cabo e compram programas à la carte através da internet.

Os espectadores internacionais oferecem uma área de crescimento potencial, pois compõem apenas cerca de um quarto dos assinantes pagos do serviço de assinatura digital da WWE, que é um dos maiores contribuintes para os fundos da empresa.

Como mostra a China, o crescimento internacional nem sempre é fácil. Em outubro, a WWE disse a investidores que ainda espera oferecer assinaturas diretamente aos espectadores chineses.

Por enquanto, ela funciona com uma empresa de serviço de vídeo chinesa chamada PPTV, que transmite programas semanais chamados "SmackDown" e "RAW", com comentários em mandarim, em tempo real. (O suplex, caso você esteja se perguntando, se traduz como deshi beishuai, ou "estilo alemão de derrubar de costas".) A assinatura da PPTV começa em menos de US$ 3 por mês, cerca de um terço do custo do serviço de assinatura da WWE fora da China, e inclui filmes e outros programas.

Muita coisa depende de Wang, o primeiro lutador chinês da WWE. A equipe das redes sociais trabalha para transformá-lo em uma estrela – tanto que sua conta na rede social Weibo recentemente mostrou seus vídeos de treinamento nas instalações da WWE em Orlando, Flórida. Sete outros chineses, seis homens e uma mulher, vão se mudar para lá em janeiro.

Wang, de 22 anos, nativo da província de Anhui, foi atleta após o ensino médio, membro da equipe de remo da província. Mais tarde, mudou-se para Xangai e trabalhou como sparring, onde chamou a atenção dos representantes da Federação Inoki Genome, um grande promotor japonês de luta livre e MMA.

Passou três anos no Japão, antes de ser notado pela WWE. Assinou um contrato de três anos com a empresa americana e começou a treinar em Orlando em meados de 2016, em preparação para sua estreia na China.

Em setembro, quando o momento finalmente chegou, entrou na arena de Xangai ao som da moderna música chinesa. Cumprimentou a plateia com uma tradicional saudação kung fu, pressionando o punho direito na palma da mão esquerda.

Seu adversário, um lutador chamado Bo Dallas, foi vaiado pela multidão em Xangai antes que Wang o derrubasse no ringue, segurando-o durante uma contagem de três segundos, na segunda tentativa.

Wang ainda não tem um método nem um personagem definidos, nem mesmo um nome chamativo. Um dos personagens mais antigos na luta livre é o vilão estrangeiro; um deles é Mr. Fuji, o vilão japonês interpretado por Harry Fujiwara.

Em uma entrevista, Wang disse que não acredita muito no apelo de metáforas nacionalistas.

"Não devíamos ser vistos por causa de nossa nacionalidade ou grupo étnico. Tem menos a ver com isso e mais com o que você pode fazer como pessoa e como lutador no ringue."

Por Neil Gough

 
 
 
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