Ocupação verde

Grupo acampa há quase 40 dias para evitar corte de árvores em Porto Alegre

Saiba como é a rotina dos cerca de 20 jovens do acampamento do Ocupa Árvores, movimento contra a derrubada de vegetação no entorno do Gasômetro

21/05/2013 - 20h49min | Atualizada em 21/05/2013 - 22h37min
Grupo acampa há quase 40 dias para evitar corte de árvores em Porto Alegre Lauro Alves/Agencia RBS
Barraca foi montada por manifestantes sobre uma árvore ao lado da Câmara Municipal Foto: Lauro Alves / Agencia RBS  
No primeiro dia do guri de 15 anos no acampamento dos defensores das árvores, ele ficou com medo: é que tomou um xingão de um dos ativistas mais antigos e respeitados do movimento Ocupa Árvores, que desde 17 de abril vive em barracas em um gramado ao lado da Câmara Municipal de Porto Alegre, perto da Usina do Gasômetro. A repreensão foi há mais de uma semana, e o rapazote não lembra mais o motivo, mas é assim que age o "subcomandante Marcos" do grupo. E ele adora ser chamado assim.

Alguém fala uma bobagem e o subcomandante está lá para pedir que o cara "se ligue". Outro não está dormindo no acampamento, só vem de vez em quando e ainda canta de galo que é manifestante, e aí o subcomandante "dá a real" ao sujeito.

— Tu só vens aqui para aparecer em fotos na imprensa — criticou.

O termo "subcomandante" é propício para apelidar um dos mais ativos organizadores do movimento. Ele se inspira no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), um grupo armado pró-indígenas formado no paupérrimo Estado de Chiapas (México) por mascarados cujo porta-voz é conhecido como subcomandante Marcos.

O subcomandante Marcos do acampamento também usa máscara e aceita ser chamado de Fausto — alusão à obra do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. É um jovem inteligente e articulado, que foi artista de rua e mochileiro na Europa e nos Estados Unidos e na capital gaúcha está com os pés escamando de sujeira, passados 38 dias sob um teto de plástico. Os cerca de 20 jovens com quem convive são, em boa parte, moradores das redondezas que aproveitam a proximidade para tomar banho e comer na casa dos pais. O banheiro de uma dessas residências costuma ser emprestado para o restante do povo para se lavarem. O adolescente de 15 anos diz que a família o apoia.

— Minha mãe pediu para ser avisada quando forem cortar porque ela quer subir nas árvores, também — disse.

O dia começa tarde no acampamento porque as festas são frequentes. À tarde, há espaço para oficinas — artesanato, por exemplo, que é uma das fontes de renda do grupo. Água, eles buscam no Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), em frente. Nesta terça-feira, o fornecimento foi negado. Para os manifestantes, é sinal da iminência dos cortes, os quais prometem impedir subindo nas árvores. Será uma resistência desarmada. Na barraca montada sobre uma árvore imensa, havia apenas um livro. Direito civil era o título.

Em vídeo, manifestantes montam acampamento para impedir corte de árvores:




Negociação é difícil, diz secretário

Está dura a negociação com os integrantes do movimento Ocupa Árvores. Eles não querem deixar o local para permitir os cortes dos vegetais e a consequente obra de duplicação da Avenida Beira-Rio. A constatação é do secretário municipal de Gestão, Urbano Schmitt.

— Houve uma conversação, tem um grupo tentando negociar. Mas está difícil — afirmou o secretário, que não confirmou a data para início dos cortes.

A duplicação da avenida é uma obra para a Copa 2014 que tem o objetivo de melhorar o trânsito na região. Para permitir os trabalhos, é preciso retirar 115 árvores ao longo do traçado — 14 delas já foram abaixo na Praça Júlio Mesquita, em fevereiro, e outras oito estão protegidas por medida judicial desde abril porque estão na área do futuro Corredor Parque do Gasômetro. A prefeitura promete compensar as supressões com o plantio de 401 novas árvores e indica que há mais 2 mil mudas previstas para a orla do Guaíba.

Na segunda-feira, a seção gaúcha do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) divulgou em seu blog uma lista de 14 razões para se opor à obra. Além de sustentar que não há congestionamentos na região, aponta que o Gasômetro ficará separado da comunidade por seis pistas de alta velocidade. O secretário-geral do órgão, Rafael Passos, lembra que a população já está apartada do Guaíba pelo muro da Mauá:

— Faltou debate público. A paisagem urbana não foi contemplada no projeto.

 

 
 
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