Dia do Trabalhador

Reportagem especial conta cinco casos de quem encontrou no trabalho a sua superação

Da menina de que saiu da Febem e virou administradora de empresas até o pedreiro que se formou em Medicina, os relatos são exemplos de determinação

27/04/2012 | 16h56

Em homenagem ao Dia do Trabalhador, Zero Hora ouviu cinco pessoas para quem a labuta ajudou a modelar um destino promissor. Em diferentes níveis — do pedreiro que virou médico, passando pelo deficiente mental que sustenta a família, pelo advogado que superou um câncer estudando para um concurso até os dois meninos de rua que galgaram uma posição —, todas as histórias mostram que determinação é a chave.

Confira a íntegra de uma delas. A reportagem completa você lê neste domingo em Zero Hora.

 

Confira o vídeo com a história de Jorge Luis:

Jorge Luis Martins já cheirou à urina, bebeu resto de leite e foi enxotado de todos os lugares onde procurou abrigo. Dos 10 aos 16 anos viveu na rua, até os 13 em Novo Hamburgo, onde nasceu, e o restante em Porto Alegre, para onde foi trazido. No coração, um objetivo: sobreviver.

O estado deplorável rendeu a ele o apelido de Múmia Paralítica. A boa índole, conservada da criação que recebeu da avó, Elvira, atraiu pessoas bem-intencionadas. O menino que dormia em uma caixa de sapato assim que nasceu, prematuro de sete meses, ansiava por trabalhar, ainda mais depois da morte da avó, única pessoa que lhe deu apoio.

Assim que conquistou a primeira oportunidade não largou mais. A força de sua história fez dele um escritor. A intensidade da sua luta o tornou empresário, dono de uma locadora de veículos, com mais de 10 carros, de uma casa de dois andares e terraço, de quatro imóveis que aluga no Litoral Norte, de um violão e de passaporte carimbado para destinos turísticos desejados, como a Europa.

Aos 53 anos, depois de cursos de teatros e aparições em longas-metragens, Jorge fala da sua trajetória em terceira pessoa. A comoção só bate quando lembra dos parceiros que dividiam concreto na mesma praça no centro de Novo Hamburgo.

— Nunca mais encontrei ninguém. É possível que estejam todos mortos. Eu mesmo fui desenganado, mas me agarrei na promessa que havia feito à minha avó de que não iria virar um marginal — derrama-se.

No colégio, ficou apenas até a quarta série. Depois de grande, de ter conquistado casa e trabalhado nos mais diversos ofícios — de engraxate, taxista, motorista de Kombi escolar, garçom, vendedor de bala e frutas, gerente de hotel a corretor de imóveis — voltou a estudar. Fez supletivo com quase 30 anos, curso de inglês e se formou em Administração, em 2007, pela Fargs.

— Meu primeiro emprego foi no restaurante da Assembleia Legislativa, com 14 anos. Ainda dormia na rua, mas dava para pagar uma pensão vez ou outra. Sabia que só o trabalho poderia me salvar — reforça.

Das chances de ser corrompido, Jorge Luis poderia montar um catálogo. Viveu entre traficantes e prostitutas e passou uma temporada de um ano e dois meses no presídio, em 1979.

— Essa foi a única vez em que pensei em fugir para os guardas atirarem em mim. Quis tirar a minha vida por que batalhei para mostrar à minha família que eu não seria um marginal. Eu estava preso por uma bobagem, um crime que não cometi.

Nuances como essas são narradas no livro Meu nome é Jorge, lançado em 2010, pela editora O sonho da traça, da qual também é proprietário. A autobiografia já está na terceira edição e o motivou a escrever a segunda obra: O menino da Caixa de Sapatos, já na gráfica. Seu percurso virou documentário em vias de ser veiculado e já foi sondado para filme. O terceiro livro, A magia do relacionamento, promete para 2013.

— Reverti todos os sentimentos ruins e as maldades que me fizeram para o bem. É o que tento demonstrar hoje através das palestras. Luto para tentar salvar alguém através da literatura e do meu dia a dia — completa Jorge.

 
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