Infecção em UTIs

Superbactéria circula em mais hospitais de Porto Alegre

Vigilância Sanitária da Capital confirma casos de KPC. NDM-1 está apenas no Conceição.

09/05/2013 | 20h19

Uma das bactérias multirresistentes que provocaram a interdição de 15 leitos na UTI do Hospital Conceição está presente em outros hospitais de rede pública e também particular de Porto Alegre, informou nesta quinta-feira a coordenaria de Vigilância Sanitária do município.

Nos últimos seis meses, a KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase) teria infectado mais de duas centenas de pacientes em UTIs e emergências da Capital.

Já a nova bactéria NDM-1(New Delhi metallo-beta-lactamase), identificada pela primeira vez dentro do Conceição, não foi confirmada em outros hospitais da Capital. Para conter a disseminação dos micro-organismos, os órgãos de saúde pública do Estado e do município estão reforçando protocolos de higiene e limpeza.

O coordenador da Vigilância Sanitária de Porto Alegre, José Carlos Sangiovanni, alerta que a situação exige cuidados extras por parte dos profissionais e familiares de pacientes internados. A orientação é higienizar as mãos e seguir as recomendações de cada hospital. Anderson de Lima, coordenador-adjunto da Vigilância Sanitária, diz que a proliferação de bactérias multirresistentes é comum no Estado e no país. Consultados pela reportagem, os principais hospitais da Capital informaram que não registram nenhum caso da KPC e da NDM.

Infectologista do Mãe de Deus, Gabriel Azambuja Narvaes explica que as bactérias não são novas: tratam-se de micro-organismos que adquiriram mecanismos aprimorados de resistência. Narvaes ressalta ainda que elas acometem os pacientes debilitados, não os saudáveis.

A Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (Fehosul), que congrega hospitais, clínicas e laboratórios, emitiu nota informando que acompanha o assunto desde abril, quando a Secretaria Estadual da Saúde fez o primeiro alerta epidemiológico. A entidade apoia as recentes medidas das autoridades sanitárias.

Evento na Serra debate infecção hospitalar

Presidente da Associação Gaúcha de Profissionais de Controle de Infecção, o médico Marcelo Carneiro comanda um evento na serra gaúcha que discute formas de combater a infecção hospitalar. Hoje pela manhã, a bactéria NDM-1 será tema de debate.

— Sempre se falou muito sobre KPC. Mas a NDM-1 é novidade para todos. Essa é outra enzima, que tem outra forma de degradar o antibiótico, acometendo pessoas mais doentes — explica Carneiro.

O especialista explica que o risco de transmissão aos profissionais e familiares é quase zero. Segundo ele, o risco existe para pessoas que já estão doentes, dentro da UTI há algumas semanas.

Entrevista

Afonso Luis Barth, microbiologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Afonso Luis Barth atuou na elaboração da nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que confirmou presença da bactéria NDM - 1 em Porto Alegre, em abril:

Zero Hora — Que medidas foram tomadas a partir da nota técnica da Anvisa?

Afonso Luis Barth — A nota foi importante para dar diretriz ao controle da infecção hospitalar, com medidas de barreira. Também influenciou sobre como os laboratórios poderão pesquisar essa bactéria. Sem a diretriz, é possível que o paciente tenha a bactéria e o laboratório não saiba identificar. Também foi importante para as equipes de enfermagem. Ainda não podemos avaliar até que ponto isso está sendo utilizado, pois é muito recente. não temos medida do impacto dessa nota técnica.

ZH — Em que situações a Anvisa emite notas técnicas?

Barth — Cada vez que surge uma questão que requer padronização, como uma situação nova de infecção. Na América Latina, teve apenas dois casos, um na Guatemala e outro no Uruguai. Casos de KPC existem inúmeros. São mais de 200 pacientes em seis meses.

ZH — O alerta Anvisa, em abril, deixava clara a possibilidade de interdição de 15 leitos no GHC?

Barth — Sim, era previsto. Precisava ser feito algo para que se impedisse que a NDM-1 se espalhasse e chegasse ao estado de como está a KPC. A preocupação foi que a nova bactéria não se espalhasse.

ZH — Que medidas foram tomadas em outros locais do mundo onde se manifestou a NDM - 1?

Barth — O histórico dessa bactéria é que ela, infelizmente, se espalha rapidamente. Apareceu na Índia e logo depois na Inglaterra. Ela foi levada por pacientes que faziam turismo médico. As pessoas viajavam para índia, faziam cirurgias lá por causa do preço mais baixo, e quando retornavam ao Reino Unido estavam contaminadas. As medidas adotadas são sempre de higiene.

ZH — Como a NDM - 1 chegou até Porto Alegre?

Barth — Não se sabe. Com a mobilidade dos pacientes hoje é muito rápida, hoje é muito comum estar internado na Europa em um dia e em Porto Alegre no outro. É possível que tenha vindo no corpo de algum paciente de outro local.

 
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