Celebridade instantânea

Gaúcho vira herói ao impedir assalto na China

Caso reabriu debate sobre a falta de solidariedade e individualismo dos chineses

08/05/2012 | 14h28
Gaúcho vira herói ao impedir assalto na China Arquivo pessoal/-
Oliveira ganhou placa de honra ao mérito do governo chinês Foto: Arquivo pessoal / -

Vivendo na China há quase três anos, o gaúcho de Ivoti Mozer Rhian Oliveira, 27 anos, foi alçado a herói e celebridade depois de impedir um assalto na cidade de Dongguan, na província de Guangdong (Cantão), na sexta-feira. Ele foi agredido pelos bandidos e levou 15 pontos na testa. O que impressiona e comove a China é a reação das dezenas de espectadores da agressão: nenhuma.

A atitude de Oliveira, que é gerente técnico e responsável pela qualidade da filial chinesa de uma empresa francesa, reabriu o debate sobre a falta de solidariedade e o comportamento extremamente individualista dos chineses. Leia a entrevista:

Zero Hora — O que aconteceu sexta-feira?

Mozer Rhian Oliveira
— Por volta das 19h30min, eu estava indo para a academia e no caminho, quando estava quase chegando, vi logo à frente uma moça sendo assaltada. O rapaz estava com a mão dentro da bolsa dela. Eu estava com a mão esquerda ocupada com minhas luvas e minha toalha.

Zero Hora — O que você fez?

Oliveira
— Na mão direita eu estava com um guarda chuva. Corri em direção ao rapaz e bati nas costas dele. Foi quando mais dois comparsas vieram para ajudá-lo. Então, eu atravessei a rua correndo em direção ao prédio onde fica a academia. Quando entrei no lobby do prédio olhei para trás e eles estavam junto comigo. Fui atingido no braço esquerdo por um cinto de ônibus com uma fivela. Procurei algo para me defender, mas quando abaixei para pegar uma placa de metal que estava no chão, o segundo cara me bateu na cabeça com um ferro. Foi na testa, sangrou bastante. Quando eles viram o sangue, eles fugiram. Porém, todo o pessoal que estava assistindo o episódio, incluindo os porteiros, não intervieram.

ZH — Quantas pessoas você acha que estavam assistindo à agressão?

Oliveira
— No mínimo umas 50 pessoas. E os agressores eram três rapazes.

ZH — Você acredita que os rapazes eram chineses?

Oliveira
— Sim, claro, são todos chineses, de uma província do norte da China. Fiz o reconhecimento deles no domingo.

ZH — Eles estão presos?

Oliveira
— Eu gostaria de elogiar o trabalho da polícia aqui na China, pois após 20 horas prenderam os caras, acompanhando pelas câmeras de segurança, que são muitas, espalhadas por toda a cidade. No sábado à noite, todos estavam presos, e, no domingo de manhã, recebi na minha casa o oficial chefe da polícia de Dongguan. Ele me presenteou com uma cesta de frutas e trouxe as fotos de todos os suspeitos. Reconheci eles e a polícia disse que, no mínimo, irão ficar presos 10 anos.

ZH — Quem lhe prestou socorro?

Oliveira
— Duas pessoas. A moça que eu ajudei e um professor chinês me auxiliaram a pegar um táxi. Fui para o hospital de táxi para ser mais rápido.

ZH — Quanto tempo você ficou no hospital?

Oliveira
— Até as 2h da manha de sábado, depois fui para casa. Chegaram ao hospital mais de 10 brasileiros para me prestar assistência, pois moramos numa comunidade com mais de três mil brasileiros, 95% deles do ramo do calçado. E toda a imprensa local foi para o hospital para ver o que tinha acontecido com o brasileiro que ajudou a chinesa.

ZH — Como você está agora?

Oliveira
— Estou muito bem de saúde e muito seguro, pois estou sendo muito bem tratado pelo governo local.

ZH — A sua irmã comentou que você já evitou um assalto antes.

Oliveira
— Sim, no ano passado, no mesmo lugar. Eu notei um outro rapaz pegando uma bolsa de uma moça e segurei ele pelo braço. Tinha polícia por perto e em questão de minutos me ajudaram e prenderam o cara. Na última sexta-feira, porém, a polícia não estava por perto.

ZH — Você está sendo tratado como um herói?

Oliveira
— No domingo, alguns jornais me ligaram e perguntaram porque eu tinha tomado essa decisão de ajudar. Disse a eles que eu era cristão e que aprendi sobre o amor ao próximo. O site "Tencent qq", o mais famoso da China, teve mais de dois milhões de comentários sobre o caso. A população estava indignada com a falta de ajuda. Na segunda-feira de manhã, mais de 20 oficiais regionais e locais do governo e da polícia vieram me entregar uma placa de honra ao mérito e um valor em dinheiro com a intenção de estimular a população chinesa a seguir os bons exemplos. Meu telefone não para um minuto, pois são repórteres ligando. Hoje, quando cheguei ao hospital, dois canais de TV filmaram minha entrada e me entrevistaram.

ZH — Você está indignado com o que aconteceu com você?

Oliveira
— Olha, na sexta-feira, eu estava bastante chateado no hospital e falei para alguns jornais que se a população chinesa mudar a mentalidade, esse tipo de situação irá diminuir. Mas me sinto tranquilo pois realmente me sinto mais seguro na China do que no Brasil.

 
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