Caso Kunzler

Após prisão de inocente, caso de publicitário morto na Capital volta à estaca zero

Depois de interrogar suspeito de atirar em Lairson Kunzler, polícia descartou envolvimento do homem no crime

28/02/2014 | 05h42
Após prisão de inocente, caso de publicitário morto na Capital volta à estaca zero Ronaldo Bernardi/Reprodução
Caso ficou mais difícil, afirma delegada Áurea Hoeppel Foto: Ronaldo Bernardi / Reprodução

A prisão de um inocente, até então suspeito de envolvimento no assalto que resultou na morte do publicitário Lairson José Kunzler, 68 anos, forçou a Polícia Civil a recomeçar a investigação do ponto de partida.

O homem detido provisoriamente na quinta-feira pela manhã tinha contra si cinco indícios de autoria do crime, incluindo impressões digitais no Civic da vítima e semelhança física com o assassino, mas convenceu a polícia de que nada tem a ver com o motoqueiro que matou Kunzler a tiros para roubar R$ 44,2 mil.

O crime ocorreu segunda-feira, diante da portaria do condomínio Jardim do Sol, onde o publicitário morava, no bairro Cavalhada, zona sul de Porto Alegre. O suspeito - cujo nome e dados pessoais não foram divulgados - trabalha temporariamente em um estacionamento próximo ao banco Itaú, no bairro Moinhos de Vento, onde Kunzler deixou o veículo para ir até a agência sacar o dinheiro.

Conforme relato do suspeito em depoimento na 6ª Delegacia da Polícia Civil, as digitais dele estavam na porta do Civic porque ele manobrou o veículo na manhã do dia do crime.

O homem apresentou tíquetes que comprovariam a entrada do Civic por volta das 11h40min e a saída do estabelecimento perto do meio-dia. Do estacionamento, a vítima foi seguida por dois bandidos em uma motocicleta até o bairro Cavalhada, local do ataque.

A polícia tinha as informações do suspeito desde terça-feira, quando marcas de dedos dele foram identificadas pelo Instituto-geral de Perícias (IGP).

Após a decretação da prisão pela Justiça, na noite de quarta-feira, agentes foram na quinta-feira pela manhã ao apartamento do suspeito, no centro da Capital, e encontraram o local vazio, com sinais de que estava desabitado havia alguns dias.

Em um cômodo foi localizado um bilhete com um nome feminino. A partir daí, a mulher, amiga do homem, foi localizada e informou o endereço onde ele estava trabalhando. Além de quatro fragmentos de digitais, a fisionomia e uma tatuagem semelhantes às do bandido que aparece nas imagens do ataque elevaram as desconfianças contra o suspeito.

A polícia se convenceu de que estava na trilha para esclarecer o crime. Apenas um fator intrigava os agentes: o suspeito não tinha antecedentes criminais, contrastando com o que se percebe ao ver as imagens da cena do roubo. O assaltante demonstrou ser experiente e ágil ao manusear o revólver.

Laboratório americano vai examinar imagens do atirador

Após interrogar o suspeito, a delegada Áurea Regina Hoeppel afirmou:

- Não é ele. Tenho plena convicção que nada tem a ver com o crime.

O homem confundido com o assaltante evitou entrevistas. O desfecho inesperado pôs por terra a expectativa da polícia de ter o caso esclarecido em menos de 72 horas.

Agora, a delegada aguarda exames do IGP em fragmentos de outras duas digitais deixadas no carro do publicitário, enquanto tenta identificar suspeitos que aparecem em cenas gravadas pelo circuito interno do Itaú e rastrear quadrilhas. Além disso, cópias das imagens do atirador foram enviadas para um laboratório dos Estados Unidos capaz de desenhar rostos (mesmo que encobertos por capacete) e feições a partir de pequenos traços de fisionomia.

AS PISTAS FRIAS
Polícia se valeu de cinco indícios para prender o homem errado
1) Impressões digitais na porta do automóvel da vítima
2) Compleição, traços físicos e estatura semelhantes ao do criminoso que atirou em Kunzler
3) Tatuagem parecida em uma das pernas
4) O suspeito não aparecia em casa havia mais de uma semana e não teria boa relação com a vizinhança
5) Sem trabalho fixo (atualmente o homem cuidava do estacionamento da família)

"O caso ficou mais difícil", afirma delegada

À frente da investigação da morte do publicitário Lairson José Kunzler, a titular da 6ª Delegacia da Polícia Civil da Capital (bairro Vila Assunção), delegada Áurea Regina Hoeppel, sustenta que não houve precipitação na prisão do suspeito. Leia os principais trechos da entrevista a ZH:

Zero Hora - A senhora entende que agiu certo ao pedir a prisão do suspeito?

Áurea Regina Hoeppel - Certíssima. Não teve precipitação no trabalho. Tínhamos muitos elementos e indícios contra ele. Tanto assim que o Ministério Público concordou com nosso pedido e a Justiça decretou a prisão temporária e mandado de busca.

ZH - Não poderia intimá-lo para depor sem ter sido preso?

Áurea - Não era caso de intimação. Ele não aparecia no apartamento havia uma semana.

ZH - Era possível prever que digitais de pessoas não envolvidas no crime fossem encontradas no carro da vítima?

Áurea - Era. Nunca neguei que poderia. Ocorre que foram encontrados quatro fragmentos de digitais dele no carro. Isso, somado a outros elementos, nos levou a pedir a prisão temporária, que é uma ferramenta de investigação. Jamais divulgamos o nome ou a imagem dele para preservá-lo.

ZH - O caso está perdido?

Áurea - Não. Mas ficou mais difícil. Estamos pedindo novos exames de digitais, guardando imagens de melhor qualidade, e investigando quadrilhas que atacam em saída de banco. Há relatos de uma vítima que afirma ter sido roubada pela mesma dupla. É preciso cautela. A investigação pode levar meses.



O publicitário

 
Foto: Dulce Helfer, Agência RBS

Conhecido pelo temperamento afável, Lairson José Kunzler, 68 anos, era vice-presidente de relações com o mercado da agência de publicidade Paim, onde era sócio desde 2001. Ingressou na empresa a convite de outros dois sócios, Marcus e Cesar Paim, que o conheciam desde o tempo em que trabalhavam em outra agência da Capital, a Escala, que tinha como cliente a revenda Volkswagen GaúchaCar, criada pelo pai de Lairson, Selvino.

Foi no varejo de automóveis que Lairson iniciou a vida profissional. Formado em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ajudou o pai e irmãos a gerenciar outros negócios familiares como a revenda Fiat Jardim Itália, as locadoras de veículos Auto Locadora Gaúcha e Locarauto, assim como a concessionária de motocicletas GaúchaCross, da marca Honda.

- Foram pioneiras na locação de veículos no Rio Grande do Sul e na GauchaCar ao abrirem também à noite. Era uma pessoa muito afável - relembra o empresário Humberto Ruga.

A partir de sua atuação na Paim, Lairson Kunzler também ganhou destaque em entidades representativas do setor. Era diretor da Associação Riograndense de Propaganda (ARP) e do Sindicato das Agências de Publicidade do Rio Grande do Sul (Sinapro-RS).

- Era uma pessoa muito querida no mercado publicitário e tinha muitos amigos. Talvez um dos seus maiores prazeres era almoçar e jantar com amigos. Também era muito apegado à família. Uma figura doce, um cara de bom astral - recorda o diretor de marketing e novos negócios da Paim, João Batista de Cabral Melo.

Lairson Kunzler deixa a esposa Moema e os filhos André, Luciana e Patricia.

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