Religião

Cresce aceitação do judaísmo no Irã

Recentemente, o governo iraniano doou US$ 400 mil a um hospital judaico e desejou um feliz Rosh Hashana nas mídias sociais

28/02/2014 | 02h51
Cresce aceitação do judaísmo no Irã Morteza Nikoubazl/NYTNS
O Hospital e Centro de Caridade Dr. Sapir é um ponto de encontro para os judeus e os muçulmanos iranianos e a mais importante instituição de caridade da Capital Foto: Morteza Nikoubazl / NYTNS

Sentado em seu consultório no único hospital judaico de Teerã, o Dr. Ciamak Morsadegh acendeu outro cigarro enquanto se lembrava de como sua esposa havia trocado o Irã pelos Estados Unidos depois que ele insistiu em ficar.

Morsadegh, diretor do Hospital e Centro de Caridade Dr. Sapir, afirmou que ao contrário de milhares de outros judeus, ele nunca havia pensado em sair da república islâmica, pelo simples fato de o Irã ser o seu lar.

— Eu falo inglês, rezo em hebraico, mas penso em persa. Eu sou iraniano. Judeu iraniano — afirmou Morsadegh, um cirurgião que também é membro do Parlamento Nacional.

Muitos ficaram surpresos recentemente quando o governo do presidente Hassan Rouhani doou US$ 400 mil ao Hospital Dr. Sapir, mas Morsadegh não estava entre essas pessoas.

— Nós judeus fazemos parte da história do Irã. O que é importante é que Rouhani recebe uma cobertura positiva da imprensa por nos ajudar. Ele está mostrando que nós, enquanto minoria religiosa, também fazemos parte desse país — afirmou.

Situado na Rua Mostafa Khomeini — que recebe o nome do filho do fundador da República Islâmica — o hospital fica em frente à escola Seminário Imam Reza, um dos seminários xiitas mais antigos de Teerã. Clérigos de turbante branco passam, falando com voz apressada a seus alunos. Embora o hospital possa parecer deslocado, as pessoas da região não parecem ter a mesma opinião.

— Quando estou doente, atravesso a rua. Eles podem ter uma religião diferente, mas são nossos compatriotas iranianos. Não vejo porque não deveria ir a um hospital judaico — afirmou o seminarista Mohammad Mirghanin, enquanto corria para não perder a aula.

Recentemente em um sábado, uma mulher usando um chador preto tradicional se aproximou de Khoddad Asnashahri, muçulmano e diretor executivo do hospital, e pediu ajuda.

— Fui ao hospital Iman Khomeini com minha filha que precisa de uma ecografia, mas o exame custa 500 mil tomans — ou cerca de US$ 200, afirmou a mulher, Zahra Hajabdolmaleki.

— Nós podemos ajudá-la por metade do preço — afirmou Asnashahri.

Com o nome de um médico judeu que morreu em 1921 enquanto tentava curar pacientes durante uma epidemia de tifo que assolou Teerã, o hospital começou como uma clínica aonde todos os iranianos podiam vir em busca de tratamentos médicos por valores muito inferiores. Há mais de 50 anos esse é um ponto de encontro para os judeus e os muçulmanos iranianos e a mais importante instituição de caridade da capital.

Asnashahri, que trabalha no hospital há quase 48 anos, elogiou a "atmosfera positiva" enquanto destacou que restaram apenas cinco médicos judeus.

— Muitos migraram e outros compraram parcelas de hospitais mais modernos — afirmou.

Cerca de 96% dos pacientes são muçulmanos, assim como a maior parte dos funcionários do hospital. Porém, o que mais importa, afirmou, é a mensagem de que "todas as pessoas podem vir para cá, não importa qual é sua religião, cor ou raça".

Embora a população de judeus esteja diminuindo no Irã — com cerca de 9 mil pessoas, atualmente, de acordo com o censo oficial do Centro Estatístico do Irã, embora outras estimativas falem em 20 mil pessoas — o país possui o maio número de judeus no Oriente Médio fora de Israel.

Morsadegh, o cirurgião, dedicou sua vida a essa comunidade cada vez menor. Ele era o líder do Comitê Judaico de Teerã, um grupo que apoia sinagogas, escolas e outras facetas da vida judaica no Irã, e em 2008 foi eleito como representante dos judeus no Parlamento iraniano, onde cinco minorias religiosas oficiais possuem assentos permanentes.

Ele não diz que a situação para os judeus e as outras minorias religiosas oficiais — os cristãos armênios, os assírios, os caldeus e os zoroastristas — é perfeita no Irã. As cinco minorias gostariam de mudar a lei islâmica que permite que a pessoa de sua fé que se converta ao islamismo receba toda a herança de sua família não muçulmana, por exemplo. Ainda assim, as coisas são piores para os cristãos evangélicos e para os bahais, que podem ir para a cadeia e, em muitos casos, são excluídos do ensino superior.

Morsadegh afirmou que as diversas vezes que o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad negou o Holocausto também deixaram cicatrizes psicológicas.

— Veja bem, todos os judeus acreditam no Holocausto. Teria sido muito melhor se o ex-presidente não tivesse dito nada a esse respeito — afirmou.

Rouhani não deu sua opinião acerca do Holocausto e, em setembro, sua equipe de mídias sociais desejou aos judeus de todo o mundo um feliz Rosh Hashana.

— As coisas melhoraram muito — afirmou Morsadegh, recordando como milhares de judeus deixaram o país após a revolução de 1979. Desde então, muitos mais emigraram com frequência por conta dos problemas econômicos do Irã.

Embora o Hospital Dr. Sapir seja propriedade de judeus, não há muitos sinais de sua tradição judaica. Na parede do consultório de Morsadegh há dois retratos do antigo e do atual líder supremo do Irã, em frente a uma pintura em que Moisés segura os Dez Mandamentos.

Em setembro, Morsadegh se juntou a Rouhani durante sua viagem às Nações Unidas em Nova York. Algumas pessoas no Irã apontaram para uma ligação entre a doação financeira do presidente ao hospital e a defesa entusiasmada do Irã e da posição dos judeus na comunidade, feita por Morsadegh na ocasião.

Mas o médico não se incomoda com esse assunto.

— Ajudei este país na guerra com o Iraque, como médico de primeiros socorros. E amanhã faria tudo novamente — afirmou.

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