VINGANÇA PORNÔ

"A sociedade julga a vítima do crime, não o criminoso covarde"

A jornalista Rose Leonel conta o sofrimento de ter sua intimidade exposta na internet

Por: Heloisa Aruth Sturm
29/10/2013 - 05h03min

—Sofri um assassinato moral, social e profissional.

Em apenas uma frase, a paranaense Rose Leonel consegue dar a dimensão dos danos que sofreu após ter a intimidade exposta na internet. Ela decidiu romper com um relacionamento estável de quase quatro anos, mas o ex não aceitou o término e decidiu se vingar. Perseguiu-a de forma sistemática, divulgado quinzenalmente fotos dela misturadas a imagens de sites pornográficos, oferecendo-a pela internet como se fosse garota de programa. Rose trocou de telefone inúmeras vezes, mas não adiantava. O ex divulgava até o telefone de familiares dela.

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Em 2006, Rose ingressou no Juizado Especial de Pequenas Causas mas, como a situação era nova, ele apenas pagou uma multa e continuou a persegui-la. Depois de contar com ajuda na investigação, ingressou novamente na Justiça. O ex só parou depois que saiu a sentença: indenização de R$ 30 mil e pena de um ano, 11 meses e 22 dias de prisão. Ele não chegou a ir para a cadeia, porque a condenação foi convertida em pena alternativa.

Histórias como a de Rose se repetem no país e pelo mundo. Neste mês, uma jovem de 19 anos, moradora de Goiânia, teve sua privacidade exposta na rede quando imagens dela fazendo sexo oral no ex-namorado foram divulgadas pelo whatsapp, aplicativo de mensagens instantâneas usado em smartphones. Em março de 2009, caso semelhante ocorreu na pacata Ibirubá, região do Alto do Jacuí, quando um vídeo mostrando momentos íntimos de uma menina de 11 anos e um garoto de 14 circulou pela internet. Humilhada com a repercussão do caso, a família da garota decidiu mudar de cidade.

Nos Estados Unidos, a psicóloga Holly Jacobs, depois de sofrer durante anos com o mesmo tipo de abuso pelo ex-namorado, iniciou no ano passado uma campanha nacional por meio da ONG endrevengeporn.org (acabe com a violência pornô, em tradução livre) para pressionar as autoridades e ajudar vítimas. Por aqui, Rose fundou a ONG Marias da Internet, para fazer o mesmo, e está em busca de psicólogos, advogados e assistentes sociais que queiram estender voluntariamente a mão para essas mulheres. Ela decidiu contar sua história para ajudar outras a superarem o trauma:

— A sociedade julga a vítima que foi revelada no crime, não o criminoso covarde que cometeu aquele ato por trás de um computador. Isso abala sua identidade, porque querem vender uma imagem deturpada de você na internet. Isso (violação da intimidade) gera um conflito psicológico muito forte. É um processo de coisificação, que vem junto com um processo de exclusão social, abandono, marginalização. Quando se é alvo de preconceito, a vítima dificilmente consegue superar. A gente perde tudo. Mas nunca se deve perder a fé em Deus. Costumo dizer que minha vida é um milagre. E a superação ainda é um exercício diário.

 
 
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