Mais PMs

População recebe reforço no policiamento do Rubem Berta

O Diário Gaúcho foi à região recordista em homicídios em Porto Alegre e conversou com os moradores

22/05/2012 | 06h40
População recebe reforço no policiamento do Rubem Berta Carlos Macedo/Especial
Leocilda Almeida, 84 anos, observa uma barreira feita pelo 20º BPM Foto: Carlos Macedo / Especial

A população da Zona Norte da Capital ainda não sabe se o reforço no policiamento vai dar certo. Afinal, os 49 PMs vindos o Interior chegaram há duas semanas, não deu tempo para um balanço da criminalidade. Mas uma coisa os moradores do Bairro Rubem Berta já perceberam: há mais policiais nas ruas.

O Diário Gaúcho foi à região recordista em homicídios em Porto Alegre e conversou com os moradores. A cada dez entrevistados, nove disseram ter reparado a presença de militares em locais que, dias atrás, estavam praticamente esquecidos pela Brigada.

- Se eu tivesse esse efetivo o tempo todo, a diferença seria muito grande - reconhece o comandante do 20º BPM, tenente-coronel Paulo Ricardo Quadros.

Os novos PMs possibilitaram mais ações e realizaram prisões importantes.
Confira:

De cabeça quente
Exatamente às 16h de 16 de maio, o comandante do 20º BPM dá a última instrução ao grupo de 69 homens (25 vindos do Interior) que, até a noite do mesmo dia, irá trabalhar nas ruas da Zona Norte. Quinze minutos depois, em comboio de viaturas (dois PMs em cada), os policiais saem para barreiras nas principais vias e ação em possíveis pontos de tráfico. Em menos de meia hora, a ação dá resultado.

Na altura do 9900 da Avenida Protásio Alves, dois PMs de Santa Maria abordam uma dupla em uma Honda CB 300. Na mochila do carona, Douglas Portela Palhares, 24 anos, havia um tijolo de 500g de crack. Condutor da moto, Nicolas Ribeiro, 23 anos, não tinha habilitação. Mas assegurou aos PMs que nada sabia sobre a carga. Esbravejou com Douglas e até o agrediu com uma cabeçada - os dois estavam algemados. Ambos foram contidos pelos policiais Severo Filho e Elisandro Machado.

- Desconfiamos deles e fizemos a abordagem. É o mesmo procedimento do Interior - comentou Elisandro.

"Achei que era algum acidente"

- A diferença é que aqui tem muito mais gente - completou Severo.

A CB 300 e uma Titan 150, sem documentos, foram as únicas apreendidas entre as cerca de 80 motos abordadas na barreira, que durou 90 minutos. Ao ver a movimentação, a doméstica Rose Ronzani, 36 anos, parou para observar.

- Achei que era algum acidente e, como meus dois filhos (18 e 21 anos) têm moto, fiquei cuidando. Nunca tem polícia aqui vistoriando, deveriam fazer mais vezes isso - disse a moradora do Jardim Protásio Alves.

Veja imagens da briga entre os detidos em www.diariogaucho.com.br/videos

Contrariando a pesquisa
Recentemente, uma pesquisa nacional apontou que mais de 63% da população não acredita na polícia. O tenente-coronel Paulo Ricardo Quadros discorda.

- Na Brigada e na Civil, a população acredita, sabe que trabalhamos. Ela não acredita é no sistema judiciário, pois vê a impunidade quando prendemos alguém que volta para a rua dias depois - justificou.

O comandante do 20º BPM sabe que o reforço de quase 30% no patrulhamento tem data para acabar.Conforme a Secretaria de Segurança, serão 60 dias.

"Deveriam fazer mais vezes"

- Vamos trabalhar duro agora, fazer o máximo para limpar a área. Sabemos que o pessoal do Interior não vai ficar aqui para sempre - lamenta Quadros.

Os PMs do Interior ficarão, em princípio, em barreiras e patrulhamentos a pé. E os policiais do batalhão terão mais tempo para preparar ações em bocas de fumo e desmanches clandestinos.

De Santa Maria para Santa Maria e...

Moradora do Bairro Mario Quintana, no limite com o Rubem Berta, a dona de casa Leocilda Almeida evita sair de casa quando escurece. Aos 84 anos, teme a criminalidade. Ela teve duas surpresas seguidas quando, com sacolas de mercado, voltava para casa, na Avenida Manoel Elias. A primeira foi ver uma barreira policial feita exatamente em frente à sua residência. Espantada, ela logo pensou se tratar de uma cena de crime:

- A gente só vê polícia aqui quando tem crime. Eu nunca tinha visto eles cuidarem os carros na frente da minha casa. Deviam fazer isso mais vezes.

A segunda surpresa foi ao saber que os quatro PMs que ali estavam são de Santa Maria, cidade onde ela nasceu e viveu até 1955, quando veio para Porto Alegre - em 1964, Leocilda mudou-se para a atual casa.

Para conhecer a população local

Em um trabalho para conhecer melhor a comunidade, o policial militar Eduardo Souza conversou com sua conterrânea. A idosa disse que, há 20 anos, sequer visita a cidade a 300km de Porto Alegre.

- Mas ela explicou onde morava, é perto do quartel do Batalhão de Operações Especiais. Eu não morava longe dali. Esse contato com os moradores certamente ajuda no trabalho, faz com que as pessoas saibam que estamos aqui e que podem contar com a gente - analisou o soldado.

... de Santiago para Santiago

Antônio Carlos de Oliveira Rodrigues, 30 anos, caminhou algumas quadras na Avenida Manoel Elias para ir até a loja de conveniências na qual há caixas eletrônicos. Era o anoitecer de quarta-feira. Ficou satisfeito ao ver dois PMs andando pelo local.

Enquanto estava na fila para atendimento, escutou os soldados Alexandro Cristofani e Jean Carlos conversando sobre a cidade natal deles. Não se conteve:

- Tchê, vocês são de Santiago? Sou de lá também - disse Antônio, que há 12 anos mora na Zona Norte da Capital.

Os três engataram uma conversa e, como quase sempre acontece com quem mora no Interior, começaram aquelas perguntas: "Minha prima trabalha ali no Centro, naquela loja ao lado do banco..." Assim, eles descobriram conhecidos em comum na cidade de cerca de 50 mil pessoas, a 450km da Capital.

- Aqui (Manoel Elias) é uma zona bem atirada, nunca teve policiais caminhando, e agora a gente vê esses dois... fica bem melhor - opinou Antônio.

Única mulher do reforço percorre a Assis Brasil.

De uma coisa a policial militar Simone Rodrigues de Oliveira não pode reclamar: espaço no alojamento do 20º BPM. Única mulher entre os 49 PMs do Interior que vieram reforçar o batalhão, ela está sozinha no espaço para nove mulheres.

- O horário de trabalho é bom, sobra tempo para fazer coisas durante o dia - disse a PM de Cruz Alta, que ficará dois meses a 350km dos filhos de sete e 15 anos.

Em 21 anos de BM, ela já atuou na Capital. Inclusive no Presídio Central, no controle de visitas. A possibilidade de ter acesso a mais equipamentos é um dos atrativos para a PM, que esta semana fará curso para uso de pistola .40 - atualmente, usa um revólver calibre 38.

Entre 20h e 2h, ela percorre parte da Avenida Assis Brasil, um trecho com bancos, postos e outros estabelecimentos visados por assaltantes. O parceiro de serviço é o soldado Claudir Juliano da Silva, de Palmeira das Missões.

A pedido do comando, ela tem conversado com comerciantes para tentar identificar problemas.

- O trecho é tranquilo, mas sempre requer cuidados - analisou.

"Precisávamos disso"

O pensamento é parecido com o de Rafael Balloc, gerente de posto de combustíveis. Ele surpreendeu-se com a constante presença de policiais na região.

- Dias atrás, vi outros dois aqui perto, a pé. Me chamou a atenção, pois não é comum por aqui. Precisávamos disso para combater o roubo de veículos e outros crimes - afirmou.

Trabalho

- Cinco prisões (dois flagrantes por tráfico e três por porte ilegal de arma)

- 517g de crack, 52g de cocaína e 98,4g de maconha

- Dois revólveres (calibres 38 e 32) e uma pistola 9mm

- 21 munições (sete de calibre 22, quatro de 38 e dez de 9mm)

- Um veículo roubado recuperado

- 648 veículos fiscalizados: (22 autuados e 12 recolhidos)

- Pessoas abordadas: 1358

Obs.: números dos novos PMs do 20º BPM entre os dias 11 e 17 de maio

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