Negociações de paz

Ministro israelense da Defesa critica Kerry e azeda relação com EUA

"A única coisa que pode nos salvar é se John Kerry ganhar o Prêmio Nobel e nos deixar tranquilos" ironizou Moshé Yaalon

14/01/2014 | 18h58

Um novo embate diplomático aconteceu nesta terça-feira entre Israel e Estados Unidos, seu aliado estratégico, depois do virulento ataque pessoal do ministro israelense da Defesa, Moshé Yaalon, ao secretário de Estado americano, John Kerry.

Yaalon acusou Kerry de não entender o conflito na região.

— O secretário de Estado John Kerry - que chegou aqui determinado e que se animou com uma obsessão incompreensível e um tipo de messianismo - não tem nada a me ensinar sobre o conflito com os palestinos — afirmou Yaalon em conversas privadas com oficiais israelenses e americanos, reproduzidas nesta terça-feira pelo jornal "Yediot Aharonot".

— A única coisa que pode nos salvar é se John Kerry ganhar o Prêmio Nobel (da Paz) e nos deixar tranquilos — ironizou o ministro da Defesa, segundo o jornal.

O Departamento de Estado americano classificou como "ofensivos" os comentários de Yaalon sobre John Kerry, que tenta, desde julho, obter um acordo de paz entre israelenses e palestinos.

— Os comentários do ministro da Defesa, se confirmados, são ofensivos e inadequados, em particular, levando-se em conta tudo o que os Estados Unidos estão fazendo para apoiar as necessidades de segurança de Israel — declarou a porta-voz do Departamento de Estado, Jennifer Psaki, aos jornalistas, após uma visita de Kerry ao Vaticano.

— Questionar suas motivações e distorcer suas propostas não é algo que esperaríamos do ministro da Defesa de um aliado próximo — completou.

Nesta terça, Yaalon tentou apaziguar os ânimos, publicando um comunicado, mas não negou as controversas declarações que teriam vazado do encontro.

— Os Estados Unidos são nosso mais importante amigo e aliado. Quando temos discordâncias entre nós, discutimos em privado — declarou, acrescentando que — vou continuar a ser responsável e manter firmemente a segurança do povo israelense.

Em discurso no Parlamento, o premier Benjamin Netanyahu também tentou amenizar o episódio, mas com indireta repreensão ao ministro da Defesa. — Às vezes, há divergências com os Estados Unidos, mas elas são sempre sobre o assunto em pauta, não sobre a pessoa — frisou Netanyahu.

Falcão do governo de Benjamin Netanyahu, Yaalon criticou mais especificamente as propostas americanas sobre a segurança na Cisjordânia, em particular, no Vale do Jordão, ao longo da fronteira com a Jordânia.

— O plano americano de segurança que nos foi apresentado não vale o papel sobre o qual ele foi escrito. Não garante nem a segurança, nem a paz — atacou.

Polêmica sobre as colônias — No momento, somos os únicos a ter concedido alguma coisa - a libertação dos presos (palestinos) -, enquanto os palestinos não deram nada — completou Yaalon, um dos líderes do Likud (direita nacionalista) de Netanyahu.

Israel se comprometeu a libertar em quatro fases um total de 104 prisioneiros palestinos para permitir a retomada das negociações com os palestinos. Nas primeiras fases, porém, as libertações foram acompanhadas de anúncios de construções nas colônias.

A ministra da Justiça israelense, Tzipi Livni, encarregada das negociações com os palestinos, criticou o colega da Defesa: — Você pode se opor às negociações de maneira argumentativa e responsável, sem comprometer as relações com nosso melhor amigo.

Uma outra polêmica também surgiu nesta terça depois de uma declaração do ministro israelense da Habitação, Uri Ariel. Ardoroso defensor da colonização, ele garantiu que os recentes projetos de construção anunciados por Israel foram pensados "em coordenação" com os Estados Unidos.

Um diplomata americano reiterou, porém, a condenação americana à colonização e disse que Kerry nunca "se encontrou, nem falou com Uri Ariel e, em consequência, não coordenou ou concordou em nada com ele".

Recentemente, autoridades israelenses de alto escalão também atacaram Kerry na imprensa local, sob anonimato. Um deles afirmou que o secretário americano desconhece o tema.

Apesar de sua determinação e energia e de ter feito dez viagens à região desde março de 2013, Kerry ainda não conseguiu convencer os dois lados do conflito a aderirem a seu plano de paz. Desde 2008, a relação entre Estados Unidos e Israel tem sido abalada por desentendimentos contínuos, seja sobre o programa nuclear iraniano, seja sobre o processo de paz no Oriente Médio.

 
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