Anos de chumbo

Os fichados do Dops: primeiro marido da presidente Dilma participou de sequestro de avião

Morando hoje na Nicarágua, Cláudio Galeno de Magalhães Linhares comenta registros de sua ficha no RS

Os fichados do Dops: primeiro marido da presidente Dilma participou de sequestro de avião Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Aos 71 anos, Galeno vive na Nicarágua, com a segunda mulher, Mayra, e as filhas Iara e Anna Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Reportagem de Zero Hora traz à tona 4,6 mil fichas de "coleta e processamento de informações" do Dops gaúcho, papéis que hoje estão sob a guarda do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. Nessa parte da reportagem, veja histórias de políticos e militantes de oposição que aparecem no acervo.

Uma das mulheres mais poderosas do planeta hoje, a presidente Dilma Rousseff não mereceu mais do que cinco linhas nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) gaúcho. Foi um mero apontamento em 14 de março de 1969 na ficha nº 25, classificando Dilma como comunista e trotskista.

Ela não tinha atividade subversiva no Rio Grande do Sul, e a informação parece servir mais como um alerta. Mas o documento inclui uma observação adicional (que não faz parte da biografia oficial da presidente no site do Planalto): "É esposa de Cláudio Galeno de Magalhães Linhares". O fichado nº 24.

O cadastro de Galeno contém apenas três tópicos datados de março de 1969, dezembro de 1971 e junho de 1972. Um precário resumo da trajetória do homem que, além de influenciar a formação político-ideológica de Dilma, foi protagonista de uma das mais ousadas ações da esquerda armada na América Latina: o sequestro de um avião brasileiro levado do Uruguai para Cuba.

— Estou surpreso com essa ficha. Foi feita para encher linguiça, fabricada para efeitos de divulgação. Seguramente, queimaram os arquivos verdadeiros. Em 1971, eu estava no Chile e foi registrado que estava no Brasil — recorda Galeno, 71 anos, por telefone, da Nicarágua, onde vive com a segunda mulher, Mayra, e as filhas.

Conhecido pelo codinome Lobato, Galeno, mineiro de Ferros, um estudante de sociologia, repórter de jornal, ex-preso político, vivia em Porto Alegre no final dos anos 1960. Caçado por militares depois da prisão de companheiros da Colina (Comando de Libertação Nacional), Galeno e Dilma foram obrigados a sumir de Belo Horizonte. Desmancharam um casamento de dois anos registrado em cartório e celebrado com festa.

Em site, veja especial multimídia e faça pesquisas nas fichas do Dops

Dilma tentava se esconder entre Rio e São Paulo, e Galeno foi escalado para reforçar a luta contra a ditadura em Porto Alegre. Com cabelo pintado de vermelho e sobrancelhas aparadas para alterar a fisionomia, já não era mais Lobato. Usava documentos como Ivan ou André — eram tantos nomes falsos que ele nem recorda.

Da fusão da Colina com a VPR, nasceu a Vanguarda Armada Revolucionária, a Var-Palmares. E Galeno era um dos coordenadores do grupo no Estado. Passou alguns dias na casa do companheiro Luiz Heron Araújo, irmão de Carlos Araújo — o segundo marido de Dilma — , e também no aparelho da Var-Palmares, montado em um apartamento no bairro Menino Deus, acolhido pelo líder estudantil Calino Pacheco.

— Se não me engano, era o mesmo prédio ou no edifício ao lado de onde os militantes do Uruguai tinham um aparelho e depois foram sequestrados, a Lílian Celiberti e o Universindo Díaz — conta Calino.

Galeno ficou pouco tempo ali. Se mudou para o Centro, em uma pensão na Rua Pinto Bandeira.

— Era de uma senhora italiana, viúva, que tinha uma casa grande e alugava quartos na parte de cima. Moraram ali Raul Ellwanger, que foi para o Rio e me deixou a vaga, e Fernando Pimentel (atual ministro do Desenvolvimento). Era uma pensão com um certo pedigree — diz.

Galeno parecia esquecido pelo militares no Rio Grande do Sul. Chegou a passear pelo Interior, como no feriadão de Páscoa em 1969. Mas no Rio, a situação era tensa para a Var-Palmares. Envolvidos em assaltos, dois militantes, Fausto Machado Freire e Marco Antonio Meyer, tinham desaparecido. Na verdade, presos, mas sem confirmação. A Var-Palmares decidiu sequestrar um avião.

— Exército, Marinha, Dops, polícia, ninguém dava notícias deles. Estavam ameaçados de morte. O sequestro foi uma maneira de denunciar a prisão deles e exigir que os familiares pudessem vê-los — diz Galeno.

Ele, o líder estudantil mineiro Athos Magnus Costa e Silva, a psicóloga alemã Isolde Sommer, que vivia no Rio, e Luiz Alberto Silva viajaram para o Uruguai. Em carros separados, levaram Marília Guimarães, a mulher de Freire, e os dois filhos pequenos do casal.

Em Montevidéu, se juntaram a James Allen da Luz, ex-estudante de Medicina de Goiás que vivia exilado lá havia quatro anos. No começo da noite de 31 de dezembro de 1969, o grupo embarcou como parte dos 21 passageiros do Caravelle da Cruzeiro do Sul, prefixo PP-PDZ, que faria a rota Montevidéu- Porto Alegre-São Paulo-Rio. Era o início da aventura.

Poucos minutos depois de a aeronave decolar, James Allen da Luz se levantou, sacou uma pistola e anunciou o sequestro, ordenando que o piloto desviasse o rumo em direção à Argentina.

— Foi tranquilo. Acalmamos a todos, e o pessoal de bordo foi muito simpático. Viram que eram pessoas educadas. Ninguém tinha cara de bandido. Para alguns passageiros, foi uma grande aventura — garante Galeno.

Em Buenos Aires, dois idosos com problemas cardíacos foram as únicas pessoas autorizadas a desembarcar. Com autonomia limitada de combustível, o Caravelle seguiu da Argentina, parando para reabastecer no Chile, depois no Peru — onde ficou quase dois dias por causa de um problema de bateria — Panamá e, finalmente, Cuba.

Na escala em Lima, com o avião cercado por policiais peruanos armados com metralhadoras, atraindo dezenas de jornalistas, James, o líder do grupo, improvisou uma entrevista coletiva. Garantiu que todos os sequestradores estavam armados com granadas de mão, punhais e pistolas. Seria Galeno, que brincava com produtos explosivos quando era criança na farmácia de manipulação do pai, o fabricante das bombas?

— Ninguém tinha bomba. Eram pistolas e revólveres. Sou um homem de paz. Nunca fabriquei bombas. O que aprendi foi fazer foguete junino — enfatiza.

O sequestro do Caravelle ganhou destaque internacional. E, conforme Galeno, o governo brasileiro se viu forçado a admitir a captura de Freire e Meyer, ainda vivos. Duas semanas depois, Dilma foi presa em São Paulo.

— Na época, não tínhamos contato. Ela não teve qualquer participação no sequestro — assegura o ex-marido da presidente.

Dilma sairia da prisão no final de 1972, se mudando tempo depois para Porto Alegre, onde se casou com o advogado Carlos Araújo, que também estivera preso. Os dois já se conheciam de um encontro de subversivos no Rio. Enquanto isso, Galeno vivia em Havana sob os auspícios do regime de Fidel Castro:

— Alguns treinavam táticas de guerrilha, outros não. Eu trabalhava em uma agência de notícias ligada ao governo cubano, focada em denunciar prisões arbitrárias e torturas no Brasil. A gente recebia casa e comida e um pequeno dispêndio para pequenos gastos, ir ao cinema, comprar cigarro.

Nesse meio tempo, no Rio, Carlos Lamarca liderou o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Em troca foram libertados 40 presos políticos, entre eles Freire e Meyer, levados para a Argélia.

O plano era ficar um ano na ilha caribenha, mas Galeno se mudou para o Chile. Lá se apaixonou pela nicaraguense Mayra, sandinista desterrada pela ditadura de Anastácio Somoza. Em Santiago, nasceu a primogênita do casal, Iara. Mas o golpe militar que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em setembro de 1973, levou Galeno para o Panamá, depois Bélgica, Itália e França.

Após a anistia, em 1979, Galeno voltou a Belo Horizonte e aterrissou, mais uma vez, em Porto Alegre. Precisamente na Rua General João Telles, no bairro Bom Fim. Trabalhava com editoração de textos, em sociedade com amigos. No campo político, se reaproximou de Dilma — desta vez, como amigos. Com ela, Araújo, Sereno Chaise e outros velhos companheiros ajudou a refundar o PTB e depois a criar o PDT sob o comando de Leonel Brizola.

O líder trabalhista foi eleito governador no Rio, e Galeno seguiu atrás como assessor. O próximo destino foi a Nicarágua, já sob o poder sandinista, para voltar em 2005 a Belo Horizonte e ajudar na administração do então prefeito Fernando Pimentel, seu velho conhecido nos tempos de pensão em Porto Alegre.

Naquele tempo, Galeno costumava ir a Brasília para conversar com a ex-mulher, superministra do então presidente Lula. Aposentado, há três anos, ele se fixou em Manágua, onde presta assessoria para organismos de imprensa. E garante:

— Sou meio gaúcho, leio Zero Hora, escuto a Rádio Gaúcha. Acompanho tudo que se passa no Brasil.

Em 2011, Galeno fez questão de voltar para a solenidade de posse de Dilma na Presidência. Sobre a administração dela, é direto:

— Sou suspeito para dizer isso, mas acho que ela faz um excelente governo.

ZH procurou a assessoria de imprensa do Planalto para conversar com a presidente sobre os episódios narrados na reportagem, mas não houve manifestação dela até sexta-feira.

 

Notórios sob vigilância

Como chegam a milhares as fichas do Dops, ZH pinçou, para esta reportagem, alguns entrevistados como modelo da perseguição movida pelo regime a seus desafetos. Ficaram de fora das entrevistas opositores notórios da ditadura, pelo simples fato de já existirem muitas páginas escritas a respeito de suas trajetórias — redigidas por eles mesmos ou por biógrafos. Confira alguns personagens históricos que estão fichados:

Dilma Rousseff — Fichada com o sobrenome do primeiro marido, aparece como "Dilma Lana Roussef Linhares". Há, porém, dois erros na grafia no nome da presidente. O correto é "Vana" e "Rousseff". Na ordem de prisão, de 1969, é classificada como comunista e ligada a uma organização trotskista de Belo Horizonte.

Leonel Brizola — A ficha foi aberta em 3 de junho de 1964 e as últimas informações são de 26 de outubro de 1967. Os primeiros dados tratam do comando exercido por ele sobre os Grupos dos Onze (organizações populares). As demais informações já referem a pessoas que fariam o papel de "pombo-correio", trazendo mensagens de Brizola para os correligionários no Brasil. As últimas informações falam de "esquema terrorista" armado por Brizola.

Luiz Carlos Prestes — O veterano líder comunista aparece na ficha do Dops gaúcho, em 1971, como condenado a 14 anos de reclusão numa auditoria militar. Além disso, estava foragido e era responsável pela reorganização do Partido Comunista Brasileiro.

Flávio Tavares — O jornalista, colunista de ZH, escritor e ex-guerrilheiro Flávio Tavares aparece como preso político banido pelo governo após o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick. A ficha é de 7 de setembro de 1969.

Flavio Koutzii — Ex-deputado estadual nos anos 2000, foi fichado em junho de 1972 com os codinomes "Sancho Pança", "Laerte" ou "Gordo". Estava com prisão preventiva decretada por uma auditoria militar, fundamentada pela "periculosidade" e para garantia da ordem pública.

João Goulart — Anotada a lápis na ficha de Jango, está a palavra "falecido". Mas o documento começa com ele bem vivo, em 1967. Informa que seu governo teria sido influenciado por militantes católicos a ter "orientação popular". Em 1968, Jango teria ordenado a correligionários das regiões dos rios Ijuí e Ibicuí, próximo a Santa Maria, que estivessem "a postos para entrar em ação dentro de pouco tempo".

Che Guevara — A ficha, com data de 1967, relata que o líder comunista estava na Argentina após ter passado pela Rússia e países africanos socialistas. Diz ainda que a mulher e as duas filhas do guerrilheiro haviam sido levadas de Cuba para o México.

Papa Paulo VI — Há um relato sobre a preocupação do religioso com o envolvimento do clero com política. Diz que o papa "está vivamente alarmado ante o aspecto de desordenada agitação" em setores da Igreja.

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