Sob polêmica

Cidade catarinense estuda oferecer cirurgia plástica de correção em orelha a crianças que sofrem bullying

Prefeitura de São José faz levantamento de crianças nestas condições para ofertar procedimento

12/03/2014 | 09h09
Cidade catarinense estuda oferecer cirurgia plástica de correção em orelha a crianças que sofrem bullying Daniel Conzi/Agencia RBS
Após cirurgia, menino de 11 anos disse que a implicância dos colegas acabou, mas o pós-operatório foi difícil Foto: Daniel Conzi / Agencia RBS

Uma decisão tomada pela prefeitura de São José, na Grande Florianópolis, abre o debate a respeito das políticas públicas aplicadas para coibir a prática de bullying nas escolas. Desde o ano passado, o município começou um levantamento para oferecer gratuitamente otoplastias, cirurgia plástica de correção em orelhas, para crianças que têm problemas no desempenho escolar causado por agressões vindas de colegas.

Baseada em relatos de bullying nas escolas, a prefeita de São José, Adeliana Dal Pont, pediu às secretarias de Educação e Saúde que reunissem o número de crianças na rede pública que necessitariam da cirurgia. Para o procedimento gratuito, segundo a prefeitura, ganham prioridade crianças que apresentam atraso no rendimento escolar ou algum tipo de problema emocional, causados pelas provocações por parte dos colegas.

De acordo com o secretário de saúde, Luis Antônio Silva, a cirurgia ultrapassa a finalidade estética, e os encaminhamentos a postos de saúde são acompanhados por supervisores escolares. Autora da ideia, a prefeita afirma que a intenção é garantir o bem-estar das crianças e, desta forma, contribuir para no desenvolvimento escolar.

— Conviver com diferentes tudo bem, mas, às vezes, é uma criança em uma escola de 500 alunos. Eu percebo a dor da mãe, o problema da criança — justifica a prefeita.

Para a doutora em Psicologia da Educação e coordenadora do programa de pós-graduação em Educação da Univali, Valéria Silva Ferreira, a melhor forma de a escola tratar o bullying é com o diálogo. E reforça que a decisão pela cirurgia deve ser tomada entre a família e não pelo poder público.

— Temos que educar para mostrar que a diferença existe. A escola precisa trabalhar valores com as crianças, com as famílias.

Mãe de um menino de 11 anos que passou por uma otoplastia custeada pela prefeitura de São José, Raquel Maria de Lima conta que o filho parou de sofrer com as implicâncias dos colegas de escola. Ela lembra que o garoto chegava chorando em casa e dizia que os amigos o provocavam.

— Ele me diz que não faria de novo. Sofreu muito no pós operatório. Por um lado ele parou de sofrer na escola, mas, por outro, sofreu muito pela cirurgia — diz Raquel.

Levantamento ainda não tem dados oficiais

O professor e coordenador do setor de comunicação e projetos educacionais da Secretaria Municipal de Educação, Argélio Leal, afirma que, por enquanto, não há registros oficiais de bullying.

Com o levantamento, as cirurgias gratuitas serão incluídas no projeto "Em Frente", que inclui serviços de psicologia escolar, escola de pais e cuidados com a acuidade visual, com encaminhando para consultas oftalmológicas. A intenção, segundo Leal, é proporcionar todas as possibilidades de melhorar autoestima, que implica também em respeito e cuidados com as diferenças.

Projeto de lei prevê otoplastias pelo SUS

Um projeto de lei em trâmite na Câmara dos Deputados pode garantir o custeio pelo Ministério da Saúde de otoplastia entre crianças e adolescentes. O texto foi avaliado pela Comissão Social e da Família e deve passar ainda pelas comissões de Finanças e Constituição e Justiça, para depois ir para o Senado. O proponente, deputado Guilherme Campos (PSD-SP), justifica dizendo que a otoplastia, na verdade, é uma cirurgia reparadora da orelha e não estética, já que muitas crianças e adolescentes sofrem bullying por isso.

Em São José, os custos das operações são pagos pela verba destinada à Saúde. Segundo a prefeita Adeliana Dal Pont, cerca de 19% do orçamento do município são reservados a atendimentos de saúde em geral - cerca de R$ 128 milhões são previstos pelo município para todos estes gastos. Estes recursos provêm de verbas da prefeitura somados a repasses gerais do Ministério da Saúde e do governo estadual. Em clínicas particulares, a cirurgia de correção em orelhas custa entre R$ 3 mil e R$ 6 mil.

Atualmente, a prefeitura conta com um cirurgião plástico. Um concurso lançado hoje deve ampliar o número de especialistas na área. Desde o ano passado, ao todo, 14 procedimentos foram oferecidos à população pela prefeitura — o número inclui também adultos, as cirurgias são feitas em pessoas acima de 5 anos. Este serviço é fornecido pelo poder público municipal há pelo menos três anos.

Entrevista: Adeliana Dal Pont Prefeita de São José

Autora da ideia de oferecer otoplastia para crianças que sofrem bullying, a prefeita de São José defende que a medida contribui na melhoria do desempenho escolar.

Diário Catarinense — Por que surgiu essa iniciativa?
Adeliana Dal Pont
Na escola, a criança, além de ter um espaço com professor bem qualificado, precisa estar bem, e isso (orelhas de abano) é algo que incomoda as crianças. Pedi para fazer um levantamento de crianças que o setor pedagógico perceba isso e algum sinal que atrapalhe a visão, por exemplo. Temos serviço no centro de saúde com cirurgião plástico que atende essa necessidade.

DC — Há muitas reclamações de bullying relacionado a orelhas de abano?
Adeliana
Tem histórias de crianças que só andavam de boné por causa da orelha, então temos que buscar alguma coisa, mesmo que seja um ato pequeno, porque eu sei que a repercussão vai ser grande. O que tem acontecido: tem havido dentro da escola esse olhar, depois vai para consulta, o cirurgião avalia se merece atenção cirúrgica e com acompanhamento e autorização da família.

DC — Especialistas defendem que incentivar o contato com as diferenças e mostrar a partir do ensino que é possível essa convivência com a diversidade seria uma solução melhor.
Adeliana  —
Como estive muito próxima a uma pessoa que tinha essa dificuldade, coloco o serviço à disposição. É uma opinião, mas tem que ver o que acha a criança e a família envolvida também. A prioridade quem dita é o número de casos.

DC — Estas cirurgias são pagas pelo município. Não há outros procedimentos que poderiam ser prioridades na saúde de São José?
Adeliana
Esse é algo que incomoda as crianças, mas não é só esse procedimento que fazemos. Temos também convênios para atender a outras necessidades das crianças. É só um passo que dei para melhorar. Não é para causar polêmica. É para dizer que o poder público tem preocupação, que a saúde e a educação no sistema público podem ter qualidade se tivermos essa vontade. Não sei se tem outras coisas mais graves, mas eu também, no ano passado, pedi para fazer um levantamento em todas as unidades de mulheres que tiveram câncer no seio e tiveram que amputar uma parte. Também disse que ia investir nisso se houvesse no município essa necessidade. Como é encaminhamento para o Cepon, o centro de saúde não tinha esse registro. Na posição de gestora, de mulher pública, eu tenho a obrigação de disponibilizar os serviços.

Entrevista: Jorge Cardoso Mestre e doutorando em Educação

Para o especialista em Educação, a cirurgia plástica não acaba com o bullying. Na opinião de Cardoso, esta é uma forma de escapar do problema, ao invés de discuti-lo entre as crianças para fortalecer a autoestima e ajudá-las a superar as implicâncias.

Diário Catarinense — Oferecer cirurgia plástica pode resolver o problema de bullying nas escolas?
Jorge Alexandre Cardoso
A cirurgia corretiva puramente estética para acabar com o bullying é uma controvérsia. Se seguirmos nessa linha, precisaríamos ter, então, cirurgias para redução de peso, para melhoramento da visão e para alongamento de ossos, por exemplo. Isso só vai fazer surgir outros grupos sofredores de bullying cobrando soluções também. O problema é o bullying, não ter uma determinada estrutura corporal. E isso precisa ser ensinado à criança.

DC — Mas o rendimento escolar pode melhorar depois de uma cirurgia assim?
Cardoso
Não é fugindo dos problemas que tudo vai se resolver — ainda mais numa idade de aprendizagem. É preciso fazer a criança encarar, fortalecer a autoestima dela e ajudá-la a superar o que está passando. A criança precisa entender que aquilo não vai interferir nas potencialidades dela. Acabar com o buillyng é um trabalho sistemático, sem fim, mostrando todo o tempo que ser diferente não é errado e que não vai fazer de você uma má pessoa.

DC — Pode ter o efeito contrário?
Cardoso
Você não elimina o bullying nas escolas fazendo uma cirurgia. Você vai resolver o problema daquele indivíduo em particular, somente. Vejo essa proposta como algo que desfoca o eixo central. É não aceitar que existam diferenças e achar que ser diferente é ser inferior. Se isso virar uma prática comum, vai acabar estimulando o pensamento negativo. Vai dar a impressão contrária ao que se pretende, tanto em quem sofre o mesmo problema quanto em quem pratica: 'se arrumaram nele é porque realmente é um problema'. É como cortar a vítima do convívio social.

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