The New York Times

Esperança em meio a melancolia em cidade fronteiriça mexicana

Em Ciudad Juarez, os índices de homicídios têm diminuído significativamente desde o seu pico, em 2010, e as pessoas, principalmente os jovens, estão começando a sair novamente

19/05/2012 | 00h33
Esperança em meio a melancolia em cidade fronteiriça mexicana  Janet Jarman/NYTNS
Rafael Carrillo visita o túmulo de seu irmão Alfredo, morto ano passado em Colima, no México Foto: Janet Jarman / NYTNS

Seu Juarez, México - A multidão brindou com copos de cerveja enquanto modelos principiantes atravessavam a passarela improvisada usando vestidos de noiva estilo princesa de noiva e vestidos tipo jardineira com estampas floridas inspiradas nos índios Tarahumara, todos produzidos por estilistas locais com o desejo de mostrar ao mundo que sua problemática cidade fronteiriça é um lugar não só de homicídios, mas também de moda.

— Hoje, há esperança para a cidade — disse Eli Valle, uma das estilistas que apresentaram as suas coleções durante um desfile em Ciudad Juarez, em abril — Lojas estão sendo abertas. As pessoas abandonaram o medo.

A cidade ainda é terrivelmente violenta. Mas, no geral, os índices de homicídios têm diminuído significativamente desde o seu pico, em 2010, e as pessoas, principalmente os jovens, estão começando a sair novamente, juntando-se a coletivos de arte espalhados pela cidade e até curtindo a noite em boates reabertas.

Os organizadores do desfile, um grupo chamado Amor por Juarez, livremente inspirado na campanha "I Love New York", estão planejando abrir uma boutique no centro de Juarez, no ano que vem.

 
Carmen Plascencia de Carrillo segura uma fotografia de seu filho Alfredo, morto no ano passado em seu local de trabalho

— É muito importante construir a loja em uma zona de conflito, uma área abandonada, que está passando por uma revitalização — disse Ricardo Fernandez, presidente do Amor por Juarez.

É claro que só os desfiles e as aulas de arte não são o bastante para salvar a cidade, e alguns críticos consideram essas iniciativas uma maquiagem dos problemas mais profundos e perturbadores, que envolvem a corrupção policial e jurídica e a economia frágil, que depende cada vez mais de fábricas enormes, conhecidas como "maquiladoras".

— Queremos atingir algo fundamental, transcendental, mas é difícil convencer as pessoas disso, porque é algo intangível e de longo prazo — disse Lucinda Vargas, membro da diretoria do Plan Estrategico de Juarez, um grupo cívico. Em uma cidade onde apenas 10 por cento dos crimes são investigados, Vargas afirma que projetos para ensinar aos jovens sobre o estado de direito e os direitos cívicos são muito necessários.

Gustavo de la Rosa, investigador de direitos humanos do estado de Chihuahua, compara os programas sociais direcionados aos jovens da cidade a uma cobertura de caramelo sobre uma maçã podre.

— Quando o financiamento usado para entretê-los estiver acabado e eles forem obrigados a encarar um futuro amargo, trabalhando por US$ 60 por semana, irão, no mínimo, se deparar com uma realidade diferente — ele disse.

Mesmo assim, esses primeiros passos são importantes em uma cidade onde os jovens foram abandonados, enquanto mulheres operam máquinas perto dali, produzindo telefones BlackBerry e autopeças para mercados estrangeiros.

— Conseguimos nos reunir, como uma comunidade, para concentrar nossas atenções em um subgrupo da população, que foi negligenciado no passado — disse Vargas.

A virada inicial ocorreu em janeiro de 2010, quando 15 pessoas foram baleadas em uma festa no bairro de Villas del Salvarcar; a maior parte das vitimas era composta de estudantes do ensino médio, que foram confundidos com membros de uma gangue rival.

Desde o massacre de Salvarcar, centenas de jovens formaram uma rede, que está crescendo e ganhando poder político rapidamente, enquanto procura criar programas sociais para adultos jovens.

Durante um evento no mês de abril, 40 grupos de grafiteiros rivais encheram um parque abandonado, armados com latas de spray. As imagens que surgiram lentamente nas telas mostraram uma geração jovem mais preocupada com o meio ambiente e a luta das comunidades indígenas locais do que com a violência.

Na periferia da cidade, um grupo de homens de vinte e poucos anos começou a construir uma casa sustentável para uma família de nove pessoas, sustentada por um único adulto. As crianças do bairro ajudam a empilhar sacos cheios de terra durante os fins de semana. O grupo quer expandir esse modelo por toda a cidade, empregando a população local de regiões extremamente pobres na construção de suas próprias casas sustentáveis com poucos recursos.

Em abril, três adolescentes da região se ofereceram para ensinar dança urbana em um dos centros comunitários reformados da cidade. Recortes de jornal com estudantes de tae-kwon-do da região exibindo orgulhosamente as suas medalhas cobriam uma parede no prédio ao lado.

Mas o espírito comunitário não atinge a todos. Edwin Garay, de 19 anos, e Brisa Delgado, de 17, que são sobreviventes do tiroteio em Salvarcar, foram transferidos pelo governo para um bairro distante depois que foram feridos. Hoje, Garay, que levou 12 tiros na perna, e Delgado, que levou um tiro de raspão na cabeça, quase não convivem com pessoas da sua idade. Nenhum dos dois ouviu falar da rede de jovens e seus projetos, e nem conhece algum centro comunitário próximo de onde estão.

Apesar das declarações recentes do governo, que afirmou ter melhorado a segurança, há indicadores claros de que o problema persiste. Uma em cada quatro residências está vazia, e 10 por cento dos carros da cidade não possuem placas, o que constitui um problema de segurança, já que veículos costumam ser usados em crimes violentos.

Em janeiro, depois que pistoleiros mataram oito policiais, a cidade foi obrigada a abrigar a sua força policial temporariamente em hotéis, para proteger os oficiais de possíveis ataques. Há apenas alguns meses, os esqueletos de 12 mulheres foram encontrados em Juarez.

Em meio a toda essa violência, Valle, que se inspirou na ideia de renascimento para criar sua coleção de moda, enfatizando o uso da renda e de materiais transparentes, considerou o seu projeto uma parte da transformação da cidade.

— Desejo inspirar o lado bom das pessoas — ela disse — a paz, e não as forças agressivas.

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