The New York Times Service

No Senegal, popular estilo de luta cruza dinheiro e misticismo

Das formas de luta tradicional, o laamb atingiu patamares incomparáveis em toda a África

09/06/2012 | 01h40
No Senegal,  popular estilo de luta cruza dinheiro e misticismo  Joe Penney/The New York Times
Lutadores passaram meses preparando o corpo para o combate, com horas de treinamento diário Foto: Joe Penney / The New York Times


Dakar, Senegal – Muitos a chamaram de maior luta de todos os tempos. Outros, apenas de maior da temporada. De qualquer forma, o evento era demasiado grande para a limitação de vagas do Estádio Demba Diop – um fato que não passou despercebido por aqueles que começaram a formar fila do lado de fora, às 9 horas, 10 horas antes do evento principal.

Os famosos lutadores chegaram no final da tarde, sendo recebidos por odes musicais e tambores erráticos. Cada um deles, com agilidade, desafiava sua compleição maciça fazendo a "dança dos campeões" e tomando medidas para repelir a magia negra antes de subir ao ringue. No estádio, os preparativos para a luta, realizada em abril, duraram horas; a luta, poucos minutos. Para os lutadores e seus fãs, no entanto, o resultado duraria anos.

Ainda que existam várias formas de luta tradicional em toda a África Ocidental, a versão do Senegal, conhecida como laamb, atingiu patamares incomparáveis. O laamb termina quando um dos lutadores coloca a cabeça, as costas ou as mãos e os joelhos do oponente no chão. Diferentemente de outras formas de luta, o laamb permite socos em determinados confrontos. É por conta dessas lutas que lutadores, espectadores, patrocinadores, promotores, xamãs, músicos e jornalistas se reúnem a cada fim de semana.

— Nosso costume era lutar pela honra da aldeia — disse o comentarista esportivo Malick Thiandoum, da Rádio e Televisão do Senegal. — Hoje, com os eventos sendo televisionados, e patrocinadores investindo muito dinheiro para ter visibilidade, as lutas se tornaram a forma de sustento de muitos lutadores.

O esporte, que já tem séculos, começou como uma atividade recreativa de pescadores e agricultores. Ocasionalmente, eles lutavam e faziam apostas por sobras da pesca e da colheita. O laamb se tornou uma profissão viável quando o Senegal conquistou sua independência da França, em 1960; os lutadores começaram a receber cerca de 200 dólares por confronto.

Hoje, a tarifa vigente é de 100 mil dólares para lutas de primeira linha, sem incluir os eventos coadjuvantes. Dadas as tarifas e a cobrança de comissões envolvidas na luta em abril, os combatentes – Yahya Diop, que usa o nome artístico Yekini, e Omar Sakho, que atende por Balla Gaye 2 – receberam cerca de 300 mil dólares, de acordo com os meios de comunicação locais.

Tais pagamentos são possíveis graças ao patrocínio de empresas multinacionais que operam no Senegal, país que tem vivenciado um crescimento médio anual do produto interno bruto de mais de 4 por cento nos últimos 20 anos. A nação, porém, é assolada pela desigualdade de renda. Com quase metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza, o laamb representa uma oportunidade de ascensão para muitos jovens, assim como para as famílias pelas quais são responsáveis.

— Quero me tornar um campeão e ser milionário — disse Ousmane Sarr, de 23 anos, que competiu em muitas lutas "simples" – nas quais não é permitido dar socos – mas em apenas um combate de contato total. — Preciso participar de mais lutas com socos para que possa parar de trabalhar como mecânico quando a temporada terminar.

Porém, o percentual de lutadores que se tornam ricos com o esporte é minúsculo. Dos mais de 3 mil lutadores inscritos, apenas uma dúzia ganha mais de 100 dólares por combate, e os lutadores participam de apenas um confronto por ano.

— A juventude do país está vivendo uma miragem, uma espécie de sonho — disse Thiandoum. — Mas temos tentado dizer aos jovens que tenham cuidado, pois existe um fosso entre o que acreditamos e a realidade.

Durante uma temporada, acrescentou ele, a grande maioria ganha menos de 2 mil dólares no ringue; muitos não ganham nada.

O esporte, como grande parte da população, está migrando das zonas rurais para as urbanas, e buscando moradia nos subúrbios de alta densidade populacional de Dakar – onde há poucas oportunidades e o índice de criminalidade é alto.

A magnitude do recente embate entre Yekini e Balla criou a ameaça de violência, que ocorreu, em parte, antes do evento. Em uma pesagem realizada em uma coletiva de imprensa, no luxuoso Hotel Radisson Blu, em Dakar, menos de duas semanas antes do combate, uma briga eclodiu entre os lutadores e suas comitivas, e do lado de fora, entre os torcedores – que foram dispersados com gás lacrimogêneo com a chegada do batalhão de choque.

Tais incidentes fizeram com que o esporte fosse analisado mais detidamente. A partir da próxima temporada, o Comitê Nacional para a Administração da Luta Livre, um conselho de 13 membros ligado ao Ministério do Esporte, vai expandir a sua jurisdição regulamentar das lutas, a fim de abranger todos os aspectos do laamb. A decisão é uma resposta ao incidente ocorrido no hotel, já que não foi possível penalizar os lutadores sob o sistema atual.

A gigante de telecomunicações francesa Orange, principal patrocinadora da luta entre Yekini e Balla, também está repensando, à luz da violência, o modo como como aborda o laamb. Após a briga, outdoors com as frases "a paixão é mais intensa quando se joga limpo" e "o modelo de um esporte sem violência" substituíram as imagens dos dois lutadores ao lado do logotipo da Orange em toda Dakar.

A empresa ainda não discutiu publicamente qual será o seu enfoque para a próxima temporada, exceto para dizer que o laamb é uma parte indispensável dos seus interesses no Senegal.

— Segundo nossas pesquisas, o laamb é o esporte mais popular daqui – ainda mais do que o futebol  disse Magatte Diop, diretor de patrocínios da Sonatel, subsidiária senegalesa da Orange. — Patrocinar a luta livre nos aproxima emocionalmente do consumidor senegalês.

O espetáculo e os logos dos patrocinadores não ficam apenas no ringue. O ingresso para a luta permite que o torcedor assista cinco ou seis confrontos, que podem durar de alguns segundos a 40 minutos (dependendo do estilo dos lutadores e dos riscos que estão dispostos a assumir). Com os longos intervalos entre as lutas, o espetáculo tradicional faz parte de um programa que inclui preparativos místicos, que foram generosos no dia da luta entre Yekini e Balla.

Ao tirarem seus roupões de aquecimento, estampados pelo logotipo da Orange, os lutadores revelaram talismãs mágicos chamados gris-gris (pronuncia-se gri-gri), enquanto se preparavam para tomar banhos de proteção de cores e tamanhos variados.

— Os gris-gris e os banhos são apenas para proteger contra as línguas e os olhos negativos — disse Mbaye Gueye Dieng, um marabu, ou guia espiritual, segundo a tradição mística sufi, prevalente entre a maioria muçulmana do Senegal.

Ambos os lutadores passaram meses preparando o corpo para o combate, com horas de treinamento diário em instalações aqui e no exterior, onde têm acesso a equipamentos e a um treinamento de melhor qualidade. Mas muitos acreditam que as lutas são vencidas ou perdidas no plano espiritual.

— Os preparativos mais importantes são feitos na casa do marabu — disse Dieng sobre o gris-gris que contém versos corânicos, os banhos de infusão com casca protetora de um baobá local e outros elementos.

Quando chegou a hora da luta começar, o árbitro, de uniforme fornecido pela Orange, fez soar o apito de modo ensurdecedor. Após 2 minutos e 6 segundos de luta e pancadas, Yekini sofreu sua primeira derrota em 20 lutas profissionais ao longo de mais de 15 anos, quando Balla Gaye 2 derrubou as costas do "Rei da Arena", de 145 quilos, na areia.

Balla Gaye 2 correu para o corner e abraçou o empresário, enquanto a equipe de Yekini se apressou para ajudar o campeão caído, visivelmente abalado, e tirá-lo do ringue. Na saída, com o rosto sorridente, ele mostrava um certo alívio. Yekini, de 38 anos, diria mais tarde que estava pensando em ser aposentar.

— Sacrifiquei a minha vida e me dediquei à minha carreira — disse ele. — Ao querer ganhar tudo, corremos o risco de perder tudo.

Seu adversário, de 24 anos, presenteou Yekini com um quadro, um Alcorão e um boubou tradicional, uma túnica senegalesa.

— Todos os lutadores sonham com a chance de confrontar Yekini no ringue e derrotá-lo — disse Balla Gaye 2. — Pelo que ele fez no esporte, eu lhe dei esses presentes, e desejei tudo de bom a ele.

As especulações sobre a próxima luta começaram não muito tempo depois do embate. Outro produtor começou a planejar uma luta entre Balla e o último lutador a derrotá-lo, Eumeu Sene, que não tem respeito pelo reinado recém-conquistado pelo Rei da Arena.

— Eu sou o Imperador da Arena — disse Eumeu Sene.

Já se fala na luta de revanche do ano que vem como a maior de todos os tempos. 

 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.