Livro que relata estupro põe escritora gaúcha no centro de polêmica

MEC enviou para bibliotecas de colégios públicos 11 mil exemplares de obra

13/08/2010 - 03h05min
Livro que relata estupro põe escritora gaúcha no centro de polêmica Emílio Pedroso, BD/
Na opinião da autora, texto não é inadequado aos alunos Foto: Emílio Pedroso, BD  
Com texto que relata sequestro, estupro e assassinato, o livro de uma escritora gaúcha provocou uma divergência educacional. Especialistas se dividem sobre envio de 11 mil exemplares da obra Teresa, que Esperava as Uvas, de Monique Revillion, para bibliotecas de escolas públicas. É um material de apoio para estudantes do Ensino Médio.

A divergência se intensificou a partir de uma reportagem no jornal Folha de S.Paulo de ontem. Os defensores da remessa do livro argumentam que esses temas estão na mídia e podem servir de reflexão em sala de aula. Outros especialistas consideram o conteúdo e a linguagem desaconselháveis para os adolescentes.

– O conto é inapropriado pela grande carga de violência e erotização – diz a psicopedagoga Maria Irene Maluf à Folha.

O Ministério da Educação emitiu nota para defender a seleção da obra.

“Os alunos do Ensino Médio já têm uma formação intelectual que lhes permite refletir sobre a banalidade da vida a que estamos expostos cotidianamente e essa é a proposta do conto”, diz o texto.

Livro de estreia de Monique, Teresa, que Esperava as Uvas conquistou os prêmios Açorianos de Livro do Ano e Livro de Contos, em 2006. As cenas de violência estão no conto Os Primeiros que Chegaram, que narra um sequestro e traz descrições de cenas. “Arriou as calças dela, levantou a blusa e comeu ela duas vezes” é um dos trechos polêmicos.

"A censura será sempre um perigo para a educação"

Natural de São Leopoldo, Monique Revillion, 49 anos, comentou a polêmica em entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Como a senhora recebeu essa polêmica em torno do seu livro?

Monique Revillion – Recebi com surpresa. Como autora, sei que esta é uma questão extraliterária, pois não se relaciona com o processo criativo ou com a concepção de uma obra literária. E o que seria esse “adequado”? O conceito envolve um julgamento moral e de valor que não cabe a mim avaliar.

ZH – A senhora acredita que há conteúdos e linguagens inadequados para alunos de Ensino Médio?

Monique – Não creio que o conto seja inadequado, mas esta é apenas a minha opinião. No contexto, esta resposta depende da forma e das condições com que esse ou qualquer outro texto será trabalhado. De um ponto de vista literário, o conto em questão relata um episódio de violência, narrado a partir do ponto de vista de um dos agressores. Meu interesse e minha preocupação são com a qualidade da literatura que busco fazer, e esta busca não permite esse tipo de consideração nem qualquer tipo de autocensura ou direcionamento por conveniência.

ZH – A senhora vê nessa polêmica risco de censura?

Monique – Sim, lamentavelmente, e a censura será sempre um perigo para a arte e a educação.
 
 
 
 
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