Lembranças da ditadura

Carlos Araújo conta como fugiu da tortura: Atirei-me em frente a uma Kombi para ficar bastante ferido

Na quarta, Comissão da Verdade foi instalada no país para esclarecer crimes do regime militar

17/05/2012 | 09h29
Na quarta-feira, um ato solene, repleto de simbolismos, instalou no Brasil a Comissão da Verdade, que tem como função esclarecer os crimes cometidos durante o regime militar. Emocionado com o passo dado pelo governo federal, o ex-deputado e ex-marido da presidente Dilma Rousseff, Carlos Araújo, relatou nesta manhã ao programa Gaúcha Atualidade como os presos políticos eram torturados à época da ditadura:

— No momento em que a gente era preso, era lançado dentro de um carro e começava a tortura lá dentro mesmo que era para falar imediatamente para que nossos companheiros não tivessem tempo de fugir.

Capturado em São Paulo, Araújo passou dias inteiros sendo torturado na Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) pendurado em um pau-de-arara, tomando choques elétricos e pauladas.

— Jogavam água em cima da gente e ligavam os fios nos nossos órgãos genitais, nas nossas extremidades. Os fios eram ligados à TV e, cada vez que trocavam de canal, era um choque terrível — disse. 

O ex-deputado conta que médicos acompanhavam a sessão para confirmar se o preso aguentaria mais tortura. Para escapar, Araújo mentiu aos militares que se encontraria com o também militante Carlos Lamarca em uma rua movimentada, para onde foi levado.

— Até que finalmente me atirei embaixo de uma Kombi para ficar bastante ferido, ir para o hospital e conseguir ganhar pelo menos mais cinco dias. Fui para uma clínica, e me levaram para o hospital militar, onde fiquei oito dias em tratamento. Lá, eles tentaram me torturar, mas as freiras não permitiram. Isso me salvou da tortura neste período — completou.

Depois, a tortura diminuiu:

— A situação era menos dramática porque eu já não tinha o que falar em relação às pessoas, que já tinham saído do alcance da repressão, e ninguém poderia ser preso. O que ocorreu comigo ocorreu com todos que foram presos, inclusive com a Dilma.

Sobre a Comissão da Verdade, Araújo se disse emocionado. O ex-deputado explica que há cerca de 300 pessoas que foram mortas no país e cujos destinos dos corpos são desconhecidos. 

— Um povo que não conhece a sua história, não pode planejar seu futuro. A comissão vai esclarecer alguns fatos da nossa história como foi colocado ontem pela presidente: sem revanchismo, sem retaliação.

Ouça a entrevista na íntegra:

 
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