New York Times News Service

Escândalo envolvendo agentes americanos e prostitutas preocupa moradores de Cartagena

Barulho gerado sobre algo tão banal, aos olhos locais, como um homem levar uma mulher a um hotel e pagar por sexo, deixa muitos perplexos na cidade da Colômbia

08/05/2012 | 02h31
Escândalo envolvendo agentes americanos e prostitutas preocupa moradores de Cartagena  Meridith Kohut/NYTNS
Prostitutas moram em bordéis em Cartagena, na Colômbia Foto: Meridith Kohut / NYTNS


Cartagena, Colômbia
– Numa tarde de terça-feira em abril, esfregando os olhos cansados pela falta de sono e ainda borrados pela maquiagem da noite anterior, as funcionárias do Angeles Bar Club caminhavam para um pequeno quarto cheio de adesivos da Sininho e da Bela Adormecida, sentando-se numa cama com um edredom verde limão para serem testadas para doenças sexualmente transmissíveis.

Essa é uma rotina semanal nos bordéis em Cartagena, onde um próspero e legalizado mercado de prostituição, principalmente voltado para turistas estrangeiros, tornou-se foco de atenção nacional desde que um grupo de agentes do Serviço Secreto americano se envolveu num escândalo por supostamente levar prostitutas a seus quartos de hotel.

— Eles só falam do lado negro da prostituição — afirmou a proprietária do clube, que atende por Camila, referindo-se às notícias sobre a turbulenta vida noturna de Cartagena. Ela folheava uma pilha de pastas contendo os resultados dos exames de suas 22 funcionárias. O bordel insiste que todos os clientes usem preservativos e, segundo um funcionário da saúde pública que trabalhava com o clube, nenhuma das prostitutas foi infectada em três anos de exames.

— Isso é pelo bem dos clientes e das meninas — disse Camila, após pedir que seu verdadeiro nome não fosse usado, pois algumas pessoas não sabem que ela administra um bordel. — Elas têm familiares a quem mandam dinheiro, filhos que querem ver crescer.

Os moradores de Cartagena, dentro e fora dos bordéis, têm lutado para lidar com toda a comoção sobre as atividades noturnas de agentes de segurança americanos antes da chegada do presidente Barack Obama a Cartagena, em 13 de abril, para uma reunião de cúpula.

Muitos aqui estão perplexos pelo barulho gerado sobre algo tão banal, aos olhos locais, como um homem levar uma mulher a um hotel e pagar por sexo.

Alguns também expressam irritação e orgulho nacional ferido em relação ao comportamento do agente do Serviço Secreto que se recusou a pagar e que, segundo a mulher envolvida, gritou um impropério para ela e a trancou do lado de fora de seu quarto de hotel, criando uma confusão logo pela manhã.

— Só porque você vem de outro país e trabalha para Obama, isso não lhe dá o direito de vir até aqui e tratar alguém com desrespeito — afirmou uma funcionária do Angeles de 28 anos, que trabalha como prostituta há seis anos.

Numa entrevista logo após o estouro do escândalo, a prostituta no centro dos eventos tocou no mesmo ponto.

— Você não pode ir a outro país e fazer o que quiser com uma mulher — disse ela. — É preciso respeitá-las.

A mulher, que desde então deixou Cartagena, declarou num e-mail recente que não falou com os investigadores americanos que buscavam entrevistar as mulheres locais que estiveram nos quartos dos agentes.

A prostituição é legalizada na Colômbia, e muitos daqui concordam com isso. Mas a postura colombiana quanto à prática não é tão simples. Sob muitos aspectos, a Colômbia é uma sociedade profundamente tradicional – e trabalhar como prostituta carrega um pesado estigma.

Em entrevistas, diversas prostitutas admitiram esconder a profissão de suas famílias. A maioria veio de outras partes do país, como Medellín ou Cali, buscando minimizar as chances de algum familiar descobrir como elas ganham a vida em Cartagena.

— Se minha mãe soubesse, ela não aceitaria o dinheiro que mando e tentaria tirar minhas filhas de mim — explicou uma prostituta de 28 anos, nascida em Medellín.

Naquela terça-feira, no quarto número 7 do bordel, todas as mulheres deram uma parte de seu lucro para pagar pelos exames. O teste semanal para infecções vaginais custa cerca de US$ 6. A cada três meses, as mulheres também se submetem a exames de sífilis e do vírus da AIDS, que custam mais US$ 17.

Duas mulheres, aparentemente exaustas pela longa noite, dormiam esparramadas numa segunda cama do quarto apertado, indiferentes às idas e vindas de um técnico de laboratório e seus colegas em jalecos brancos. Uma delas usava uma Minnie Mouse de pelúcia como travesseiro.

Os exames ocorreram durante a tarde, quando o bordel estava sem clientes. Mas, conforme a noite de aproximava, as mulheres se sentavam junto a mesas de plástico para refeições rápidas de arroz, carne desfiada ou ovos mexidos, preparadas pelo cozinheiro do bordel. Outras se dirigiam aos pequenos quartos – onde elas moram e atendem os clientes – para aplicar sombras brilhantes e batons vivos, fazer chapinha nos cabelos, pescar sapatos de salto alto num engradado de cerveja ou vestir as roupas de trabalho.

A mulher que trabalha há seis anos fazendo sexo por dinheiro disse que a maior parte de seu tempo foi passado em bordéis de Bogotá, onde nenhum exame era feito. Ela contou preferir o trabalho em Cartagena, em parte pelos testes – mas principalmente porque os turistas estrangeiros daqui pagam valores mais altos.

Uma mulher refletiu que seria justo que os clientes também fizessem os testes.

Segundo a dona do bordel, isso ocasionalmente acontece.

Às vezes, disse ela, um cliente vem até ela dizer que um preservativo estourou e pergunta se a prostituta com quem ele estava foi testada por doenças sexualmente transmissíveis. Então ela mostra ao cliente os resultados mais recentes da mulher.

Em duas ocasiões, segundo ela, clientes concordaram em realizar testes rápidos de HIV para mostrar que não estavam infectados.

A proprietária afirmou que as autoridades locais de saúde aparecem frequentemente para inspecionar os documentos das funcionárias.

Mesmo assim, o principal jornal de Cartagena, El Universal, lamentou toda a atenção dedicada à cena de prostituição na cidade – e manifestou preocupação de que sua reputação poderia ser prejudicada.

"Isso é tudo de que precisávamos", declarou o jornal num editorial. "Agora Cartagena é a cidade do pecado que corrompe os compatriotas de Monica Lewinsky, Bill Clinton e Heidi Fleiss, a Madame de Hollywood." 

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.