Aquém das expectativas

Entenda as principais razões do naufrágio da Rio+20

Movimentação no Riocentro é mais calmo com relação a ontem, quando os chefes de Estado de 193 países desembarcaram

Entenda as principais razões do naufrágio da Rio+20 Felipe Dana/AP/Felipe Dana/AP
Faixa de protesto de 150 metros recebeu mensagens e pedidos de cidadãos na praia de Copacabana Foto: Felipe Dana/AP / Felipe Dana/AP

Será mais ou menos como ir ao cinema sabendo o final do filme. O último dia da Rio+20, nesta sexta-feira, deverá servir apenas para a aclamação pelos chefes de Estado do documento aprovado na terça-feira. Houve a concordância dos negociadores das 193 delegações presentes no Riocentro.

Significa que a conferência sobre desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) cumprirá a mais indesejável das expectativas. A de fracasso.

Tudo porque o documento final avança menos do que o esperado, e isso praticamente virou consenso nos movimentados corredores do Riocentro. É a opinião de integrantes de delegações internacionais, representantes de ONGs e até do setor privado. E a má notícia é que, salvo alguma surpreendente reviravolta, não haverá como mudá-lo. Trata-se de uma questão de diplomacia, já que o texto veio de um consenso entre os países.

O maior desgosto é expressado por entidades internacionais. Diretor-executivo da Via Campesina, Chavannes Jean-Baptiste, de Porto Príncipe, reclama da falta de metas para a soberania alimentar. Também vê desprezo ao fomento da produção local de alimentos, inclusive orgânicos.

O diretor-executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado, prefere reclamar da postura dos países:

– Não existe vontade política. As delegações elogiaram um resultado medíocre.

A referência vai a declarações elogiosas de países ricos, como a Alemanha, que veem como pavimentado o caminho da economia verde e do desenvolvimento sustentável.

Secretário da ONU muda o discurso

No salão do pavilhão 5, alguns chefes de Estado colocavam panos quentes na questão. Como o primeiro-ministro do Catar, Hamad Al Thani. Ontem à tarde, o plenário sequer estava cheio quando ele discursou de forma protocolar:

– Apreciamos os esforços da ONU para promover o desenvolvimento sustentável.

E isso que o país está entre os maiores poluidores mundiais.

No hall do setor 5, um amplo espaço no qual os participantes descansam entre as sessões, reinava o conformismo. Em conversas informais, representantes de países como Espanha e Cuba admitiam não ser este o melhor documento.

Foi o contrário do que disse o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon. Na quarta-feira, ele reclamou de falta de ambição no texto final. Mudou de ideia ontem, ao elogiar um documento “ambicioso, amplo e prático”. Fez eco ao que afirmava já na terça a diplomacia brasileira, feliz por fechar as negociações em tempo hábil – e com consenso.

Apesar das críticas generalizadas, houve elogios pontuais. O uruguaio Gustavo Aishemberg, representante da organização da ONU para o desenvolvimento industrial, celebra metas energéticas assumidas até 2030. O gaúcho Rafael Goelzer, da fazenda Quinta da Estância, de Viamão, lembra que a presidente Dilma Rousseff anunciou durante a Rio+20 que as empresas terão de apresentar relatório de sustentabilidade.

São avanços insuficientes para o resultado da conferência virar unanimidade positiva. O uruguaio Aishemberg dá uma boa explicação:

– Não existe nem nunca vai existir um documento que solucione todos os problemas da humanidade.

POR QUE A RIO+20 NÃO EMPOLGOU

Costura política

O fato de haver comemoração pela chegada de um consenso quanto ao documento final, a tempo da cúpula de líderes, mostra o quanto a questão é delicada. Conferências envolvendo ambiente e sustentabilidade tradicionalmente esbarram na falta de flexibilidade dos países – afinal, ninguém gosta de ceder. E sem concessões não pode haver acordo. Apesar de o documento final ter conteúdo mais fraco do que o esperado, a própria ONU reconheceu o bom desempenho da diplomacia brasileira. Vale lembrar que as conversas da véspera vararam a madrugada.

Crise econômica

Medidas para crescimento sustentável são elogiáveis, mas não deixam de significar um sinônimo para gastos. E não há algo que afugente mais os Estados Unidos em recessão e a União Europeia tomada pela crise econômica do que se comprometer a investir. É a explicação para um dos maiores fracassos da Rio+20, a negativa para a criação de um fundo anual de US$ 30 bilhões voltado para a sustentabilidade. Verdade que houve na conferência anúncios de investimento, mas nada com a magnitude da proposta rejeitada.

Ausência de líderes

Faltou quem tivesse coragem de assumir que o tema da sustentabilidade devesse entrar de vez para a agenda dos governos. Chegou-se a mudar a data da conferência para que a Rio+20 não colidisse quem e o Jubileu da Rainha da Inglaterra, no início do mês, e o evento pudesse contar com participação de maior peso internacional. Mas é possível que mesmo com as presenças de David Cameron, Barack Obama e Angela Merckel, teria faltado decisão e comprometimento. Deixou a desejar o surgimento de novas lideranças, e de negociadores capazes de conseguir um texto final mais ousado.

Questões religiosas

Apesar dos esforços para influenciar as negociações da Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, as ONGs que atuam pelos direitos das mulheres ficaram frustradas com o documento final da conferência, que suprimiu a parte que fazia menção à proteção ao direito reprodutivo. As organizações defendiam uma afirmação do direito das mulheres à escolha sobre a reprodução, com acesso a serviços de saúde e educação sexual. O Vaticano, que tem status de observador na ONU, queria retirar essas referências, e teve sua vontade atendida.

OLHOS EM AHMADINEJAD

Quem pisa na impecável alameda do Hotel Royal Tulip, no bairro de São Conrado, talvez não imagine estar a poucos metros de um dos mais polêmicos líderes mundiais.

Porque um solitário soldado armado com fuzil e um carro da polícia com sirenes ligadas representavam as únicas forças ostensivas na casa carioca do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na quarta-feira à noite.

Mas isso do portão para fora. No pátio do hotel, a visita de ZH foi rápida. Após pouco mais de 15 minutos de circulação e de algum papo com os iranianos, dois seguranças do hotel – brasileiros, portanto –, avisaram da proibição quanto à presença de jornalistas.

Foi logo após a partida de uma van branca com cerca de 10 jovens e animados membros da delegação. Iriam jantar e conhecer o Rio, mesmo com chuva. Parte dos cerca de cem iranianos da delegação chegou ao Rio há duas semanas, para os preparativos da Rio+20, a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre desenvolvimento sustentável. Ahmadinejad só desembarcou na terça-feira à noite. Acenou para os presentes na base aérea do Galeão.

A presença de Ahmadinejad no Rio gerou protestos. Já no domingo, representantes de grupos sociais e religiosos foram às ruas em Ipanema. Uma vereadora carioca prometeu protocolar projeto para transformar o iraniano em persona non grata na cidade. E uma inauguração da réplica das colunas de Persépolis, doadas pelo governo iraniano, foi cancelada pela prefeitura.

Mais: anúncios publicados na imprensa, ontem, exortaram a vinda de Ahmadinejad. Antes de ele chegar, a organização internacional United Against Nuclear Iran enviou carta à rede de hotéis que hospedou o iraniano pedindo que a decisão fosse revista, sob ameaça de boicote – sobretudo nos Estados Unidos.

Por esses motivos – e sobretudo pelas ausências do presidente americano Barack Obama e da chanceler alemã Angela Merkel –, Ahmadinejad tomou os holofotes da conferência. Ao discursar na quarta-feira, no Pavilhão 5 do Riocentro, onde ocorre a cúpula com chefes de Estado, optou por uma fala até certo ponto amena. Diante de outros líderes mundiais, ocupou o púlpito de um amplo salão com sete colunas de mesas, cada uma com o nome do país correspondente gravado em placas marrons. E não deixou de criticar indiretamente os Estados Unidos.

– Não devemos buscar a hegemonia às custas de outros povos.

 

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