Memória escrita

Biografia de Neusinha, filha de Leonel Brizola, será lançada nesta quinta no Rio

Livro revela intimidades e também destaca as inúmeras brigas que ela teve com o ex-governador

20/03/2014 | 00h16
Biografia de Neusinha, filha de Leonel Brizola, será lançada nesta quinta no Rio Banco de Dados/Agencia RBS
Foto: Banco de Dados / Agencia RBS

As “perdas internacionais” e o embate permanente com a Rede Globo talvez não estivessem no topo da lista de preocupações de Leonel Brizola (1922-2004) ao longo de boa parte de sua vida pública.

O ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro convivia diariamente com uma adversidade caseira, sobre a qual não exercia controle. Chamava-se Neusinha Brizola, sua filha, famosa por escândalos, a maioria relacionados ao consumo de drogas.

— Minha vontade é sentar o relho no teu lombo — disse uma vez o então candidato à Presidência da República pelo PDT para a filha.

Isso porque Neusinha escondeu um tablete com um quilo de heroína debaixo de um assento do carro usado pelo pai na campanha. Por dias, Brizola circulou pelo Rio com a droga alojada no veículo. Seu motorista se surpreendeu ao descobri-la e, nervoso, fez o relato ao patrão.

Brizola ficou enfurecido:

— Que porcaria é aquela que o chofer encontrou debaixo do meu banco? Então você me faz andar pra cima e pra baixo, durante quase um mês, com a bunda em cima de um quilo de droga?

O sermão continuou e, por fim, ele expulsou a filha de casa. Neusinha foi morar em Amsterdã. Essa história está relatada na biografia Neusinha Brizola Sem Mintchura (Editora Interface Olympus), que vai ser lançada nesta quinta-feira, no Rio.

Os autores, Fabio Fabricio Fabretti e Lucas Nobre, gravaram mais de 20 horas de entrevista com a personagem, que morreu em 2011, aos 56 anos, vítima de complicações provocadas por uma hepatite. A narrativa, na primeira pessoa, reúne intimidades da família Brizola e mergulha no submundo vivido por Neusinha, presa diversas vezes por porte de drogas.

A dor de cabeça de Brizola com as estripulias da filha o levou a demitir o secretário de Transporte, José Colagrossi, em 1983, devido a uma festa gótica organizada por Neusinha, com direito à fantasia de Cleópatra, num prédio que pertencia à secretaria. Brizola governava o Rio pela primeira vez e ficou contrariado com a repercussão e os detalhes do evento. Numa área pública, instrumentos de tortura eram oferecidos aos convidados, todos com roupas pretas e servidos por garçons encapuzados à Ku Klux Klan.

Ao saber da decisão do pai, Neusinha foi a seu gabinete interceder a favor de Colagrossi. Ouviu nova reprimenda:

— Certo foi o que você e ele não fizeram. Isso é insustentável. Aquele prédio pertence ao Estado, não é uma casa de festas.

A relação tempestuosa entre os dois durou décadas e criou outras situações de embaraço para Brizola. O terceiro colocado na corrida presidencial de 1989 chegou a dizer que sua tolerância com Neusinha havia se esgotado para sempre.

Anos mais tarde, já no leito de um hospital, em 2004, o político e a cantora, autora do hit Mintchura, ensaiaram uma aproximação. Ela se dizia arrependida por ter deixado o pai em apuros um sem-número de vezes. Flexível, ele aceitou o seu beijo.

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