Batismo de fogo

Transferidos do Interior para reforçar policiamento, PMs conhecem submundo do crime na Região Metropolitana

Zero Hora acompanhou, durante oito horas, a estreia dos policiais militares de pequenas localidades gaúchas na patrulha de cidades campeãs de homicídio

14/05/2012 | 03h44
Transferidos do Interior para reforçar policiamento, PMs conhecem submundo do crime na Região Metropolitana Jean Schwarz/Agencia RBS
Integrante do pelotão de São Miguel, soldado Márcio Monteiro não estava habituado com a escopeta calibre 12 que carregava Foto: Jean Schwarz / Agencia RBS

Alvorada, 1h de sábado, 12 de maio. Na cidade com a mais alta taxa de homicídios deste ano no Rio Grande do Sul – 14 assassinatos por 100 mil habitantes –, uma garoa recai sobre o corpo do rapaz estendido no asfalto.

Cristiano Schütz, o Tiano, está deitado como morreu, com os braços para cima, tentando proteger o rosto, olhos vidrados fitando o céu enevoado. Ao lado, sobre uma pilastra de cimento, uma lata de cerveja que ele não conseguiu terminar de beber.

O sargento PM João Maria Moura, 48 anos, observa de perto a cena, olhos atentos. Não é algo a que esteja acostumado. Ele é integrante de um pelotão de policiais militares de São Miguel das Missões, cidade com 8 mil habitantes situada no noroeste do Estado e conhecida por ter as mais imponentes ruínas jesuíticas do Brasil.

Em 25 anos de Brigada Militar, esta é a primeira noite de Moura patrulhando uma cidade de 195 mil habitantes, Alvorada – lugar que ele nunca tinha pisado, até dois dias atrás. É a primeira vez que vem a serviço à Grande Porto Alegre. Foi deslocado do Interior para atuar na força-tarefa com 200 policiais militares que tenta conter o avanço dos homicídios – os assassinatos deram um salto no primeiro trimestre deste ano, especialmente na Região Metropolitana.

Logo Moura e o seu chefe, o tenente Luís Carlos Lemes – também integrante da guarnição de São Miguel –, e outro veterano, com 30 anos de serviço, assistem a uma cena incomum na região de onde eles vêm. Uma loira bonita e bem vestida chega correndo, aos gritos.

— O que vocês fizeram com ele? O quê??? — pergunta a jovem, empurrando os PMs.

O capitão Fábio Kuhn, chefe dos policiais que isolam o local, avisa logo.

— Não fomos nós, dona.

Inconformada, a jovem tenta furar o bloqueio, mas é contida por amigas e pelos PMs.

— Leva ele para o hospital, ainda dá tempo — grita a garota, sem notar que o corpo de Tiano já está rígido, sem vida, em decorrência de mais de sete tiros.

Atentos, como alunos aplicados

Bandos de jovens adolescentes, tênis caros e casacos com capuz, começam a se juntar perto do corpo, sussurrando “vamos pegar esses caras”. São impedidos de chegar mais perto por um cordão plástico estendido pelos policiais ao redor do cadáver. É preciso preservar o local, juncado de cápsulas de pistola, para a perícia fazer seu serviço. Não que os motivos do crime sejam surpreendentes: Tiano, segundo os agentes do serviço reservado da PM, tem antecedentes por tráfico e responde a inquéritos por homicídio. É figura conhecida na Vila Americana, onde morreu, um dos lugares marcados pelas guerras do tráfico em Alvorada.

Moura e Lemes observam tudo, atentos. Apesar das quase três décadas de BM, portam-se como alunos aplicados. Tudo é novidade. Homicídio, em São Miguel, é raridade, menos de um por ano. Via de regra, crime passional ou briga de bar, pondera o tenente Lemes. Assalto, com bandido de arma na mão, idem, coisa de filme.

— Tráfico também quase não se vê. Não com gente armada, pelo menos — compara o oficial, ressaltando que a maior parte do serviço diz respeito a arrombamentos.

Ah, e abigeato. Esse, sim, é o grande problema em São Miguel. Há cerca de um mês, Lemos ajudou a Polícia Civil a prender uma quadrilha com 10 ladrões de gado. Foram pegos no Interior, em ranchos no campo.

— Outro planeta, se comparado com as favelas e edifícios daqui — comenta o tenente.

Não que prender ladrões de gado seja atividade imune a sobressaltos. Na hora de uma dessas prisões recentes aconteceu tiroteio. Ninguém se feriu, os ladrões atiraram para tentar fugir, mas se deram mal. Disparar arma é algo incomum, muito incomum, em São Miguel das Missões.

Tanto que o sargento Moura, o outro veterano desta força-tarefa deslocada para Alvorada, usa apenas um revólver. Faz as abordagens usando essa arma concebida há cerca de 150 anos, que dispara tiro a tiro. Um risco na Região Metropolitana, onde a maioria das quadrilhas usa pistolas. Algumas, até fuzis.

Uma letalidade que não intimidou Moura, que sacou do velho “trezoitão” (o Taurus calibre .38) mais de uma dúzia de vezes nas primeiras oito horas de patrulhamento.

— Homem por homem, a gente também é — avisa Moura.

Patrulha diferente, com uma escopeta

Apesar da firmeza, há preocupação em não posar de herói. Com outros 50 colegas das Missões, Moura recebeu aulas de Direitos Humanos e controle de distúrbios na Academia da PM, em Porto Alegre. Além disso, todos fizeram um “city tour” por Alvorada, de ônibus, na sexta-feira. O veículo circulou pelas principais vilas: Americana, Regina, Umbu e outras menores, também perigosas.

A cada duas quadras, os PMs localizavam alvos suspeitos: bares cheios, danceterias, grupos de jovens fumando e bebendo nas esquinas. Como é de praxe, puseram todo mundo de frente para a parede, mãos na cabeça, bolsos esvaziados. Nas abordagens presenciadas por ZH, ninguém reclamou, é procedimento de rotina na noite alvoradense.

E assim se passaram oito horas: suspeitos de tráfico revistados. Jovens flagrados com droga, detidos. Supostos assaltantes, igualmente detidos. Carros velhos e com documentação irregular, apreendidos. Os veículos foram guinchados. As pessoas, conduzidas a uma delegacia da Polícia Civil, para identificação e possível autuação. Só em Alvorada, mais de 15 ficaram presos, todos com pequenas quantias de drogas ou em posse de veículos roubados.

E como os PMs das Missões conseguiam se locomover por uma cidade onde nunca estiveram? Cada viatura tinha como motorista um policial do 24º Batalhão de Polícia Militar, o que patrulha Alvorada. Não tem beco por ali que o soldado Naelson César de Mesquita, por exemplo, não conheça. Ele serviu de motorista na viatura do sargento Moura. E também de alerta para malandragens dos suspeitos.

— E essa maconha? — questionou Naelson, ao ver um jovem jogar um pacotinho no chão.

O rapaz disse que não era dele.

— Então é minha? Que é isso, rapaz, querendo enganar quem? — retrucou o PM.

E o adolescente foi levado no camburão.

Naelson sorriu ao ver que os PMs interioranos reclamavam do peso do colete à prova de balas. Afinal, em São Miguel não há a proteção para todos e nem sempre se usa. Naelson não tira o seu.

— Há duas semanas, na Vila Americana, fomos abordar uns caras numa moto. Eles viraram e dispararam com pistola. Foi quase... — recorda, evitando usar a palavra “morte”.

Naelson e os colegas alcançaram a dupla da moto. O veículo tinha 6 mil multas, conta.

— 6 mil? — questiona o repórter.

— Sim, 6 mil. Há anos ela é revendida entre malandros, que sequer têm carteira. É a chamada “moto de estouro”, com prestações acumuladas e multas vencidas. O pessoal usa para fazer assaltos — diz Naelson.

Mais uma para a lista de novidades dessa noite interminável para Moura e Lemes. Um terceiro integrante do pelotão de São Miguel, o soldado Márcio Monteiro, foi na janela da caminhonete com a escopeta calibre 12. Uma patrulha bem diferente da que está acostumado, em que espingardas de repetição não são usadas.

Lemes diz que esses dois meses na Grande Porto Alegre (prazo estimado para a força-tarefa contra homicídios atuar) devem ser os últimos da carreira dele. Só lamenta não deixar herdeiro na profissão.

— Tentei convencer meu guri a ser policial. Não quis. Ganha mais como advogado —sorri Lemes.

A noite terminou com mais um homicídio em Alvorada. Uma mulher foi morta em casa, em circunstâncias misteriosas. Emoções mais do que suficientes para uma primeira madrugada, das muitas que virão.

 
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