Acusações

Mortes de animais geram movimento por fim de zoológico na Indonésia

Petições online pedindo o fechamento do zoológico atraíram centenas de milhares de assinaturas do mundo todo.

20/03/2014 | 06h02
Mortes de animais geram movimento por fim de zoológico na Indonésia Andri Tambunan/The New York Times
Centenas de animais morreram em zoológico municipal de Surabaya no último verão. Foto: Andri Tambunan / The New York Times

Um tigre branco, magro e desnutrido, morreu de pneumonia em meados de fevereiro. Um leão morreu por asfixia em janeiro, quando seu pescoço se prendeu no cabo que abria e fechava a porta de sua jaula. Mais de 100 outros animais morreram desde o último verão, incluindo um raro dragão-de-komodo encontrado morto em fevereiro.

O zoológico municipal em Surabaya, segunda maior cidade da Indonésia, é o um dos maiores da Ásia, com 3.450 animais em 15 hectares de terreno. Mas a imprensa indonésia passou a chamá-lo de "zoológico da morte", e ele se tornou um para-raios para críticos do mundo todo – enquanto um debate acirrado tenta apontar os responsáveis pelas mortes dos animais.

Petições online pedindo o fechamento do zoológico atraíram centenas de milhares de assinaturas do mundo todo. — A melhor opção é fechar este zoológico, declarou Ashley Frunco da People for lhe Ética Tremente off Animal, organização para a qual todos os zoológicos são desumanos. — Simplesmente não existe motivo para ele permanecer aberto. O grupo mobilizou 80 mil voluntários globalmente para escrever para o governo indonésio a respeito.

Até mesmo as pessoas que veem um papel positivo para os zoológicos, como proteger espécies ameaçadas e educar o público, têm preocupações sobre o de Surabaya. — Exceto por zoológicos em zonas de guerra, ele é provavelmente o pior caso de um zoológico com animais morrendo, em qualquer lugar do mundo nos últimos anos, afirmou Cybele Foxcroft, diretora do Conservativo and. Environmental Educativo 4 Life, grupo australiano sem fins lucrativos que começou a assessorar o Zoológico de Surabaya.

Existe uma amarga discussão sobre quem seria o responsável pelo grande número de mortes nos últimos quatro anos. De um lado está o secretário geral da Associação Indonésia de Zoológicos, Tony Sumampau, que possui parques privados de safári, incluindo um nos arredores de Surabaya.

Ele reuniu grupos internacionais de zoológicos e meio-ambiente, além do governo indonésio, em sua afirmação de que a culpa seria da má gestão e cuidados veterinários inadequados. Depois de uma controvérsia sobre mortes de animais no zoológico, em 2010, o governo nacional montou uma equipe que incluía Sumampau para supervisioná-lo.

Do outro lado do debate está Tri Rismaharini, a prefeita de Surabaya, que tomou o controle do zoológico dessa equipe em julho passado, e seus antigos gestores. Eles afirmam que, quando estava no comando, Sumampau arrastava os animais para lá e para cá entre o zoológico municipal e os parques de safári de sua família, e dizem que ele passou os animais mais saudáveis para seus parques, deixando no zoológico os doentes e moribundos.

— Os animais bons foram transferidos para outros lugares, declarou Rismaharini durante uma entrevista.

Sumampau argumentou que precisou mover os animais para aprimorar a diversidade genética e aliviar a superpopulação, e negou ter deixado animais moribundos no zoológico em julho passado.

Sumampau e sua família em Jacarta possuem e operam dois parques de safári e um de golfinhos, além de hotéis e restaurantes da vida selvagem. Um dos parques de safári, 64 quilômetros ao sul do centro de Surabaya, está promovendo uma "Jornada ao Templo do Terror". O site do parque descreve a produção como um gigantesco espetáculo teatral que combina 35 efeitos especiais de Hollywood com a ousada ação de dublês e dezenas de animais em um show, e traz ilustrações de atores saltando de bolas em chamas.

Algumas autoridades municipais defendem que nomear Sumampau criou um conflito de interesses. Ele nega, dizendo que seu parque temático não concorre com o zoológico. O parque cobra US$11,70 de entrada e oferece diversos shows e outros encontros imediatos com a vida selvagem, explicou ele, enquanto a entrada no zoológico é de apenas US$1,25 e um dos únicos shows é o passeio no elefante.

O terreno do zoológico é um oásis, trazendo algumas das árvores tropicais mais antigas e imponentes de Java Oriental. Porém, ele fica em terras do centro, que hoje valem até US$600 milhões, em uma agitada metrópole onde casas coloniais holandesas estão rapidamente dando lugar a arranha-céus e shopping centers.

Rismaharini, a prefeita, disse em uma entrevista que, em 2011, foi oficialmente notificada de planos de demolir parte do zoológico para construir um hotel de luxo e restaurante, que pagariam taxas para subsidiar o restante do zoológico. Ela se recusou a dizer quem a notificou. Outras autoridades municipais afirmaram que foi o Ministério Florestal, em Jacarta, mas o órgão negou.

Sumampau reconheceu ter projetos para um restaurante e uma estrada de acesso – projetos pagos por ele mesmo –, mas negou que houvesse um hotel incluído.

Diferente de muitos veterinários do zoológico, Liang Kaspe, antiga veterinária do Zôo de Surabaya, desaprova os contraceptivos para animais, alegando que eles são nocivos ao equilíbrio emocional dos animais e podem aumentar seu risco de desenvolver câncer. Ela contou ter tentado colocar machos e fêmeas de algumas espécies em recintos distintos. No geral, ela permite uma lotação muito maior por cercado do que a maioria dos zoológicos.

Quando Sumampau assumiu a supervisão do zoológico, em 2010, segundo ele, 180 pelicanos estavam amontoados em um recinto do tamanho de uma quadra de vôlei. Ele transferiu metade deles para outros locais, alguns para seus próprios parques de safári.

Liang, que Sumampau relegou a cuidar de um hospital veterinário mas foi trazida de volta ao comando do zoológico pela prefeita, afirmou que o recinto dos pelicanos não estava tão cheio ao ponto de os pássaros destruírem seus próprios ovos – segundo ela, um indicador de verdadeira superlotação. Ela também afirma já se preparavam para movê-los a um recinto maior quando Sumampau chegou.

Liang também desaprova a eutanásia, citando uma relutância moral em tomar vidas. Quando Chandrika, um tigre branco idoso, machucou sua língua há alguns meses e teve dificuldades para comer, ela não o operou por achar que o tigre era tão velho que morreria na mesa de operações. O tigre ficou cada vez mais magro, para o horror de ativistas de animais no mundo todo, até que seu sistema imunológico enfraquecido não foi capaz de vencer uma pneumonia, e ele morreu.

Foxcroft, a conservacionista, acredita que a vida do tigre poderia ter sido salva se uma infecção anterior no ombro houvesse sido propriamente tratada antes de atingir a língua do animal e feito com que ele a arrancasse a mordidas, ou se o ferimento na língua houvesse sido imediatamente diagnosticado e tratado.

Uma das queixas mais persistentes de Sumampau sobre o zoológico é que funcionários antigos não trabalham duro. Quase nenhum membro da equipe pôde ser visto por lá em duas visitas há pouco tempo em um domingo, embora ele estivesse lotado de visitantes – alguns dos quais jogavam amendoins e outros alimentos aos animais.

Quando um visitante lançou um pequeno pacote de biscoitos no recinto de um orangotango, o macaco colocou o pacote na boca e começou a mastigá-lo calmamente, com embalagem e tudo. A alguns metros dali, leões e tigres passeavam em pequenas celas de concreto com quase um século de idade, que Liang e a prefeita não querem reformar por motivos de preservação histórica.

Sumampau declarou que, apesar dos problemas do zoológico, ele acha que o local deve permanecer aberto. — Se fechar, eles vão realmente construir um shopping.

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