Crônicas da Estação: as faces do frio

Alexandre Fetter inaugura o espaço onde integrantes do Pretinho Básico escreverão sobre o frio

Por: Alexandre Fetter
24/07/2010 - 19h54min

 Zero Hora convidou os integrantes do programa Pretinho Básico, da Rede Atlântida, para contar qual a imagem que eles têm do frio. Pode ser uma lembrança de infância, um filme, um livro, um período de férias. Deste domingo até o próximo, durante a última semana de férias de inverno, eles vão aquecer este espaço com suas impressões. O primeiro deles é o comandante do programa, Alexandre Fetter:

Quando nós, pretinhos, fomos convidados a participar deste espaço pensei em discorrer sobre as maravilhas do inverno.

Desfrutar da possibilidade de imaginar com os leitores os cheiros e gostos da estação do frio, que aguça o paladar e nos faz querer esquentar partes do corpo que nem lembrávamos mais que existiam. O momento sublime do banho e da cama quente. Todas as sensações às quais estamos acostumados. Mesmo com as queixas sobre o frio e a umidade.

Vivemos aqui no Sul, o inverno mais rigoroso do país, e sabemos tirar proveito disso com elegância e criatividade. Até optamos por ir para a Serra ao encontro do frio. Fogões à lenha, sopas, vidros embaçados, pisos e lençóis térmicos, casacos de pena de ganso, bancos do carro que esquentam. O mate, o café preto forte, o feijão, o secador de toalhas no banheiro, a secadora de roupas, a manta e a touca, o vinho. Necessidades básicas atendidas para amenizar a chatice da estação.

Para quem circula na faixa social entre remediados e ricos, o inverno é mais um motivo para buscar alternativas de diversão, entretenimento e boa gastronomia. Cafés coloniais, galeterias e cantinas, tudo sempre lotado e muito disputado. Barriga cheia e corpo quente é definitivamente a combinação perfeita para passar-se bem pelo inverno.

Num outro quadro, a disputa acirrada por vagas debaixo de pontes e marquises. O chão duro, frio e úmido da casinha pobre ou da rua. A roupa molhada. As filas nas emergências, as doenças respiratórias. As crianças de rua.

A comida, que quando tem é quase sempre fria, exceto quando aquelas pessoas especiais de espírito diferenciado abandonam o conforto de seus lares e saem à rua a distribuir sopa e agasalhos para esses pobres miseráveis. Quem já não viu esta cena? Quem já não foi tocado por esta cena?

Quem é capaz de fazer igual?

A vida ao relento e sua triste sentença.

O inverno separa ainda mais pobres de ricos pelos hábitos. Só os une na esperança de que dias mais secos e quentes não demorem a chegar.

 
 
 
 
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