Jogo do bicho

Bicheiros cariocas invadem o mundo das apostas no Estado

ZH revela a corrupção entranhada nas forças policiais e o montante ilegalmente arrecadado no RS

17/11/2012 - 13h01min
Bicheiros cariocas invadem o mundo das apostas no Estado Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Investigações policiais mostram uma guerra nos bastidores do mundo da contravenção Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS  

De olho em uma fatia do lucrativo mercado do jogo do bicho, banqueiros da contravenção do Rio ameaçam desafetos e eliminam rivais no Rio Grande do Sul. Este é o primeiro capítulo de uma série de reportagens que começa neste domingo e se estende até terça e revela ainda a corrupção entranhada nas forças policiais e o montante arrecadado pelo milionário mundo das apostas.

Bicheiros cariocas e gaúchos estão em guerra no pampa. O palco desta disputa sangrenta, marcada por ameaças, execuções e prática de dumping, é a Serra e o Planalto Médio. Mas os reflexos, que alteram a dinâmica das apostas clandestinas no Estado, ecoam pelo Rio Grande.

Em site especial, entenda como funciona a dinâmica das apostas

Com a tecnologia de quem inventou o jogo do bicho 120 anos atrás, Os Cariocas — como são conhecidos os representantes da Banca Esperança — começaram a explorar caça-níqueis em Caxias do Sul. Deslocaram-se para municípios vizinhos como Bento Gonçalves, Vacaria e Lagoa Vermelha, e esticaram seus tentáculos até Passo Fundo, eliminando concorrentes e espancando desafetos.

Até agora, os bastidores deste conflito permaneciam desconhecidos. Cruzando informações de episódios isolados, Zero Hora descobriu a existência da conexão entre eles. O mais novo episódio desta guerra acontece na Região Metropolitana.

O que está em disputa não é o velho e tradicional jogo do bicho, com suas cadernetas obsoletas e métodos precários de arrecadação. O mercado hoje se reinventou. O bicheiro, além de manter seus pontos de apostas com apontadores avulsos, ele também se infiltrou em shoppings. Nestes estabelecimentos, o jogo é pago com cartão de crédito e a aposta é digitada online. É o chamado "bicho online".

VÍDEO: Apontador do jogo do bicho revela como operam as apostas clandestinas no Estado



O outro braço do contraventor são os caça-níqueis: uma diversificação econômica que multiplica triplica os lucros. No Estado, o bicho e as máquinas pertencem, quase sempre, a banqueiros do jogo do bicho — ou funcionam mediante sua autorização.
Símbolos de uma época como Rubens Hoffmeister, ex-presidente da Federação Gaúcha de Futebol, e Luiz Carlos Festugatto, ex-deputado estadual do PDT, não deixaram herdeiros.

Os novos expoentes são discretos e violentos. Figuras como Jorge Fontela Liscano, o Mão Branca, um menino pobre nascido em São Borja que construiu um império a partir da Região Metropolitana, do Litoral Norte e da Fronteira Oeste, e cuja história será contata no último dia da série, sintetizam o bicheiro contemporâneo.

Fortalezas deram lugar a escritórios

Pioneiros na corrupção policial, os bicheiros do século XXI aperfeiçoam suas práticas. Mão Branca e seus colegas ampliaram a propina a policiais. Outros, ainda mais ousados, associam-se a chefes de investigação ou tentam cooptar um pelotão inteiro de PMs, incluindo um oficial.

As antigas fortalezas, onde prêmios eram apurados e o dinheiro, contabilizado, foram substituídas por escritórios em bairros nobres. Vanderlei Gonçalves Nogueira, o VGN, 51 anos, um dos mais influentes banqueiros da Capital, mantinha sua banca em um prédio moderno na Rua Antônio Carlos Berta, quando agentes da Força-Tarefa de Combate aos Jogos Ilícitos do Ministério Público.

Proprietário de uma transportadora, de uma locadora de veículos e de empresas de comércio e importação (todas registradas na Avenida Sertório, 2.535), ele nega envolvimento com a banca. A metamorfose da contravenção potencializou o faturamento dos fora da lei. O MP e a Polícia Federal estimam que o bicho e caça-níqueis, apenas na Grande Porto Alegre e na Serra, arrecadam mais de meio bilhão de reais por ano. Sem impostos, naturalmente.

 
Dono de 300 pontos de apostas, Dari Pezzutti virou alvo da organização fluminense e acabou morto, em 2006, em Passo Fundo
Foto: Ronaldo Benardi


A PRIMEIRA VÍTIMA

Este é o mercado em disputa no Estado. Na reportagem de hoje, ZH revela que em Passo Fundo, município de 185 mil habitantes no norte do Estado, Dari Pezzutti, 53 anos, dono de 300 pontos, é primeiro alvo da da organização fluminense. A morte de Pezzutti foi ordenada bicheiros cariocas, donos da Banca Esperança, que exploravam bicho e caça-níqueis em Caxias do Sul. Em 2004, eles mandaram um emissário falar com Pezzutti. Ofereceram uma parceria. 

— O pai percebeu que o real interesse deles era tomar a banca e não aceitou — conta um dos filhos de Pezzutti.

Sem a aliança, eles radicalizaram: aumentaram a cotação do jogo em Passo Fundo, saltando dos tradicionais 500 por 1 (prevê o pagamento de R$ 500 para quem joga R$ 1) para 700 por 1 (jogando R$ 1, o apostador premiado ganhava R$ 700).

— Uma concorrência desleal — complementa o filho, estudante de Direito e herdeiro da banca do pai.

Ex-dono de bailões, o destemido Pezzutti espalhou cartazes com a informação: quem apostar na Banca Esperança terá de buscar os prêmios nos morros cariocas. A mensagem colocava em dúvida a credibilidade, principal pilar dos contraventores. Pezzutti assinava a sua sentença de morte.

Para resolver a situação Marcos Ribeiro, 42 anos, natural do Rio, contratou um profissional: o PM Manoel Marcílio Reis da Silva. Em 6 de outubro de 2006, o soldado viajou de Caxias a Passo Fundo para executar Pezzutti defronte ao escritório onde funcionava a sua banca.

— Hoje, aqui em Passo Fundo, tem a nossa banca, uma outra também tradicional e a banca dos cariocas. Todo mundo sabe quem são eles porque andam em carrões, usam pulseiras de ouro e vestem camisa de escolas de samba.

No jazigo A1125 do Cemitério Memorial da Paz, onde repousa o seu esquife, está escrito: "Morreu como viveu: lutando até o fim...".

Pezzutti não seria o único a tombar. Dois anos depois, um pouco antes de o pistoleiro e os mandantes serem julgados, Tiago Santos da Silva, 27 anos, um dos seus apontadores de Pezzutti, até aquele momento, única testemunha da execução de Pezzutti, seria assassinado. O caso, porém, foi tratado como "crime passional".

Silva, o PM matador, e Ribeiro, o mandante, foram condenados a 16 anos de prisão. A defesa recorreu da sentença e aguarda o recurso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Se no Planalto Médio o caminho era aberto à bala, Zero Hora apurou que na Região Metropolitana os cariocas negociam a compra de duas grandes bancas. As vendas ainda não se concretizaram por pressão do Grupo dos 18 do Forte, um apelido dado pelo Ministério Público (MP) aos grandes bicheiros da Grande Porto Alegre.
De olho na região metropolitana

Uma das bancas em transação pertence a Acácio Viganigo da Silva, 72 anos, pioneiro na contravenção em São Leopoldo, no Vale do Sinos, e no Vale do Rio Pardo. Em uma operação do MP, em 2011, ele foi preso em uma fazenda no interior de Rio Pardo. Um mês depois, ele foi libertado e transferiu o negócio da família para o filho, que está sendo assediado pelos cariocas. A outra banca pertence a Vilmar Almeida Ramos, o Gui — um do mais antigos banqueiros da Capital. Sem fechar as portas, um de seus filhos teria recusado a oferta.

Os cariocas que tentam se estabelecer na Grande Porto Alegre usam mensageiros. A fonte consultada por ZH participou de uma conversa com um dos emissários. Deixou o encontro surpreendido com a precisão e o volume de informações em poder dos forasteiros.


PISTOLEIROS CARIOCAS NO LITORAL

No entardecer de 6 de julho de 2007, pistoleiros fuzilaram Albino Leandro Moraes, 36 anos, um ex-jornaleiro que virou explorador de 600 caça-níqueis. A morte de Albino, na porta da sua casa, em Tramandaí, promoveria outro desfecho trágico. No início de 2008, João Omar Fontela Liscano, 55 anos, possível mandante daquele crime, seria executado com cinco tiros. Os dois disputavam pontos de exploração de máquinas no Litoral Norte, mas o inquérito sobre a morte de Albino segue aberto. O delegado Paulo Silva Perez tem uma certeza:

— Usando as suas conexões no Rio, Omar teria mandado trazer os pistoleiros cariocas para eliminar Albino com a intenção de readquirir o controle da contravenção em Tramandaí.

Natural de São Borja, Albino iniciou a sua carreira de maquineiro explorando caça-níqueis fornecidos pelo banqueiro do jogo e seu conterrâneo Jorge Ivan Fontela Liscano, o Mão Branca, 56 anos, irmão de João Omar. Em pouco tempo, associou-se a Marino Santino dos Santos e passou a administrar os próprios equipamentos.

A investigação indica que Omar, na ocasião, morava no Rio e estava de mudança para Tramandaí, onde deveria cuidar dos interesses da família: casa de bingo, caça-níqueis e jogo do bicho. No dia seguinte à morte de Albino, circulava a notícia de que João Omar teria se aliado a bicheiros cariocas e que a próxima vítima seria Marino, sócio de Albino. Temendo ser executado, Marino teria contratado dois pistoleiros da região para matar João Omar — o serviço foi feito em janeiro de 2008, num bar de Tramandaí. Foram cinco tiros à queima-roupa.

— Um crime covarde — definiu o advogado da família Liscano, Luiz Alfredo Paim.

No próximo mês, Marino deverá ir a júri popular em Tramandaí acusado de ser o mandante do assassinato. O seu advogado, Léo Elon Pias, defende a tese de que seu cliente agiu por ter sido influenciado pelo boato de que ele seria a próxima vítima.

CONTRAPONTO
ZH conversou com o PM Manoel Marcilio Reis da Silva

O que aconteceu em Passo Fundo

"Eu fui fazer uma cobrança em Passo Fundo com o Adriano (Adriano Silva, policial civil absolvido pela Justiça). Era para ir lá e cobrar o cara (não recorda o nome da pessoa), o que não tinha nada de errado. Não teria violência, nada. A gente cobraria de um cara que comprou máquinas para trabalhar em Passo Fundo. Eu e o Adriano fomos lá. Ele pagou, peguei o dinheiro nas mãos e levei para Caxias. Era um montante grande, em torno de R$ 70 mil, que ele pagou em duas vezes. Não tenho nada a ver com a morte daquele cara (Dari Pezzutti)."

O que aconteceu em Bento Gonçalves

"Fui junto cobrar uma conta do dono de um bar. Quando a gente estava indo embora, o cara (suposto devedor) puxou uma arma e fui me proteger. Nem sabia o que era a dívida. Dentro do bar, quando ficou quente a discussão, não chegaram a um acordo. O dono do bar puxou a arma e eu efetuei um disparo para me defender. Dei um tiro para errar."

 
Como reação a um crime do qual era suspeito de ser mandante, João Omar Liscano foi executado com cinco tiros em Tramandaí
Foto: Ronaldo Bernardi


APOSTADOR ESCAPOU DA MORTE

Comerciante em Bento Gonçalves, Clóvis Valdir Serafim, 39 anos, nutria o hábito de jogar caça-níquel em seu estabelecimento. Certo dia, vibrou:

— Joguei R$ 20 e ganhei R$ 562.

Após tentativas infrutíferas de receber o dinheiro, ameaçou quebrar a máquina de contraventores cariocas, sediados em Caxias do Sul e integrantes de uma violenta organização.

Em 29 de agosto, recebeu a visita de um suposto técnico em jogos eletrônicos. Era o PM Manoel Marcilio Reis da Silva — o mesmo que, um ano depois, mataria o bicheiro Dari Pezzutti.

Os dois discutiram, até o comerciante ameaçar chamar a polícia. Ao virar de costas, Serafim sentiu o cano gelado de uma pistola .40 na nuca. 

— Me encolhi e me joguei no chão. O tiro pegou no braço e se alojou entre a primeira e a segunda vértebras.

Serafim sobreviveu, mas ficou dois anos em cadeira de rodas. Os tiros inauguraram o modo carioca de acertar contas no submundo de Bento.