Má remuneração

"Como posso festejar com salário de R$ 750?", questiona dona da melhor nota no concurso do Magistério

Maura Bombardelli, 24 anos, acertou o equivalente a 97% da prova que reprovou 92% dos candidatos

19/05/2012 | 23h56
"Como posso festejar com salário de R$ 750?", questiona dona da melhor nota no concurso do Magistério Tadeu Vilani/Agencia RBS
Maura, a primeira colocada no concurso do magistério Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS
Dona da melhor nota na polêmica prova do magistério gaúcho, a jovem Maura Bombardelli, 24 anos, vive a dualidade da vitória. A felicidade pela superação de ter acertado o maior número de questões das 30 regiões contempladas no concurso contrasta com a certeza da má remuneração que a aguarda.

Por isso, Maura não se reserva o direito de se sentir felizarda, como fazem os vencedores. Guardou para uma próxima oportunidade a comemoração. Só contou aos pais sobre o feito um dia depois e se esforçou para compartilhar da mesma emoção ao saber da meta alcançada.

— Como posso festejar se o salário que me aguarda é de R$ 750? — questionou ela.

Na prova que valia 80, Maura atingiu média 77,6 — o que equivale a 97% do teste. Está entre os 281 aprovados do universo de 830 candidatos à habilitação em História na Capital. Essa é a terceira disputa em que Maura chega em primeiro lugar.

Conquistou o feito no ano passado, na avaliação das prefeituras de Gravataí e de Guaíba.

O paradoxo se intensifica pela qualificação da futura docente de uma das 259 escolas estaduais de Porto Alegre. É formada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), está no primeiro ano do mestrado em História Política na mesma instituição e já ganhou dois troféus: um de iniciação científica, outro de jovem pesquisador.

Durante toda a vida, ela estudou em escola pública

Esse crescente intelectual é fruto de muita disciplina, leitura e curiosidade pelo mundo. A jovem nunca perdeu a rotina de estudos de vista — concluiu a faculdade, passou a estudar para o mestrado e para concursos paralelamente. O trabalho voluntário como professora em um cursinho pré-vestibular para alunos de baixa renda turbinou o preparo. Apesar de dizer que foi bem preparada durante a vida acadêmica na UFRGS, Maura ressalta que a prova não reflete o que foi visto na sala de aula.

— Por isso é que o esforço individual é muito importante. Vai do candidato buscar por fora meios de se preparar. A aula que eu dou no curso pré-vestibular estava mais próxima da prova do que o que eu aprendi na faculdade.

À primeira vista, o perfil reservado da garota enxuta de 1m65cm remete a alguém firme e rigoroso. Aos poucos, ela deixa transparecer uma personalidade sensível. A visão que os outros têm da profissão que escolheu para si não a deixa lá tão confortável:

— Sei que muita gente acha que estou jogando a minha capacidade fora em uma profissão sem retorno financeiro — diz a caçula de três irmãs: uma advogada e a outra gerente de banco.

Filha de professora estadual aposentada, Maura se diz inspirada pela mãe. Toda a vida estudou em escola pública. Concluiu o Ensino Fundamental em São Jorge, município do interior do Estado, onde nasceu, e o Ensino Médio, em Nova Prata, cidade vizinha. Há sete anos mora em Porto Alegre. Quando pensa na conquista, não consegue achar destaque na sua conduta.

— Sou normal. Não sou gênio, brilhante. Faço o que todo o estudante deveria fazer: estudar — ensina Maura.

Mesmo com a insatisfação financeira que lhe desarma o olhar cintilante, Maura nem por um momento cogita desistir da posse. Encara-a como um desafio, o primeiro passo no mercado de trabalho:

— Dar aula é sensacional, mas entristece por que, diante de qualquer concurso melhor, vou largar.

A receita de Maura

— Estuda diariamente para o mestrado e para concursos.

— O treino do cérebro para a compreensão da prova foi potencializado pelas cem páginas que lê para as aulas da pós-graduação.

— Um mês antes, adquiriu uma apostila e passou a devorá-la durante duas horas diariamente.

— O curso de história da UFRGS deu uma base sólida.

— O preparo individual é importante. Muitas pessoas acham que por terem feito faculdade estão preparadas e, na verdade, falta o bê-á-bá.

— O fato de estar estudando continuamente ajudou a solidificar os conhecimentos.

As críticas à prova

— Há um distanciamento do que é ensinado na faculdade e o que é cobrado, que geralmente são conteúdos mais tradicionais, que não são tão trabalhados na academia.

— Seguir o edital foi praticamente impossível, já que a cobrança de leitura foi acima do plausível: mais de 30 obras de pedagogia e literatura específica de cada curso.

— As únicas três questões que Maura não acertou diziam respeito a conhecimentos interdisciplinares — conhecimentos humanos e suas tecnologias — raramente ensinados em materiais didáticos e sala de aula.

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