Para não esquecer

Exposição na Usina do Gasômetro registra luta contra ditaduras latinas

Dividida em cinco eixos, exposição reproduz clima de penumbra dos ambientes de interrogatório

Atualizada em 24/04/2013 | 22h5624/04/2013 | 22h56
Exposição na Usina do Gasômetro registra luta contra ditaduras latinas Lauro Alves/Agencia RBS
Exposição retrata regimes militares no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina, entre 1964 e 1990 Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Estampada em uma das estruturas da exposição Onde a Esperança se Refugiou, a frase "o esquecimento está cheio de memória", do escritor uruguaio Mario Benedetti, dá o tom da mostra que será inaugurada nesta quinta-feira, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.

Recursos multimídia, como vídeo, foto e áudio, serão utilizados com o objetivo de auxiliar os interessados, principalmente os jovens, a compreender a história das ditaduras na América Latina. Regimes militares no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina, entre 1964 e 1990, deixaram um saldo de mais de 12 mil mortos e desaparecidos e 216,6 mil torturados, além de 904,2 mil presos políticos.

Fatos inéditos também virão à tona, como um depoimento que aponta o início da Operação Condor cinco anos antes do que indicam os registros conhecidos até agora. No testemunho, Jefferson Osório conta ter sido preso pela polícia federal argentina em 1970, aos 11 anos, juntamente com seu pai, o ex-coronel do Exército Jefferson Cardin Osório. A Condor foi uma aliança político-militar entre países da América do Sul.

— Os jovens precisam saber o que aconteceu como uma forma de garantir que isso nunca mais se repita. A ideia é mostrar a luta contra a ditadura e a rede de solidariedade que se formou para salvar pessoas — afirma Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, grupo que, durante o regime militar, assegurou a sobrevivência de cerca de 2 mil perseguidos políticos. A entidade é uma das organizadoras da mostra.

Dividida em cinco eixos, a exposição reproduz o clima de penumbra dos ambientes de tortura e interrogatório. Além disso, 11 filmes que tratam do tema serão exibidos de 30 de abril a 5 de maio. O trabalho é resultado de um ano de pesquisas envolvendo 13 pessoas, que foram divididas em três grupos (Buenos Aires, São Paulo e Porto Alegre). Em julho, a mostra segue para São Paulo e, depois, percorrerá outras capitais. Os organizadores planejam ainda levar o acervo para Montevidéu, Buenos Aires, Santiago e Assunção.

ENTREVISTA

Jair Krischke Presidente do Movimento de Direitos Humanos

"Essa dívida se paga com a verdade"

Fundador do Movimento Justiça e Direitos Humanos — um das entidades organizadoras da exposição —, Jair Krischke cobra mais empenho da Comissão da Verdade.

Zero Hora — Qual foi o papel do Brasil nas ditaduras do Cone Sul?

Jair Krischke — O Brasil teve um papel protagonista, seja fornecendo veículos para a repressão no Uruguai ou armas e munições para a Bolívia.

ZH — Qual sua expectativa em relação à Comissão da Verdade?

Krischke - Compartilho da preocupação da presidente Dilma, que tem cobrado um desempenho mais efetivo. Precisamos acelerar este trabalho.

ZH — Esta dívida será paga?

Krischke — Dificilmente. No Brasil, num primeiro momento, se tentou resolver o problema reparando economicamente as famílias. Isso não resolve nada. Onde estão os desaparecidos? E os arquivos? Essa dívida se paga com a verdade, que é a única moeda.

Serviço da exposição

Quando: 26 de abril a 5 de maio

Horário: 14h às 19h, de segunda a sexta-feira; 9h às 19h, sábados, domingos e feriados.

Onde: Usina do Gasômetro (Av. Presidente João Goulart, 551)

Entrada franca

Realização: Ministério da Cultura — Lei Rouanet, patrocínio da Petrobras e Cia. Energética Rio das Antas, apoio da prefeitura de Porto Alegre, Arquivo Público de São Paulo e Arquivistas Sem Fronteiras/Brasil.

VEJA TAMBÉM

     
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.