Entrosamento raro

Exército e PM fazem a primeira operação conjunta no Rio em três anos

Os militares foram escoltados pelo Bope enquanto buscavam por armas

Exército e PM fazem a primeira operação conjunta no Rio em três anos Fernando Gomes/Agencia RBS
Os PMs e militares do Exército fizeram seu trabalho em meio a vidraças quebradas e pichações agressivas Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

A anunciada e celebrada ajuda das Forças Armadas no desmantelamento de redutos violentos do tráfico no Rio de Janeiro não ficou só na retórica. Militares do Exército e da PM fluminense realizaram hoje uma operação conjunta na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, próximo ao aeroporto Tom Jobim (antigo Galeão).

É a primeira ação colaborativa entre as forças federais e estaduais no Rio desde 2011, quando elas tomaram a favela da Rocinha. A região da Maré deve ser ocupada totalmente pelos militares já na semana que vem, em decorrência de pedido do governo estadual.

Policiais e militares caminham no Complexo da Maré
Foto: Fernando Gomes/Agência RBS

A ponta-de-lança do Exército na operação, ainda antes da ocupação, é o uso de sapadores para localizar armas. Quinze homens do 1º Batalhão de Engenharia de Combate e Escola do Exército, cuja sede fica no bairro de Santa Cruz (RJ), iniciaram, na manhã desta quarta-feira, uma varredura em busca de paióis (esconderijos) de armas dos traficantes da Maré. Contaram para isso com rastreamento prévio e escolta do Bope, o temido Batalhão de Operações Especiais da PM fluminense, celebrizado na série de filmes Tropa de Elite.

Os "caveiras" do Bope, vestidos de preto e portando fuzis com miras telescópica, se empoleiraram nos prédios de escolas da favela Nova Holanda para garantir a passagem do pessoal da Engenharia do Exército. Por não ter ainda ocorrido a ocupação pelo Exército, os militares federais não portavam armamento. Levavam nas mãos detectores de metais, usualmente usados para rastrear minas explosivas, mas que ontem foram usados para tentar localizar objetos metálicos em território usado como esconderijo por traficantes. Os aparelhos são capazes de verificar a presença de armas e alguns tipos de explosivos enterrados no solo a uma profundidade de até 1,5 metro.

– É possível localizar até uma agulha enterrada num buraco de 30 cm – garante o capitão Rafael Medeiros, comandante do pelotão.

Num entrosamento raro, policiais e militares do Exército andavam em duplas. As buscas se concentraram num terreno usado como horta e situado entre os CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública) Elis Regina, do Terceiro Comando, e o Samora Machel, do Comando Vermelho, localizados na divisa das favelas Nova Holanda e Parque União. Próximo à Linha Amarela, freeway que liga as zonas Leste e Oeste do Rio, esses CIEPs também formam a divisa de territórios entre as duas maiores facções criminosas que atuam nas 11 comunidades do Complexo da Maré. De um lado dominam os bandidos do Terceiro Comando Puro (TCP). De outro, os do Comando Vermelho. As paredes das duas escolas de turno integral estão polvilhadas de tiros de fuzil, disparados pelos bandidos para atemorizar simpatizantes dos rivais.

Os PMs e militares do Exército tiveram de fazer seu trabalho em meio a vidraças quebradas, slogans agressivos pintados nas paredes (como UPP é o caralho..., hostilizando as Unidades de Polícia Pacificadora) e estouros incessantes de fogos de artifício, disparados por olheiros dos traficantes, mas que faziam tremer cada soldado pela semelhança com disparos de fuzil.

Os militares usaram os detectores e cavaram, cavaram, cavaram, durante uma hora, na horta entre as duas escolas. Foi uma suadeira, sem resultar em sucesso. Frustrados, ainda tiveram de enfrentar vaias da criançada das escolas, que está há dois dias sem aulas pela ameaça de confronto entre policiais e traficantes. Outra que reclama da presença cada vez maior de fardados na região é Andréa Carvalho, presidente da Associação de Moradores da Nova Holanda.

– O pessoal quebra tudo quando revista as casas, não podem fazer isso – descreve ela, para Zero Hora.

A área, que já está sob intenso patrulhamento do Bope e do 22º Batalhão da PM fluminense, ganhará no início de abril (possivelmente dia 7) reforço do Exército e a Polícia Federal para a retomada definitiva das 11 favelas da região por parte do Estado. A estimativa das autoridades de segurança é que pelo menos 500 bandidos fortemente armados atuem no Complexo da Maré. Contra eles serão deslocados 4 mil policiais e militares.

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