O dia mais escuro

Fontes médicas confirmam 67 opositores mortos desde a madrugada

Ministério do Interior admite ter usado armas de fogo contra manifestantes, mas em legítima defesa

20/02/2014 | 17h32
Fontes médicas confirmam 67 opositores mortos desde a madrugada  LOUISA GOULIAMAKI/AFP
Médicos montaram um hospital de campanha em hotel no centro de Kiev para atender aos feridos Foto: LOUISA GOULIAMAKI / AFP

O caos tomou conta da Ucrânia nesta quinta-feira, com novos confrontos em Kiev, que deixaram dezenas de manifestantes mortos, levaram a União Europeia a adotar sanções contra o país e o presidente ucraniano a aceitar eleições antecipadas.

A escalada da violência, mesmo depois de um acordo de trégua alcançado entre governo e oposição, levou o presidente Viktor Yanukovich a ceder a pressões e admitir a realização de eleições antecipadas em 2014.

A notícia foi dada pelo primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, depois de uma reunião entre os ministros das Relações Exteriores da União Europeia e o chefe de Estado.

— Chegou-se a um acordo com Yanukovich para a realização de eleições presidenciais e parlamentares este ano e para a criação de um governo de união nacional nos próximos dez dias — declarou Tusk à imprensa.

Mas o próprio Tusk se mostrou cético.

— A experiência nos mostrou que os compromissos assumidos pela administração ucraniana raramente são respeitados — acrescentou.

Em um comunicado divulgado pelo governo alemão depois de conversas telefônicas entre os líderes de Alemanha, Estados Unidos e Rússia, a chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente americano, Barack Obama, e o presidente russo, Vladimir Putin, consideraram nesta quinta necessário "encontrar uma solução política para a crise na Ucrânia o mais rapidamente possível".

Dia mais violento desde o início das manifestações

A intensa atividade diplomática acontecia enquanto a Ucrânia atravessa um dos momentos mais dramáticos da sua história.

De acordo com os serviços médicos que cuidam dos manifestantes, 67 oposicionistas morreram nos confrontos na Maidan, a Praça da Independência, ocupada há três meses por milhares de pessoas contrárias ao presidente Viktor Yanukovich.

— Mais de 60 manifestantes morreram, todos baleados — informou o médico oposicionista Sviatoslav Janenko.

O governo informou que três policias foram mortos.

Se essas informações forem confirmadas, o número de vítimas dos últimos três dias vai se aproximar de cem, incluindo 13 policiais. Na terça, uma operação para retomar a praça encontrou uma violenta resistência. Os choques entre manifestantes e forças de ordem causaram 28 mortes.

Já o Ministério da Saúde, em comunicado, afirma que, desde terça-feira, foram 75 mortos.

Um jornalista da AFP observou oito corpos diante da sede do Correio Central e dez diante do hotel Kozatski. Outro repórter viu sete corpos na entrada do hotel Ukraina, do outro lado da praça, onde era possível observar muitos rastros de sangue.

Os disparos vieram tanto das linhas da polícia como de prédios nos arredores.

O Ministério do Interior admitiu ter usado armas de fogo. "Com a intenção de preservar as vidas dos agentes da força pública (...) foi tomada a decisão de usar armas em legítima defesa", segundo um comunicado.

O ministério também denunciou o sequestro de 67 policiais e prometeu recorrer a "todos os meios" para libertá-los.

Outros incidentes foram registrados em outras cidades do país, principalmente no leste, onde o apoio a uma aproximação com a Europa é maior.

Esta é a maior crise na ex-república soviética desde a independência, em 1991.

UE negocia e adota sanções

Em meio ao auge da violência, os ministros das Relações Exteriores de Alemanha, França e Polônia reuniram-se com Yanukovich com o objetivo de buscar uma saída pacífica para a crise, segundo fontes diplomáticas alemãs.

As propostas também seriam apresentadas à oposição, garantiu a fonte.

Os três ministros, que iriam viajar à tarde para a reunião de emergência da UE em Bruxelas, decidiram prolongar sua vista até sexta.

Mas isso não impediu o bloco de cancelar os vistos e congelar os bens daqueles que têm as "mãos manchadas de sangue" na Ucrânia, anunciou a chefe da diplomacia italiana.

— Em estreita coordenação com os três ministros que estão negociando em Kiev, tomamos a decisão de agir rapidamente para cancelar os vistos e congelar os bens dos que têm as mãos manchadas de sangue — declarou Emma Bonino após a reunião de crise.

— A responsabilidade pela violência cabe ao regime, mas não podemos ignorar que existem grupos extremistas e infiltrados. Direcionamos (a medida) a todos aqueles que estão manchados de sangue — acrescentou.

No entanto, até o momento não foi estabelecida uma lista precisa, segundo fontes diplomáticas.

Bonino pediu também um "diálogo crítico" com a Rússia.

Além disso, os europeus chegaram a um acordo para flexibilizar o regime de vistos para "as pessoas feridas e os dissidentes". A UE está disposta a fornecer uma ajuda médica e humanitária à Ucrânia, explicou Bonino.

 
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