The New York Times

As lendas da rara e ameaçada flor-símbolo de Fiji

Por: The New York Times
13/02/2017 - 14h35min | Atualizada em 13/02/2017 - 14h35min

Ilha Taveuni, Fiji – Em Fiji, as flores podem ter um significado espiritual e mágico. Elas podem ser amarradas juntas, formando guirlandas que decoram cerimônias e festivais, ou ser usadas como um enfeite atrás da orelha em dias normais.

O arquipélago do Pacífico Sul é o lar de cerca de 800 espécies de plantas que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Mas a mais especial é a tagimoucia, uma flor branca e carmesim que se pendura em cachos como uma corrente de gotas de rubi. Por ser rara e bela, atingiu uma espécie de status de celebridade.

¿Apenas tocá-la e vê-la com meus próprios olhos¿, disse Lina Sena, de 41 anos, com a frase ficando pela metade enquanto segurava um cacho recentemente. ¿Viu como estamos tratando a planta? Isso é história.¿

Exceto por alguns exemplares em uma ilha vizinha, a flor cresce apenas no cume de uma única montanha em Taveuni, uma das ilhas do norte.

A tagimoucia é o emblema floral não oficial de Fiji e ocupa uma posição importante na nota de 50 dólares do país. No entanto, para os moradores de Fiji, seu significado decorre de várias histórias de romances e decepções amorosas.

Ver a flor ¿estava na minha lista de coisas para fazer antes de morrer¿, afirmou Ravi Kumar, de 31 anos, que cresceu em Fiji, mas depois se mudou para a Austrália.

Há pouco tempo, Kumar passou um dia em Taveuni, percorrendo a floresta antes de finalmente ver a flor no alto de uma trepadeira. Taveuni, conhecida como Garden Island por causa de seu rico solo vulcânico e das fazendas, é coroada com uma floresta tropical escura e densa, frequentemente envolta em névoa.

Kumar contou que fez a caminhada porque a lenda da flor é ¿uma daquelas que cresci ouvindo¿ em Fiji.

Essas histórias podem variar dependendo de quem as conta. A música ¿Tagimaucia ga¿, do tradicional compositor Percy Bucknell, descreve como um estrangeiro conquistou o poder em Taveuni e transformou a flor em um símbolo de seu governo. Outra fala de uma jovem cujas lágrimas se tornaram as flores da tagimoucia quando seus pais a repreenderam por não fazer o trabalho doméstico.

Segundo Emori Tokalau, aliado governamental dos líderes do clã de Taveuni, apenas o detentor da custódia da flor pode contar a lenda verdadeira. Seu nome é Ratu Viliame Mudu, chefe da vila de Somosomo, que fica do lado oeste da ilha.

Tokalau descreveu a custódia ¿como uma forma de direitos autorais¿, que garante a autoridade para dar permissão aos forasteiros para visitar a flor ou usar sua imagem. Ele precisou da permissão do chefe, por exemplo, antes de colocar a tagimoucia no papel timbrado de seu escritório.

Para conseguir a permissão, a pessoa deve chegar à vila com um ¿sevusevu¿ – um presente ou oferenda – geralmente a kava, tradicional bebida feita de raízes. Então, uma pequena cerimônia é realizada, reunindo homens de sarongues e mulheres de saias compridas.

Em uma visita à vila em novembro, o filho do chefe, Akuila Cavuilati, falou sobre a história da flor.

¿Quando estava crescendo, era a lenda que meus bisavós detinham e nos passaram¿, explicou.

A tagimoucia já existia antes da lenda, mas apenas como uma flor branca simples, contou Cavuilati. Isso mudou quando uma jovem princesa se apaixonou por um homem de outra vila, uma união que seus pais vetaram. Então, ela fugiu desesperada.

Enquanto procuravam pela princesa, os guerreiros da vila podiam ouvi-la chorando na floresta (a palavra tagimoucia pode ser traduzida como ¿lágrimas¿, afirmou Cavuilati). No entanto, tudo o que eles conseguiam ver eram as flores de tagimoucia, mas com uma novidade misteriosa: as pétalas vermelhas. Essas pétalas são as lágrimas da garota, contou.

Quando menino, Cavuilati frequentemente subia a montanha com seus irmãos para colher flores de tagimoucia, que algumas vezes eram mandadas para a capital, Suva, para serem exibidas em festivais.

¿Naquele tempo havia muitas flores. Hoje, é mais difícil de achar¿, contou.

Até cerca de 30 anos, só era possível ter acesso às flores caminhando. Então, construíram uma torre de telefone celular no topo da montanha, junto com uma estrada de serviço. Agora, as pessoas podem dirigir os cerca de 6,5 quilômetros com mais facilidade. Cavuilati afirmou que hoje são raras as pessoas que o procuram para ouvir a lenda ou receber sua aprovação para a jornada até onde estão as flores.

O trajeto montanha acima é uma caminhada de mais de quatro horas que começa perto de Somosomo. Ao longo do caminho, é fácil ver por que a montanha coberta de floresta foi a protetora natural da tagimoucia antes que a estrada fosse construída. A trilha está cheia de árvores derrubadas e crateras de sistemas de raízes gigantes que foram arrancados da terra por ciclones.

Depois de várias horas de caminhada, o neto do chefe de Somosomo, Viliame Mudu, avistou um pequeno aglomerado de flores no meio de uma árvore. Foi a única vez que nosso grupo viu as pétalas vermelhas-rubi naquele dia.

O pico da estação de floração da tagimoucia, novembro e dezembro, coincide com o final das aulas, então a flor se torna uma ¿mercadoria quente¿ para as guirlandas de formatura, explica o antropólogo Hao-Li Lin, que fez sua tese de doutorado sobre a conservação em Taveuni.

Nessa época, os hotéis locais também trazem flores para seus hóspedes. Uma manhã, Alfred Lewenilovo, de 26 anos, subiu a montanha com uma faca de cana de açúcar e uma mochila vazia. Ele explicou que sua irmã em Suva pediu flores de tagimoucia para sua guirlanda de aniversário.

A popularidade da flor preocupa alguns moradores de Fiji.

¿As pessoas estão indo lá para vê-las e colocá-las no pescoço, e então eles descem. Depois de dois dias, jogam-nas no lixo¿, explica a botânica Marika Tuiwawa, da Universidade do Pacífico Sul.

A fragilidade da existência da flor sempre foi motivo de preocupação por causa das pequenas áreas, ou microhabitat, onde ela cresce.

Embora a maioria acredite que as pessoas colhem flores demais, não foi feita nenhuma pesquisa para confirmar essa opinião, afirma Dick Watling, do NatureFiji-MareqetiViti. O grupo de conservação investigou a possibilidade de o Parque Nacional de Taveuni oferecer mais proteção para a tagimoucia e para os moradores da floresta. Mas seu escritório fechou em 2014 por causa da falta de interesse e de financiamentos.

Hoje, a região onde a flor pode ser encontrada é uma reserva, mas frequentemente acaba invadida por fazendeiros, conta Watling.

¿A questão verdadeira é que temos essa área enorme com uma floresta quase intocada, a última de Fiji¿, avisa. A não ser que o governo perceba seu valor, ela, ¿vai se tornar cada vez mais fragmentada¿.

Por enquanto, a tagimoucia continua a inspirar os habitantes de Fiji. Em uma balsa que vai de Taveuni para Suva, segurei um cacho de tagimoucia que o chefe da vila de Tavuki havia me dado.

A flor atraiu a atenção. Um garoto sussurrou ¿tagimoucia¿ quando passou por mim. Uma mulher apontou e falou o nome da flor antes de abrir um sorriso.

E Lina Sena se entregou a uma minissessão de fotos.

¿Tire mais uma – uma boa¿, disse enquanto sua filha reposicionava a câmera para capturar a flor, agora colocada atrás da orelha de Lina.

Por Serena Solomon

 
 
 
 
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