The New York Times

Americanos pagam para reencenar ataque que matou Osama bin Laden

Clube de tiro nos Estados Unidos oferece a possibilidade de simular ação militar que culminou na morte do terrorista

22/09/2012 | 05h40
Americanos pagam para reencenar ataque que matou Osama bin Laden Jenn Ackerman/NYTNS
Auxiliado por um instrutor, participante simula ataque a Osama bin Laden Foto: Jenn Ackerman / NYTNS

 

New Hope, Minnesota – Segurando um rifle de assalto AR-15 modificado, Nathan Schneider arrombou a porta de um quarto e entrou; enquanto o cano da arma fumegava, um homem vestido de Osama bin Laden caiu imóvel no chão.

Várias vezes por noite, o falso bin Laden – que usava um roupão branco, um lenço vermelho e uma barba falsa – é crivado por balas de tinta, até três noites por semana, desde que o clube de tiro Sealed Mindset começou, em julho deste ano, a oferecer a possibilidade de encenar o ataque a bin Laden.

O custo: 325 dólares por pessoa por duas horas de treinamento SEAL, da elite da marinha americana, e a chance de reencenar o ataque militar ao abrigo de três andares onde estava bin Laden, no ano passado em Abbottabad, no Paquistão.

"Foi pura adrenalina", afirmou Schneider, de 26 anos que trabalha para a Vitamix como vendedor de liquidificadores, depois de invadir a "sala cenográfica", um pequeno labirinto de paredes dentro de um galpão reformado no subúrbio de Minneapolis.

Muitas pessoas saíram às ruas em Nova York e Washington para comemorar o assassinato de bin Laden, líder da al-Qaeda e o terrorista mais procurado pelos Estados Unidos até sua morte em maio de 2011. Criadores de jogos de vídeo game transformaram rapidamente a missão em simuladores de tiro em primeira pessoa.

A fascinação pelo ataque secreto continua grande.

O livro "No Easy Day" (Um dia difícil, em tradução livre), um relato em primeira pessoa sobre o ataque, escrito por um membro da equipe SEAL da marinha, chegou ao topo da lista dos livros mais vendidos no site Amazon.com, quando as vendas começaram no dia 4 de setembro, o mesmo dia em que um grupo se reunia para encenar o ataque em primeira mão.

Assim como Schneider, os demais participantes da Sealed Mindset naquela noite, todos homens com menos de 45 anos, utilizaram um cupom do site Living Social para economizar metade do preço do programa.

Desde julho, mais de 70 pessoas – casais, colegas de faculdade, amantes da história militar – caçaram bin Laden no clube de tiro e outras 100 pessoas já fizeram reservas até o começo de outubro.

Larry Yatch é dono do Sealed Mindset e serviu no Iraque como membro do grupo SEAL da marinha. Ele afirmou que a experiência de matar bin Laden foi projetada para dar às pessoas uma noção realista da vida em uma unidade de elite da marinha e para atrair novos clientes para as dezenas de aulas de artes marciais e de tiro com arma de fogo que oferece a cada mês.

"Entendo a questão da seguinte maneira: é impossível ofender alguém quando se está gritando com o diabo, com Hitler ou com bin Laden", afirmou Yatch, argumentando que se tivesse inventando um vilão fictício do Oriente Médio para a encenação, isso poderia ser visto como antimuçulmano. "Se alguém se ofender como o fato de que estamos atirando em bin Laden, isso significa que essa pessoa provavelmente se ofende com o simples fato de que estamos atirando."

A Sealed Mindset já havia realizado outras encenações de eventos reais. Nos últimos meses, a empresa criou cenários de roubos de carro, assaltos a residências e ataques com faca para treinamentos de autodefesa, imitando histórias trágicas que apareciam nos jornais. Após o massacre ocorrido em julho em cinema de Aurora, no Colorado, a empresa passou a fazer sessões com "atiradores ativos", incluindo um cenário no qual um homem mascarado arrombava a porta e abria fogo contra uma sala repleta de pessoas.

"Todos temos um super-herói dentro de nós", afirmou Yatch. "Assistimos ao jornal e pensamos que teríamos feito X ou Y. Mas a verdade é que a maioria das pessoas não faria nada, a menos que fosse treinada."

A encenação com bin Laden – que é divulgada como "Uma aventura da elite da marinha" – é outro maneira de comprovar esse argumento, mas com um ambiente mais militar.

A noite começou com instruções sobre como utilizar armas de fogo e com uma reunião de inteligência de brincadeira – a apresentação de mapas e modelos 3D baseados nas informações públicas a respeito da missão. Uma aula de ioga ainda estava sendo realizada em uma sala próxima quando o grupo praticava movimentos e atirava contra papelões com a imagem de bin Laden em uma das duas áreas de tiro do local.

Um a um, os participantes entraram em uma alcova escura na sala do cenário e se dirigiram ao quarto do terrorista, enquanto sons de tiros e helicópteros saíam de caixas de som. Alguns deles atiravam ao léu, esquecendo-se do que haviam aprendido poucos minutos antes, enquanto bin Laden gritava e atirava neles com uma Glock 17 modificada, antes de cair morto no chão.

Refletindo sobre esses momentos, Brian Cooper, de 33 anos, administrador de um banco de sangue local e que veio para comemorar o aniversário de um amigo, afirmou que não parava de pensar em seu irmão mais novo, que serviu no Iraque com a marinha.

"Saber que ele passou por salas desse tipo, com armas de verdade e balas de verdade, sem saber se conseguiria voltar para casa", afirmou balançando a cabeça, "é simplesmente surreal".

Quando Beau Doboszenski, o funcionário do clube de tiro que ainda vestia a fantasia de bin Laden, se juntou ao grupo para a conversa final da noite, uma das pessoas do grupo se virou e pediu desculpas por ter atirado no rapaz. Doboszenski riu e olhou para o roupão, que estava marcado com apenas algumas manchas de tinta.

"Infelizmente, quase todos erraram."

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.