Tecnologia digital

Campanha americana deflagra debate sobre ensino de programação de computador nas escolas

Avanço da tecnologia digital desperta mobilização de educadores e empresários nos EUA em favor de lições de computação na educação básica, e já provoca reflexos no Estado

23/03/2013 - 16h01min
Campanha americana deflagra debate sobre ensino de programação de computador nas escolas Diego Vara/Agencia RBS
Inspirado por iniciativa americana, colégio Sinodal, de São Leopoldo, pretende ampliar lições de computação que hoje dão ênfase à robótica Foto: Diego Vara / Agencia RBS  

A disseminação das tecnologias digitais deixou as escolas à beira de uma revolução.

Um número crescente de especialistas argumenta que não basta preparar os estudantes do século 21 para ler, escrever ou fazer contas: é preciso ensiná-los a programar computadores. Nos Estados Unidos, celebridades se uniram em uma campanha em defesa da chamada "alfabetização digital", e que já provoca reflexos no Rio Grande do Sul.

Assista ao vídeo sobre as aulas no colégio Sinodal, em São Leopoldo:


Personalidades como o fundador da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, figuram em um vídeo divulgado na internet que defende o ensino de linguagem de programação — códigos que mesclam letras, números e sinais gráficos para dizer aos computadores e dispositivos digitais que ações realizar, como enviar e-mails ou rodar jogos. Para os defensores da ideia, nos próximos anos será tão importante falar a língua das máquinas como hoje é fundamental ler e escrever. Duas razões sustentam a iniciativa: faltam programadores no mercado de trabalho — a defasagem deverá chegar a 1 milhão de pessoas em 2020 nos EUA —, e educadores apontam que aprender a lógica da computação ajuda o raciocínio, melhora o desempenho em outras disciplinas e estimula a criatividade.

— Quando o aluno aprende a linguagem do computador para dizer a ele o que fazer, muda tudo. A máquina se transforma em um laboratório — concorda a coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Léa Fagundes.

O problema é como disseminar essa cultura no país, o que exige treinar professores e dar infraestrutura. Hoje, a modalidade de programação mais ensinada em escolas públicas e privadas é a robótica, na qual os alunos comandam a movimentação de robôs por meio de códigos inseridos no computador. Na rede municipal de Porto Alegre, por exemplo, 35 escolas treinaram professores de disciplinas variadas para usar esse recurso e seguem com ele no currículo.

(Diego Vara/Agencia RBS)

Também existem softwares, mais voltados para crianças, usados para apresentar a lógica da computação aos alunos. Eles permitem que o usuário insira comandos que criam figuras, movimentam personagens e possibilitam a elaboração de desenhos, narrativas e jogos. O maior desafio do sistema escolar está no ensino das linguagens de programação propriamente ditas, utilizadas para criar páginas na internet, aplicativos e jogos (conheça as principais logo abaixo). Uma das barreiras é a falta de professores especializados.

— O ideal é que combinassem o curso de pedagogia com especialização em informática, ou o contrário — afirma o mestre em computação e diretor de uma escola de computação Rodrigo Losina.

Em todo o país, conforme dados de 2010, há 79 cursos de licenciatura em computação, que preparam educadores para lecionar sobre esse tema. Mas eles formam menos de 700 profissionais por ano.

— Isso é muito abaixo do necessário — sustenta o doutor em computação e professor da UFRGS Daltro José Nunes.

Como resultado, segundo Losina, há uma tendência de aumento no número de alunos adolescentes em cursos de linguagens de programação oferecidos por escolas de computação. Mas a campanha americana já inspira instituições como o colégio Sinodal, de São Leopoldo, a investir mais na linguagem dos computadores. A instituição já leciona robótica, mas pretende ampliar o ensino para que os estudantes aprendam a criar projetos mais variados.

— Inspirados pela campanha, vamos introduzir o ensino de outras linguagens, voltadas para a criação de jogos e aplicativos — conta o professor de Educação Digital Jorge Jardim.

A intenção é usar a computação para que os jovens de hoje programem seu futuro.

 

EXEMPLOS DE LINGUAGENS

Confira alguns dos códigos mais difundidos no mundo e quais as principais aplicações práticas de cada um deles:

C — É uma das linguagens mais antigas ainda em uso, que deu origem a várias outras. Muito utilizada em sistemas embutidos, como em eletrodomésticos (para fazer funcionar o marcador de potência de um micro-ondas, por exemplo). Também é muito utilizada em áreas como mecatrônica ou robótica, podendo ser utilizada para o controle de elevadores ou a movimentação de robôs.

Java — É um dos recursos mais utilizados no desenvolvimento de sites e aplicativos, desde o teclado virtual para acessar a página de um banco na internet, por exemplo, sistemas de leilão online ou jogos feitos para celular. Versátil, pode ser adaptado para diferentes dispositivos como computadores, tablets ou smartphones, e diferentes sistemas operacionais.

HTML — Não é chamada de linguagem de programação, mas de "marcação". Utilizada para montar o "esqueleto" das páginas da internet: por meio dela, o usuário pode definir a estrutura básica que o site terá, determinar o título, dividir o texto em parágrafos, criar listas etc.

CSS — É chamada de linguagem de estilo, ou seja, destinada a elaborar as características estéticas de uma página da internet, como cor de fundo, estilo das letras, entre outros recursos. Costuma-se dizer que, enquanto o HTML é o "esqueleto", o CSS é a "pele" das páginas virtuais.

PHP — É um conjunto de códigos que pode dar dinamismo a um site da internet, ou seja, torná-lo capaz de "fazer coisas", como recuperar informações de um banco de dados. Costuma ser utilizado em combinação com outras linguagens da web, como HTML e CSS.

COMO É POSSÍVEL APRENDER

Veja algumas opções para se familiarizar com a lógica por trás da linguagem utilizada pelos computadores ou para começar a aprender algumas linguagens propriamente ditas:

Na escola

Alguns colégios já utilizam softwares específicos para introduzir o ensino de lógica de programação para crianças e adolescente. Há duas vertentes principais:

— Robótica — Kits permitem a montagem de carros ou robôs que serão controlados por meio de comandos inseridos pelos estudantes no computador.

— Softwares para criação — Programas como Squeak e Scratch possibilitam comandar personagens, combinar sons e imagens, criando narrativas animadas ou jogos simples. Eles são gratuitos e podem ser utilizados tanto em sala de aula quanto baixados no computador de casa para livre exploração (saiba mais logo abaixo).

DICA ZH

A seção de livros do site Computer Science Unplugged (www.csunplugged.org) oferece uma versão em português de um caderno de atividades a serem desenvolvidas em aula — sem computador — a fim de transmitir noções da linguagem binária usada pelas máquinas às crianças.

Na escola ou em casa

Alguns softwares, gratuitos, são oferecidos para familiarizar o usuário à lógica de programação. Podem ser utilizados pelas escolas ou em casa. Confira alguns dos mais conhecidos:

— Scratch — scratch.mit.edu

O programa, que tem versão em português e pode ser baixado de graça, permite criar jogos, música, histórias interativas, entre outras possibilidades.

— Squeak — squeakland.org

Um pouco mais complicado do que o Scratch, também gratuito, é apreciado por educadores que desejam um recurso um pouco mais desafiador. Tem versão em português, com algumas partes em inglês.

— Kodu — www.kodugamelab.com

Desenvolvido pela Microsoft, mas gratuito para ser baixado na versão para PC (também há versão para XBox), é um software criado especificamente para exercitar a lógica de programação por meio da criação de jogos. Como é em inglês, pode exigir auxílio de um adulto.

Em cursos específicos

— Cursos de formação

Se alguém desejar conhecimento mais aprofundado sobre uma linguagem de programação específica, pode se matricular em cursos oferecidos em escolas de informática ou pelo Senac, por exemplo (algumas opções estão disponíveis para idades a partir de 14 anos, por exemplo). Há desde cursos de alguns dias até alguns meses de duração, cujo custo pode variar de algumas centenas até alguns milhares de reais. Há também opções de cursos online.

— Nível superior

Instituições de nível superior oferecem cursos mais voltados para o aprendizado específico de determinadas linguagens de programação, para formar tecnólogos, e outros mais abrangentes, como o de ciência da computação, que dá uma visão mais ampla da tecnologia.

Por conta própria

Já estão disponíveis, na internet, uma série de recursos que permitem ao usuário aprender noções básicas das principais linguagens utilizadas na informática. Alguns deles se assemelham a cursos simples online. Confirma algumas possibilidades gratuitas:

Codecademy — www.codecademy.com

O site, que apresenta algumas áreas em português, oferece uma série de cursos online baseadas em exercícios apresentados em sequência. O aluno vai completando tarefa e acumulando recompensas como distintivos virtuais.

Code — www.code.org

A página da campanha, em inglês, oferece uma série de recursos específicos para estudantes e para professores e links para outras páginas de apoio. Apresenta material de apoio para educadores interessados em integrar a linguagem de programação a suas aulas.

Fundação Pensamento Digital — www.pensamentodigital.org.br

A ONG gaúcha tem uma página onde oferece informações sobre inclusão digital e uma seção de "oficinas" com várias informações sobre softwares que favorecem o ensino de programação.

 
 
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