Suspeito de enganar padres e furtar R$ 2,5 milhões da Arquidiocese da Igreja Católica na Capital, o ex-vice-cônsul de Portugal em Porto Alegre Adelino D'Assunção Nobre de Melo Vera Cruz Pinto está driblando a Justiça gaúcha.
O processo criminal que apura a acusação contra Pinto já completou 20 meses sem avanços por conta de manobras jurídicas do ex-vice-cônsul, foragido internacional e procurado pela Interpol.
Saiba mais:
Até hoje nenhuma audiência foi realizada em Porto Alegre, e a que estava marcada para 16 de maio foi prorrogada para novembro. Enquanto isso, cartas precatórias e rogatórias (pedidos para interrogatórios no país e no Exterior) viajam pelo Brasil e Portugal para que sejam ouvidas testemunhas de defesa de Pinto, que, supostamente, nada têm a contribuir para o processo.
O caso mais curioso envolve a Justiça do Ceará. A 14ª Vara Criminal de Fortaleza foi designada para interrogar três "amigos" de Pinto.
Um deles é o advogado, jurista e professor emérito da Universidade Federal do Ceará Paulo Bonavides. Segundo ele, apenas conhece um primo de Pinto, advogado e professor universitário em Lisboa.
- Isso é incrível. Só vi esse homem duas vezes, uma na embaixada do Brasil em Lisboa e outro no aeroporto. Não tenho como testemunhar coisa alguma a favor dele - diz Bonavides.
Outro "amigo" indicado para falar bem de Pinto é o ex-presidente da Câmara, o deputado federal pelo PMDB cearense Paes de Andrade, que foi embaixador do Brasil em Portugal entre junho de 2003 e janeiro de 2007. Localizado por Zero Hora, Paes de Andrade, que vive em Brasília, se mostrou irritado.
- Quando eu era embaixador, ele apareceu uma ou outra vez por lá (na embaixada em Lisboa), mas não tenho nada a ver com ele. É uma pessoa perigosa, procurada por toda a polícia. Prefiro nem falar sobre isso. Que seja responsabilizado pelo que fez - esbravejou Paes.
Em Portugal, 11 pessoas foram indicadas como testemunhas por Pinto. Para ajudar a localizá-las, o Departamento de Cooperação Jurídica em Matéria Penal Portugal/Brasil entrou em ação, o que levou a Justiça gaúcha a adiar para novembro a audiência em Porto Alegre. Uma testemunha é Teresa Maria Ferreira de Almeida Monteiro, ex-namorada de Pinto.
Funcionária do governo português, ela encaminhou uma carta à Justiça, na qual dizia que gastou o dinheiro em SPAs, hotéis e cassinos da Espanha, mas que pretendia devolver metade do dinheiro surrupiado. Procurado por ZH, o advogado César Peres, defensor de Pinto, evitou falar sobre o processo.
ENTREVISTA:
Adelino Pinto - Ex-vice-cônsul de Portugal em Porto Alegre
Foragido da Justiça, o ex-vice-cônsul falou na quarta-feira por telefone a Zero Hora. Desde que se tornou procurado internacional, em 2011, é a terceira entrevista. Agora, ele afirma que tudo já "foi resolvido".
Zero Hora - Seu Adelino Pinto?
Adelino Pinto - É o próprio.
ZH - Como vais?
Pinto - Vou indo, andando, não é?
ZH - Onde o senhor está?
Pinto - Por que queres saber?
ZH - Por causa do processo do desvio do dinheiro na Igreja. Por onde o senhor anda?
Pinto - Acho que isso já esta esclarecido, não está?
ZH - Não.
Pinto - Pensei que já estava. Mas diga o que queres saber primeiro para depois eu falar consigo.
ZH - O senhor responde a processo criminal e disse que viria esclarecer os fatos há mais de um ano e não apareceu...
Pinto - E agora...
ZH - Agora estou ligando para saber por que o senhor não veio...
Pinto - Meu advogado é que tem de responder.
ZH - Por que o senhor arrolou como testemunha no processo o advogado e professor Paulo Bonavides e o ex-embaixador Paes de Andrade?
Pinto - Não tenho nada a dizer.
ZH - O senhor prometeu devolver o dinheiro...
Pinto - Penso que esse assunto já foi resolvido.
COMO RELIGIOSOS FORAM ENGANADOS:
- Em dezembro de 2010, o então vice-cônsul de Portugal em Porto Alegre, Adelino Vera Cruz Pinto, convenceu a Arquidiocese da Igreja Católica da Capital a depositar
R$ 2,5 milhões na conta bancária dele a título de contrapartida para um empréstimo que seria concedido pelo governo de Portugal para reformas de paróquias.
- A doação seria por intermédio de uma ONG dirigida por Teresa Falcão e Cunha. O dinheiro, porém, nunca apareceu. A mulher e a ONG também jamais foram localizados. Pinto se tornou suspeito de desviar os R$ 2,5 milhões da Arquidiocese.
- Em março de 2011, Pinto viajou para Portugal. No inquérito, foi decretada a prisão preventiva do ex- vice-cônsul com validade no Brasil.
- Em setembro, o MP denunciou Pinto à Justiça, e ele virou réu, acusado de estelionato.
- O nome e a fotografia de Adelino Pinto passaram a figurar na Difusão Vermelha, lista divulgada em site da Interpol, como foragido. Ele não voltou mais a ser visto.