Depenados

ZH flagra o furto de peças de veículos apreendidos em depósito credenciado pelo Detran

Reportagem é resultado de 252 horas de vigilância sobre o local, alvo de reclamações de leitores

19/08/2012 | 05h02
ZH flagra o furto de peças de veículos apreendidos em depósito credenciado pelo Detran Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Homem remove cilindros de GNV do veículo Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Dois homens em atitude dissimulada transportam em um guincho um Uno que havia sido furtado por ladrões. Levam para um terreno repleto de outros veículos e, em minutos, ingressam no carro e removem dois cilindros de GNV (gás natural veicular) que custam cerca de R$ 800. Levam os recipientes até o caminhão, parcialmente encoberto pelos galhos de uma árvore, talvez para ocultar de testemunhas. Outro homem do grupo encarrega-se de retirar a bateria do Uno, nova — avaliada em cerca de R$ 250 —, e transportá-la para o caminhão.

O desmanche a céu aberto não funciona em nenhum terreno baldio adotado pela criminosa indústria do furto e do roubo de autopeças. Tudo isso acontece no pátio de um depósito oficial de veículos apreendidos pelos órgãos estaduais de segurança. O dono do Uno, que já havia sido vítima de ladrões de rua, agora tem seu patrimônio dilapidado por outro tipo de criminoso: aquele que usa o aparato do Estado para delinquir.

A cena foi flagrada e documentada por Zero Hora no pátio do depósito SOS Esteio, um dos quatro credenciados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran) em Porto Alegre. A reportagem é resultado de 252 horas de vigilância sobre o local, alvo de reclamações de leitores. ZH flagrou ainda outros ilícitos, como a retirada de um tacógrafo do painel de um caminhão apreendido pela polícia.

É a comprovação do que afirmam muitos motoristas e motociclistas que tiveram seus veículos guinchados e viram peças desaparecerem: os furtos aconteceram dentro de depósitos oficiais. Pelo menos um dos homens flagrados por ZH veste camiseta com o nome do Detran.

Os flagrantes de ZH evidenciam que pessoas que trabalham no depósito SOS Esteio, terceirizado do Detran por meio de um criterioso credenciamento, retiram peças dos veículos sem o conhecimento dos donos. Prova disso é a reação do empreiteiro Cladimir Gonçalves de Oliveira, proprietário do Uno fotografado enquanto era saqueado. Ele imaginou que o carro tinha sido depenado por ladrões na rua. Ao ver as fotos do carro tendo os tubos de GNV e a bateria retirados dentro do depósito, o proprietário do automóvel ficou furioso.

— Esses f.d.p.. Fui depenado por esses sem-vergonha. O cara acha que o ladrão está na rua, mas ele está é dentro do Detran, com uniforme do Detran — desabafou Cladimir.

Perante a lei, esses funcionários do guincho flagrados retirando peças dos veículos respondem como se fossem servidores públicos, avisa a delegada Vivian Nascimento, da Delegacia de Roubos de Veículos da Polícia Civil:

— Quando somem com algum patrimônio alheio, estão cometendo peculato, que é o crime cometido por funcionário público e que tem pena maior que um furto comum.

O dono do Uno diz que sumiram do veículo outros equipamentos não fotografados por ZH (que podem ter sido levados pelos ladrões que furtaram o carro na rua). Entre eles, bancos (avaliados pelo dono em R$ 500), um estepe (R$ 150), chave de rodas e macaco (R$ 50) e, o mais caro, equipamentos de som com valor estimado em R$ 2,2 mil. O prejuízo total com os furtos, estima Cladimir, é R$ 4,2 mil, quase a metade dos R$ 8 mil que o dono pagou pelo carro, modelo 2001.

Até por ser praticado a conta-gotas, o furto de peças ou pertences de dentro de automóveis — no jargão técnico policial, furto em veículo — é um crime comum. A cada dia, 60 pessoas registram em delegacias da Polícia Civil no Rio Grande do Sul o furto de algum objeto no seu carro, moto, caminhonete ou caminhão. Em Porto Alegre são 12 queixas desse tipo por dia. O que muitos cidadãos nunca conseguem comprovar é que seus carros foram saqueados dentro de um local sob tutela governamental.

Os flagrantes de ZH vêm se somar a várias queixas apresentadas na Polícia Civil por donos de veículos que tiveram seu patrimônio saqueado após terem o carro, a moto ou o caminhão rebocado para depósitos. Reclamações desse tipo acontecem em relação ao SOS Esteio (onde ZH flagrou os casos) e também a outros locais.

 
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