Pautando o debate

A voz da extrema direita avança sobre a Europa

Em meio a uma crise econômica que já dura seis anos e que põe instituições em xeque, a Europa vê crescerem partidos de linhagem conservadora que flertam com o ideário fascista, como o novo Vox espanhol, legítimo herdeiro do franquismo

15/02/2014 | 12h03
A voz da extrema direita avança sobre a Europa Louisa Gouliamaki/AFP
Na Grécia, um dos países mais afetados pela crise, o símbolo do partido Aurora Dourada lembra uma suástica Foto: Louisa Gouliamaki / AFP

Com o sugestivo nome de Vox, um partido político destacado da costela do tradicional centro-direitista Partido Popular (PP) na Espanha, notabiliza-se por ter aportado no mundo político para simbolizar a revigorada voz da extrema direita europeia. O Vox (voz, em latim) não chega a preocupar os analistas como projeto de poder, mas é visto como elemento capaz de contaminar a agenda e radicalizar o discurso de outras siglas.

— O crescimento da extrema direita é cíclico e está ocorrendo em diversos países da Europa em razão da crise econômica. Mas raramente esses partidos se tornam alternativas de governo. O mais preocupante é que pautem os outros, os de centro-direita, pressionados a não perder votos — diz Giorgio Romano Schutte, professor da Universidade Federal do ABC com graduação e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Amsterdã (1987) e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).

O que ocorre é que os partidos de corte conservador, moderados pelo processo social evolutivo e distanciados da xenofobia típica da direita europeia, sucumbem a projetos de extrema direita, em especial quanto aos costumes e aos imigrantes. Acabam por adotar bandeiras que exibem traços do fascismo.

O exemplo da Suíça

Uma semana atrás, ocorreu algo que fez tremerem os mais progressistas. A Suíça aprovou a imposição de limites à imigração, e gente como o presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, reagiu, em entrevista ao jornal suíço NZZ am Sonntag, dizendo temer que o "sim" suíço "provoque um regresso do debate sobre a livre circulação de pessoas na União Europeia". Por outro lado, o líder do Partido Independente da Grã-Bretanha (Ukip, em inglês), Nigel Farange, definiu a notícia como "maravilhosa".

O líder da Liga Norte (partido italiano conservador), Matteo Salvini, festejou a aprovação suíça e anunciou no Twitter que pretende reclamar um referendo idêntico na Itália, tornando a medida suíça um modelo para toda a Europa. Marine Le Pen, da francesa Frente Nacional, assumidamente refratária a imigrantes e a outras minorias, elogiou a "lucidez" do povo suíço. Na Noruega, o Partido do Progresso (extrema direita), que integra a coalizão governista, já projeta colocar em prática referendo semelhante ao promovido na Suíça.

Enfim, a extrema direita europeia, também chamada de "direita populista", afia suas garras para assumir um protagonismo de triste memória.

O Vox representa essa vertente num dos países mais castigados pela crise econômica, no qual o desemprego roça os 30% da população ativa, ultrapassando o índice de 50% no caso dos jovens. Com discurso liberal na economia e conservador nos costumes, rejeita qualquer possibilidade de aborto e defende a família tradicional (leia-se: discorda das uniões homoafetivas). Nas eleições para o Parlamento Europeu, entre 22 e 25 de maio, terá candidatos próprios. Detalhe: na União Europeia (UE), o desemprego afeta 25 milhões de pessoas, e há 80 milhões de pobres. A xenofobia e o racismo têm terreno fértil.

— A campanha europeia não passará de uma coleção de campanhas nas quais os partidos nacionais vão aproveitar para recuperar notoriedade em nível interno — diz José Ignacio Torreblanca, professor de Ciência Política e analista do Conselho Europeu de Relações Exteriores, em Madri.

Em janeiro, a revista The Economist se reportou a essa preocupação. De acordo com a publicação, cerca de 10% das 751 cadeiras do Parlamento Europeu tendem a ser conquistadas pela extrema direita, e países como França, Grã-Bretanha e Holanda podem ter votação expressiva dessas forças.

Instituições em baixa

A revista atribui esse possível crescimento ao declínio do Estado de bem-estar social europeu, provocado pela crise que se iniciou em 2008. Sem alternativa, há desesperança, crítica difusa às instituições, nostalgia em relação a um passado nacional supostamente glorioso e, em especial, ressentimento (ou ódio) em relação ao outro, em especial o não-europeu.

Além do Vox, a revista britânica alerta para partidos como o grego Aurora Dourada (que teve 7% dos votos em 2012), que se assemelha aos nazistas tanto em seu símbolo (parecido com a suástica) quanto em suas práticas, com adoção de milícias armadas e agressão a imigrantes.

Na França, a Frente Nacional teve 17,9% de votos em 2012 e adota discurso anti-imigrante. Na Grã-Bretanha, o Ukip vive momento de expansão tão grande que, como dizem os analistas, influencia a agenda dos outros partidos. O premier britânico David Cameron aderiu à onda contrária aos ciganos com um artigo no Financial Times anunciando que exigirá da Europa medidas para regular a imigração, referindo-se em especial a romenos e búlgaros.

A tentativa de formar um bloco europeu

Parece até um paradoxo quando se pensa na União Europeia como um ente que engloba nacionalidades diversas, mas os partidos de extrema direita da Europa Ocidental projetam formar um bloco no Parlamento Europeu. A pretensão é liderada pela Frente Nacional, da França, que projeta o embrião do primeiro grupo europeu de extrema direita no Legislativo. As negociações entre formações ultraconservadoras e até mesmo anti-UE vêm sendo feitas pela francesa Marine Le Pen, que já se aproximou do Partido da Liberdade (PVV), do xenófobo holandês Geert Wilders.

Não é por acaso que a Frente Nacional coordena essa composição. Pesquisa feita pelo instituto TNS Sofres, publicada no último dia 12 por diversos jornais franceses, entre eles o Le Monde, mostra que a FN conta com o apoio de 34% da população. Desde 2011, quando Marine Le Pen substituiu seu pai, Jean-Marie Le Pen, como presidente do partido, a aprovação foi de 22% a 31% em 2012, 32% em 2013 e 34% atualmente.

No Parlamento Europeu, o Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, é hoje a maior força política da Casa, com 271 deputados. A seguir, aparece a Aliança Progressista de Socialistas e Democratas (S&D), com 190 integrantes. A Europa da Democracia e da Liberdade (EDL), aliança informal de extrema direita, tem apenas 33 deputados. O plano de Le Pen é formalizar o bloco e aumentar sua representação.

O ranço xenófobo tem mostrado que esses partidos contam com respaldo popular. Exemplos não faltam. Em Ostrava (República Checa), crianças ciganas são enviadas a escolas especiais, e suas famílias vivem em bairros isolados. Na Hungria, 90% dos ciganos estão desempregados, e o antissemitismo tem sido motivo de preocupação. Na Polônia, restaurantes não permitem o ingresso de ciganos. Situações semelhantes ocorrem na Bulgária, na Eslováquia (onde um neofascista venceu as eleições regionais com o projeto de encaminhar ciganos a trabalhos forçados), na Eslovênia e na Romênia. O apartheid econômico e racial, assim como o ódio ao diferente, crescem em muitos dos 28 países da UE, havendo casos até mesmo de políticos se insultarem por motivos raciais.

O filósofo francês Christian Salmon disse recentemente que "a política está sendo devorada pela xenofobia inerente ao neoliberalismo".

Na Alemanha, em 20 anos, o contingente de neonazistas subiu de 20 mil para 40 mil, segundo a professora Michaela Köttig, de Frankfurt, estudiosa do assunto. São pessoas que falam em criar o IV Reich, realizam acampamentos e fazem atividades recreativas que remontam aos antigos germânicos, como disputas de arco e flecha. Os grupos mais visados são ainda os judeus, além de imigrantes (especialmente negros), muçulmanos e, em menor escala, italianos e estrangeiros do Leste europeu.

— Há até grupos de antiantifascistas, que ameaçam sindicatos e personalidades. Fazem listas de pessoas que devem ser perseguidas. Eu estou nessas listas — diz a professora.

Na Ucrânia, também há movimentações da extrema direita. Manifestantes tentam se desvincular da Rússia e aderir à UE. Entre eles, há partidos descaradamente fascistas.

— Há extremistas de direita nos protestos, mas eles não têm hegemonia no movimento. É interessante estudar o seu papel — diz Angelo Segrillo, professor da Universidade de São Paulo (USP).

 

Detalhe ZH

Judeu defende ciganos

À medida que cresce a extrema direita europeia, também aumenta a reação. Em Dresden, na Alemanha, antifascistas protestam nas ruas. E um episódio curioso ocorre na Hungria. Capital do país onde meio milhão de judeus e 100 mil ciganos foram assassinados pelos nazistas com a colaboração do regime fascista do almirante Miklós Horthy durante a II Guerra Mundial, Budapeste vê surgir uma resposta à onda fascista: o Partido Cigano da Hungria. O ideólogo e vice-presidente da agremiação não é cigano, mas judeu. Trata-se do militante antifascista Sandor Szoke, que diz ajudar os ciganos porque "deveria haver um branco entre eles para defendê-los".

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