Templo único

Igreja de um bispo só: a história do homem que criou uma igreja e agora luta para que ela se perpetue

Dom Raul Smania celebra o segundo casamento e defende o celibato opcional

17/08/2013 | 17h04
Igreja de um bispo só: a história do homem que criou uma igreja e agora luta para que ela se perpetue Tadeu Vilani/Agencia RBS
Dom Raul realizou mais de mil casamentos e o triplo de batizados Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Raul Clementino Smania seguiu um caminho religioso inusitado. Peitou sozinho a Igreja Católica tradicional no Rio Grande do Sul na década de 1940 e viveu apuros ao tornar-se um dissidente em plena ditadura militar. Para completar, ainda servia ao Exército.

Firme nos ideais, soma sete décadas de sacerdócio. Em mais da metade deste tempo, viu repleta de fiéis a igreja que construiu no bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre — uma obra financiada com os proventos de 33 anos de serviços no Hospital Militar. O avançar dos seus 88 anos o força agora a rarear as celebrações. Os seguidores desapareceram. Não encontrou uma só discípulo que desejasse ser ordenado padre e dar continuidade à pregação de sua palavra. Teme que a paróquia que começou com ele termine com a morte dele.

O parágrafo acima poderia até soar como uma sentença de fracasso. Não para Raul. Homem de fé, bom humor e convicção inabaláveis, tem sido o alívio para muita gente que sonha em passar pelos ritos do cristianismo, mas tem a vontade podada pelas restrições da Igreja Católica Apostólica Romana.

Assista ao vídeo que conta a vida de Dom Raul:

Conhecido pelas cerimônias personalizadas que atraem pessoas de todos os cantos do Estado, do país e até do Exterior, dom Raul, como passou a ser chamado depois de ter sido sagrado bispo em 1976, realizou mais de mil casamentos e o triplo de batizados.

Todo o discurso de dom Raul é pincelado por princípios de liberdade, a exemplo dos ensinamentos do Criador.

— Deus não dá nem o nome dEle para não Lhe amolarem a paciência — dispara o bispo, que coleciona frases espirituosas.

Flexível em relação à doutrina católica, nem do celibato é a favor:

— É até bom que o padre tenha alguém, uma família. Esta coisa de que o sacerdote não pode se casar foi inventada pelos romanos (católicos tradicionais) para que a Igreja não tenha de dividir as riquezas da paróquia com ninguém. Se tem mulher, tem mais gastos, tem pensão.

Para ser padre no templo dele não é necessário seminário, basta estudar os ensinamentos da bíblia e ser ordenado. Também joga por terra o mito da confissão ao padre. Acha que o pecador deve pedir perdão diretamente ao Criador. Mas são as bênçãos de casamento que arrebatam os corações.

— Só não aceito a bigamia. Deus não faz distinção. E o que eu faço é apenas uma ponte entre o casal e Deus — prega Raul.

Com este pensamento, transformou vidas. João Batista, 50 anos, já havia casado na Igreja, e o segundo matrimônio não é permitido no catolicismo tradicional. Há 14 anos, ficou noivo de Vania Bertagnolli, 41 anos, que tinha o sonho de receber a bênção de um padre, quando então conheceram dom Raul.

Existe apenas uma barreira que o pensamento arejado do padre não é capaz de derrubar: uniões homossexuais.

— Já vieram alguns casais do mesmo sexo aqui me procurar, mas não posso dar esta bênção. Meus casamentos eu abençoo de coração. E eu não posso ir contra Deus por que ele fez o homem e a mulher. Seria uma provocação — justifica.

Dissidente da Igreja Romana, Raul pertenceu por cerca de 50 anos à Igreja Católica Apostólica Brasileira (Icab). Esta história começa na década de 1940 e se entrelaça com a da II Guerra Mundial.

Na infância, foi mandado para o seminário depois da morte da mãe. Em 1943, quando tinha 18 anos, o Exército convocou todos os internos que estavam se preparando para a vida religiosa. Naquele mesmo ano, soube de rumores de que um bispo, dom Carlos Duarte Costa, havia sido excomungado pelo Vaticano.

— Foi uma guerra pública entre dom Carlos e a Igreja. Saía em todos os jornais — lembra.

Foi ao Rio de Janeiro e conheceu o religioso expulso da Igreja Romana que acabara de fundar a dissidente Igreja Católica Apostólica Brasileira (Icab), em 1945. Foi convidado por ele a abrir a primeira sede da nova congregação no Rio Grande do Sul.

Ainda na década de 1950, usava a casa, no bairro Chácara das Pedras, para celebrar os cultos. Somente 20 anos depois construiu a capela, com recursos próprios, no Jardim Botânico.

— Eu não vivo da igreja, é ela que vive de mim. Pago todas as contas com a minha aposentadoria. Eu tinha uma comunidade, muitos fiéis. Eu não os perdi, o que eu perdi foi a minha saúde. Tem aquele dito: "Ferido o pastor, as ovelhas de dispersam" — lamenta.

Em 1993, depois de um escândalo de corrupção envolvendo a Icab (veja quadro ao lado), Dom Raul se desfiliou e fundou a sua própria ordem, a Santa Igreja Católica Apostólica (Sica).

Fluente em inglês e italiano e capaz de manter conversações em espanhol e francês, dom Raul já participou de missões nos Estados Unidos. Depois de ajudar a consolidar uma vertente do catolicismo no país e criar a sua própria congregação, o afastamento do altar — médicos já recomendaram que ele deixasse de celebrar missas — o angustia, mas não o perturba:

— É a mesma coisa que você querer comer uma maçã e a maçã fugir de você. Mas não posso ficar triste, nem aborrecido. Agora, só consigo abrir a paróquia nos primeiros domingos do mês — diz ele, com bengala em mãos.

Apesar de defender o casamento dos padres, optou por viver só. A irmã e os sobrinhos são a família dele.

A convicção como marca registrada é o que Hique Gomez, músico e humorista gaúcho de 54 anos, mais admira em dom Raul. Amigos há três décadas, Hique chegou a tocar piano em alguns casamentos celebrados pelo bispo antes de estrear a peça Tangos e Tragédias. Para comemorar 25 anos de união com Heloiza Averbuck, 54 anos, Hique convidou o padre para celebrar o casamento dos dois na própria residência, em 2003. No mesmo dia, batizou a neta do artista.

Quando André Wohlfahrt, 32 anos, foi ordenado diácono por dom Raul, Hique apadrinhou a cerimônia. Dom Raul ainda nutre a esperança de que André dê continuidade à sua obra. Analista de sistemas, o auxiliar do padre gosta das atividades paroquiais, mas não se vê seguindo o mesmo caminho do seu guru.

Não é com tristeza que dom Raul assiste a redução de seu quórum. Pelo contrário, é com convicção que segue seu ideal, na esperança de encontrar alguém que, como ele, encontre na atividade religiosa um sentido para a própria vida.

Saiba mais:

A Igreja de dom Raul é descendente de ordem criada por bispo expulso do Vaticano

l A Igreja Católica Apostólica Brasileira (Icab) foi criada em 1945, depois que dom Carlos Duarte Costa, bispo de Maura, no Rio de Janeiro, foi excomungado pelo Vaticano.

l O clérigo passou anos negociando com Roma normas mais liberais para a Igreja. Assim que foi expulso da Igreja Católica Romana, determinou que na Icab predominaria a liberdade. Com isso, haveria algumas flexibilidades, como o casamento de padres e a possibilidade de celebrar o matrimônio daqueles que já foram casados perante à Igreja.

l Dom Carlos transmitiu a sua sucessão apostólica (leia ao lado) a oito bispos. Um deles foi dom Antídio Vargas, que, por sua vez, sagrou bispo dom Raul Smania em 1976 — 14 anos depois da morte de dom Carlos. Dom Raul foi ordenado diácono e, posteriormente, padre por dom Carlos.

l Depois de enfrentar a Igreja Católica Apostólica Romana no Rio Grande do Sul por anos, em 1993 uma reportagem publicada pela revista Isto É expôs um escândalo da Icab, envolvendo sexo e corrupção, e abalou a confiança de Dom Raul na congregação.

l O gaúcho pediu explicações ao bispo responsável pela ordem. Como os fatos não foram negados, Dom Raul preferiu romper com a Icab. Desde então, deixou de fazer parte de qualquer colegiado. Fundou a Santa Igreja Católica Apostólica (Sica), que funciona na Paróquia Nossa Senhora Menina, igreja que existe há mais de 35 anos no bairro Jardim Botânico.

Um duplo dissidente

Dom Raul desconstrói questões disciplinares e doutrinas católicas romanas porque ...

l Aceita realizar o segundo casamento, desde que os noivos apresentem o comprovante de separação judicial. Este é o único serviço pelo qual dom Raul cobra uma taxa, que parte de R$ 250. O restante é gratuito.

l Celebra missas, cerimônias e batizados fora da Igreja.

l Defende o celibato opcional, pois acredita que formar família é da natureza do homem, e que os sacerdotes tenham uma profissão para que não dependam da verba da igreja.

l Dispensa cursos preparatórios para batizados, matrimônios e crismas.

l É contrário ao confessionário, pois crê que o perdão dos pecados deve ser pedido diretamente a Deus, sem a necessidade de atravessadores.

..Mas parte do rituais e celebrações do padre pode ser reconhecidos pelo catolicismo tradicional porque...

l Dom Raul possui sucessão apostólica, um rito que se repete desde que Jesus Cristo nomeou os 12 apóstolos — esses, por sua vez, nomearam os seus sucessores (os bispos) e assim sucessivamente até os dias atuais.

l Quando dom Carlos rompeu com o Vaticano e fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira (Icab), levou consigo a sucessão apostólica recebida na ordem tradicional. Assim, pode sagrar oito bispos que ordenaram seus sucessores e assim por diante.

l Nessas condições, apesar de não pertencer à Arquidiocese, os sacramentos realizados pelo templo de dom Raul são válidos perante a Igreja Católica Apostólica Romana, mesmo que ele tenha se separado da Icab, uma vez que carrega consigo a sucessão apostólica e ainda segue as mesmas orientações proferidas por dom Carlos há 70 anos.

Fonte: Erico Hammes, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande

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