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New York Times

Na periferia de Paris, reforma de prédio vira marco da engenhosidade arquitetônica

Obra na torre Bois-le-Pretre é um exemplo do rejuvenescimento das construções

17/04/2012 | 05h07


 
Paris — À beira de uma rodovia barulhenta e com vista para para um cemitério e um antigo lixão, La Tour Bois-le-Pretre brilha numa manhã primaveril. Revestida por um manto novo de sacadas de vidro e painéis de alumínio ondulados, ela sobe ao céu no limite desta cidade em meio a um cenário decadente de prédios residenciais de concreto e tijolo.

Esta torre de 50 anos já foi um desses prédios. Conduzida por uma equipe criativa de arquitetos locais, Frederic Druot, Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, a reforma é um estudo de caso de engenhosidade arquitetônica e rejuvenescimento cívico. Também é um desafio a inovadores urbanos. Em vez de trocar a velha torre por um prédio novo em folha, os designers identificaram o que valia a pena na arquitetura existente e realizaram acréscimos.

Chama-se remodelação. Preservacionistas dos Estados Unidos defendem há tempos os benefícios de reutilizar estruturas obsoletas. Como cerca de 80 por cento das construções norte-americanas foram erigidas nos últimos 50 anos, o reuso parece a onda inevitável do futuro. A prática é incomum em grandes projetos habitacionais públicos. Porém, existem algumas tentativas bem-sucedidas. Esta é a mais recente.

Como em muitas cidades, bairros pobres nos arredores de Paris e dentro dos subúrbios da cidade são dominados por esses projetos tão criticados dos anos 60 e 70. Pouco tempo atrás visitei Sevran, um dos subúrbios mais pobres de Paris, onde começaram os tumultos que se espalharam pela França, em 2005. O desemprego agora paira acima dos 40 por cento entre a juventude de lá. A violência cresceu nos últimos anos. Aconteceu um tiroteio num jardim de infância não faz muito tempo.

Sevran está cheia de torres residenciais. A política francesa favorece a demolição desses projetos e a transferência dos moradores. Várias torres foram derrubadas em Sevran, substituídas por hortas comunitárias, campos esportivos, novos conjuntos habitacionais e uma escola. Mais torres estão vazias, à espera da destruição.

O presidente Nicolas Sarkozy propôs uma ampla extensão do sistema metroviário de Paris que ligaria o centro da cidade a dezenas de subúrbios afastados, como Sevran, além de novos distritos comerciais longe de centros urbanos. O emprego e o crescimento dependem do acesso melhorado ao transporte público.

Stephane Gatignon, prefeito de Sevran, disse-me que "apenas a renovação urbana não pode resolver nossos problemas de desemprego e drogas. Porém, ao menos nos dá a oportunidade de viver com mais dignidade". A arquitetura tem seus limites óbvios e naturais, mas é igualmente poderosa.

É o que se dá com La Tour Bois-le-Pretre, na ponta mais distante do 17º "arrondissement", um distrito misto com bolsões persistentes de pobreza, que também receberia uma extensão do metrô. A torre era uma candidata natural à bola de demolição francesa após décadas de descaso e decadência, mas os moradores não queriam perder os lares. Então surgiu uma pergunta incomum: será o que prédio seria candidato a uma abordagem diferente?

Foi organizada uma competição pela Paris Habitat, órgão parisiense de habitação pública, em 2005, para reformar o edifício. O desafio: consertar a infraestrutura desgastada da torre, atualizar as áreas comuns e o exterior e — na parte mais radical — levar mais luz e espaço a apartamentos escuros e apertados, sem mudar a área ocupada pelo prédio, que não poderia ser aumentada.

Ah, sim, e gastar menos dinheiro em tudo isso do que o custo de demolir o edifício e reconstruir.

Projetada por Raymond Lopez e inaugurado em 1961, a torre de concreto pré-fabricado de 16 andares já havia passado por uma reforma feia e claustrofóbica nos anos 80. Vários competidores propuseram deixar a estrutura basicamente intacta, mas remover o interior. Lacaton, Vassal e Druot venceram a competição com uma nova abordagem.

Eles trabalhariam de dentro para fora para melhorar a iluminação e o espaço, dando à torre uma pele maior e renovada, criando uma estrutura para envolver o prédio. Isso aumentaria as lajes dos apartamentos para adicionar jardins de inverno ou solários e sacadas que trariam luz abundante, aumentando o tamanho de todos os 96 apartamentos.

A proposta incluía um novo saguão, elevadores, cozinhas e banheiros e muitas novas plantas baixas. Ao contrário das outras propostas, ela propunha que os moradores não precisassem se mudar por meses ou anos a fio. Essa última parte era crucial porque as pessoas removidas de casa por longos períodos costumam não querer voltar. Lacaton, Vassal e Druot os desalojariam por períodos relativamente curtos; a remodelação demoraria menos de dois anos.

Os jardins de inverno e as sacadas seriam acrescentados usando módulos pré-fabricados erguidos como andaimes pelo lado de fora. Perfurar a fachada antiga para ligar os módulos aos apartamentos levaria apenas um dia por apartamento. Os moradores que saíssem para trabalhar pela manhã voltariam à noite para encontrar uma casa muito maior e inteiramente nova, com portas de vidro do chão ao teto dando para jardins de inverno envidraçados que levavam a sacadas, com vista para os distantes Torre Eiffel e La Défense.

Os boatos começaram a se espalhar sobre a torre antes de estar pronta. O design foi apresentado numa exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 2010. Iniciada em 2009, a construção terminou meses atrás.

A conta?

US$ 15 milhões, pouco mais da metade do que a demolição e a reconstrução teriam custado (US$ 26 milhões).

Fui à torre com Lacaton um dia desses, para ver sua cara e conversar com os moradores.

A impressão era de elegância e graciosidade. Um morador reclamou sobre o elevador quebrado, outro dos moleques "sombrios" que se reúnem nos corredores recém-pintados de verde-claro, agora cheios de luz e janelas amplas. Os halls se tornaram lugares mais atraentes para eles e não havia seguranças para expulsá-los. Lacaton ouviu com educação.

— Não — respondeu a Irmã Ann-Marie Mevellec quando perguntei se gostou das mudanças no apartamento. Residente há uma década, ele sorriu caridosamente. A cozinha era pequena demais. O jardim de inverno era frio demais no inverno, muito difícil de manter limpo. Ela sente falta da velha galeria, onde cultivava verduras.

Jardins de inverno e sacadas sem aquecimento não costumam ser usados nas modernas torres de apartamento. Muitos dos que vi funcionavam como closets. Porém, eles trouxeram luz e espaço. Mevellec concordou que o prédio como um todo estava melhor. Os custos com energia caíram 60 por cento. A torre tem novos espaços comuns ensolarados.

Marie-Jean Benjamin, cabeleireira aposentada que criou sete filhos no apartamento que ocupa há 47 anos, contou lembrar-se que o prédio, ao ser inaugurado, era um lugar apertado e escuro num bairro horrível, abrindo espaço para o anel viário. Então, encanamento interno era um luxo para uma família pobre em busca de uma casa boa. Ela me mostrou os novos banheiros, cozinha e jardim de inverno no qual colocou o bar, alguns tomateiros e uma bicicleta ergométrica.

— Tenho orgulho do prédio — ela disse.

As janelas de plástico ondulado que os arquitetos escolheram para alguns dos jardins de inverno parecem inteligentes, reduziram os custos e dão privacidade aos moradores em relação ao lado externo. Só que também escurecem a vista para quem está dentro.

Os painéis de alumínio ondulado cintilantes que cobrem partes da fachada refratam a luz. Elas mudam de cor de acordo com a hora e as estações do ano, feito titânio barato, dissolvendo a massa do edifício. Porém, é difícil mantê-los limpos. Não importa o quanto uma obra arquitetônica reduza o consumo de energia, seja econômica e bonita, ela ainda depende da manutenção e da segurança. Lacaton disse estar repensando os materiais que usaria numa remodelação semelhante, mas muito maior, em Bordeaux.

De lenço no pescoço e mocassim, Jeanine Gaillard, de 81 anos, há 21 morando na torre, estava naquele momento levando seu carrinho de compras de lona na direção da rodovia. Ela lamentou que o mercado mais próximo ficasse do outro lado do anel viário, a quarteirões dali.

— Depende de como você faz a pergunta — Lacaton respondeu quando questionada se o edifício ficou como ela esperava. Os arquitetos não conseguiram consertar o bairro nem fornecer segurança 24 horas, ela explicou. Porém, eles puderem fazer algo agradável cuja aparência proveio das poucas opções de materiais disponíveis, dentro de um orçamento pequeno.

— A estética nasceu puramente das decisões sobre a qualidade do espaço — Lacaton insistiu. — Poderíamos ter feito algo divertido e na moda do lado de fora, para ficar melhor, se tivéssemos colocado somente algumas sacadas aqui e ali. Contudo, nossa prioridade era melhor as condições de vida para todos.

Eles fizeram isso, acrescentando um ponto de referência à paisagem de Paris.

 
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