Fronteiras fechadas

Trump contraria teoria de 2 séculos ao ignorar vantagens comparativas

Política econômica do presidente dos EUA nega princípios de clássico da economia internacional lançado por David Ricardo há exatos 200 anos

19/05/2017 - 13h00min | Atualizada em 19/05/2017 - 16h14min
Trump contraria teoria de 2 séculos ao ignorar vantagens comparativas Montagem sobre fotos de Gallery London e AFP/Agência RBS
Foto: Montagem sobre fotos de Gallery London e AFP / Agência RBS  

Grande e curiosa coincidência: foi em 1817, há dois séculos, que o economista britânico David Ricardo elaborou a teoria que tornaria seu livro Princípios de Economia Política e Tributação um clássico: a das vantagens comparativas. Ricardo ergueu os pilares do que conhecemos como o comércio internacional. Diz a obra, usando Reino Unido e Portugal como exemplos, que diferentes países podem se beneficiar mutuamente do comércio e que é importante a especialização nos bens e serviços em que tenham eficiência. A sugestão é de que um país se especialize em algo e, por outro lado, adquira das outras nações os produtos que produz de maneira menos eficiente.

Por que coincidência? Porque, quando essa teoria completa 200 anos, os EUA, país alardeado como ícone do liberalismo econômico, deu posse, em janeiro, a Donald Trump, um presidente refratário à abertura de fronteiras, para as pessoas e a economia.

A respeito do princípio ricardiano das vantagens comparativas, comenta o economista Edmar Bacha, diretor Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças:

– Desde David Ricardo sabemos os economistas que um país se beneficia ao integrar-se à economia internacional. Ricardo tinha em mente os benefícios que adviriam da especialização do país naqueles produtos em que é relativamente mais produtivo. Ele venderia a seus parceiros comerciais tais produtos e deles compraria a preços mais baratos os produtos nos quais é relativamente menos produtivo.

Bacha relativiza a teoria ao aplicá-la 200 anos depois. Entre outros elementos a serem considerados, está o de que o comércio permite às empresas de um país absorverem a tecnologia disponível em outros. Também diz que "a teoria do comércio exterior, antes de David Ricardo (1772 – 1823), era a de Adam Smith (1723 – 1790), para quem os países deviam exportar o que sobrava após satisfeita a demanda interna". Define essa visão como mais fácil de ser compreendida, porque "a ideia de proteger o mercado interno e exportar a sobra é um prato cheio para políticos à esquerda e à direita". E cita, como exemplo, o princípio "America first", de Trump.

– Convencer políticos dos benefícios do comércio internacional é ingrato para os economistas – diz ele.

Em outros termos, há um retrocesso. Ricardo é um dos pioneiros da macroeconomia moderna, com suas análises sobre a relação entre salários e benefícios e com a teoria quantitativa do dinheiro. Seus seguidores vão dos economistas neoclássicos até os marxistas. Ou seja, é uma referência essencial.

Professor da UFRGS, Marcelo Portugal concorda que a política econômica de Trump é um retrocesso. E que, por se originar nos EUA, assusta.

– A maior economia do mundo resolveu ir contra uma teoria econômica de 200 anos que é aceita por qualquer pessoa que some dois mais dois e chegue a quatro como resultado – diz o economista. – O que aumenta o bem-estar dos consumidores de um país é poder comprar bens e serviços que são produzidos fora de suas fronteiras de forma mais eficiente, mais baratos e de melhor qualidade do que a produção doméstica. Isso é verdade para todos os países simultaneamente e é a base da teoria das vantagens comparativas proposta por David Ricardo.

No início do século 19, houve um debate em que Ricardo se envolveu no Reino Unido, relata o professor da UFRGS. Era a discussão sobre as Corn Laws. Conclusão a que se chegou na época: a produção doméstica de trigo seria menos eficiente, por ser mais cara. Sendo protecionista em relação ao seu trigo, o governo britânico reduzia a competitividade dos têxteis, os produtos em relação aos quais o país tinha vantagens comparativas.

Os economistas Pedro Raffy Vartanian e Hugo de Souza Garbe, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, dizem que as medidas anunciadas por Trump, de retaliação ao comércio internacional (especialmente em relação ao México) confirmam tendência de aumento do protecionismo na maior economia do mundo, com reflexos para os países emergentes. Por e-mail, dizem que, "desde a campanha até a posse e já no início do mandato, Trump vem adotando uma narrativa econômica individualista e fechada, que vai na contramão dos princípios modernos de economia internacional, tendo como preceito fundamental as relações comerciais bilaterais, multilaterais ou em bloco que sejam benéficas para os seus países membros".

De acordo com Vartanian e Garbe, Trump adotou um "discurso beligerante com seus principais parceiros econômicos, sem aparente respaldo técnico e ancorado em objetivos populistas de satisfazer seu eleitorado", e vai "na contramão de teorias de comércio que mostram o contrário". Os dois indicam que a teoria das vantagens comparativas desenvolvida por David Ricardo mostra justamente os ganhos que os países têm com o livre comércio.

Fernando Ferrari, professor de Economia da UFRGS, ressalva que a teoria de Ricardo foi um avanço grande há 200 anos, mas o processo de industrialização levou a um protecionismo e tornou a situação mais complexa. Dois séculos atrás, a economia era lastreada pelas riquezas naturais.

De qualquer forma, ele afirma:

– A política protecionista de Trump é intempestiva e inadequada. Sua proposta é muito mais de teor político. Não tem fundamentos lógicos. É uma ideia fora de lugar.