Violência na escola: mãe decide enfrentar o bullying

Familiares de um estudante de 13 anos de Porto Alegre aguardam que escola particular reprima a ação de aluno agressor

29/04/2010 - 04h44min
Violência na escola: mãe decide enfrentar o bullying Jefferson Botega/
Vítima recebeu tapa em festa na frente dos colegas Foto: Jefferson Botega  

Mãe de um adolescente de 13 anos vítima de agressões no colégio, uma empresária da Capital é obrigada a enfrentar diariamente a tortura do bullying – prática cada vez mais comum nas escolas gaúchas, nem sempre preparadas para lidar com o problema. Desde fevereiro, o aluno de uma instituição de ensino particular de Porto Alegre se transformou no alvo predileto de um colega mais velho, de quem já recebeu um tapa no rosto, além de ameaças pessoais e virtuais.

Casos como esse motivaram a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa a aprovar, na terça-feira, um projeto de lei estadual cujo foco é prevenir ataques físicos e psicológicos no ambiente escolar. A notícia serviu de alento à empresária de 49 anos, que prefere ter o nome preservado, mas não resolve o seu problema – assim como a lei municipal sancionada no fim de março, que incentiva o combate ao bullying nas escolas da cidade mas, na prática, ainda não decolou.

O drama da moradora da zona norte da Capital começou quando ela e o marido, um empresário de 45 anos, perceberam mudanças no comportamento do menino. De personalidade tranquila, o estudante da 7ª série ficou inquieto de uma hora para outra. Durante uma conversa, contou aos pais a causa da aflição: um garoto mais velho do que ele, 15 anos, matriculado na 8ª série, passou a ameaçá-lo pelo MSN, um programa usado para troca de mensagens.

– Aquilo começou do nada, sem motivo nenhum. Eu nem conhecia o guri. Agora todo colégio sabe, e ninguém mais quer correr o risco de ficar comigo – conta a vítima.

Em um dos diálogos virtuais, impresso pela mãe e encaminhado à direção do colégio, o aluno de 15 anos avisou que iria assaltar o colega. Em outra troca de mensagens, o agressor ameaçou chutar e matar o desafeto se ele fosse a uma festa. O adolescente foi e levou um tapa no rosto.

– Procuramos a escola várias vezes, mas nada acontece. O problema é que tratam todos como clientes, cheio de dedos – reclama o pai da vítima.

Depois que os familiares do garoto estiveram no colégio, as ameaças pioraram, e eles ficaram com medo de procurar a polícia para registrar queixa. A família planeja uma viagem forçada para fugir do problema.

As ameaças virtuais

Agressor – Seu anão, vai dormi piá [...] Vai na Iapi. Quero tira skate ctg e te assalta [...] vo roba teu carrinho e teus órgãos e vende no mercado negro

* * *

Vítima – Posso sai meu?

Agressor – Não. Fica aí.

Vítima – Tá.

Agressor – Tá aí bolotinha obesa? [...] Fala aí anão.

Agressor – Meo. [...] Não vão em nenhuma noite. Pisa na formatura que vcs tão morto.

Agressor – E outra, meu. Sei mais de 6 loco que querem vocês morto.

Vítima – Mas eu não fiz nada pra vcs.

Agressor – Eu deixo vcs em coma.

Vítima – blz, só quero sabe o que que eu fiz.

Agressor – Vai te gente bebadaço lá loco pra dá em vcs.

O que é bullying
- Bully, em inglês, pode ser traduzido pelo termo valentão. Dele deriva a palavra bullying, que não tem uma tradução literal para o português. Por isso, especialistas brasileiros optaram por adotar o estrangeirismo para definir o problema, que se refere a atos agressivos, físicos ou verbais, protagonizados por um agressor contra uma vítima de forma sistemática.
O QUE DIZ A MÃE DA VÍTIMA:
“Fui várias vezes à escola pedir providências, levei até cópias das ameaças, mas nada acontece. Dizem que já chamaram a mãe do aluno (que faz as ameaças), só que ela não aparece. Então me aconselharam a procurar a polícia. O problema é que tenho medo de que o menino fique ainda mais violento.”
“E se ele (o agressor) vier atrás do meu filho na rua? A polícia não vai fazer nada. Ou eu coloco um segurança com ele 24 horas por dia ou não deixo mais ele sair de casa. Pensei em tirar da escola, mas ele não quer perder os amigos.”
“A gente está sozinho nisso. Fiquei decepcionada com o colégio. Sugeri que colocassem os dois frente a frente para tentar resolver tudo, mas nem isso fizeram. São totalmente despreparados.”
“O que me assusta é que as ameaças são gratuitas. Meu filho mal conhecia o menino. Agora não temos mais sossego. Até o sono eu perdi. O que uma mãe faz numa situação dessas?”

Entrevista: "Estão surgindo condenações a escolas", diz promotor

Considerado um dos principais especialistas em bullying no país, o promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, Lélio Braga Calhau, 39 anos, lança um alerta: as escolas não estão preparadas para lidar com o problema e lembra que já há casos de estabelecimentos condenados a pagar indenizações por omissão:

Zero Hora – Muitos pais descobrem que os filhos são vítimas de bullying e não sabem como agir. O que o senhor recomenda?

Lélio Braga Calhau –
Tenho aconselhado os pais, primeiro, a procurarem a direção da escola para uma reunião, levando duas testemunhas. Se o problema não for resolvido, devem escrever uma carta relatando o problema e pedindo providências. Devem exigir, na hora da entrega, um comprovante de recebimento. Se nada for feito, podem bater às portas do Ministério Público ou do Conselho Tutelar. Mas é importante que guardem as provas.

ZH – As escolas estão preparadas para lidar com o bullying?

Calhau –
Em geral, não. A maioria simplesmente incentiva as vítimas a não reclamarem. Mas bullying não é brincadeira. Já estão começando a surgir as primeiras condenações a escolas omissas. No tribunal de Brasília, uma escola foi condenada a pagar R$ 3 mil à família de uma vítima. As escolas não podem dizer que o problema é dos pais. Elas respondem ao Código de Defesa do Consumidor.

ZH – No Rio Grande do Sul, há um projeto de lei em discussão com foco na a criação de políticas antibullying, o que já existe em nível municipal, em Porto Alegre. Como o senhor avalia essas iniciativas?

Calhau –
Acho fantástico. Os gaúchos estão dando exemplo. As escolas precisam ser orientadas, precisam ter um protocolo para intervir.

 

 
 
 
 
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