A explicação

Mujica pede que EUA libertem cubanos em troca de presos de Guantánamo

Presidente uruguaio diz que não faz "favores grátis", mas que passa "um recibo"

21/03/2014 | 16h50
Mujica pede que EUA libertem cubanos em troca de presos de Guantánamo Daniel CASELLI/AFP
Presidente uruguaio teria conversado antes com presidente cubano Foto: Daniel CASELLI / AFP

Um dia depois de anunciar que o Uruguai receberá cinco detentos de Guantánamo na condiação de refugiados, o presidente uruguai, José Mujica, revelou nesta sexta-feira que não fará um favor "gratuito".

Em troca, Mujica pediu ao governo de Barack Obama a libertação dos prisioneiros cubanos que estão nos Estados Unidos. A negociação ainda não foi concluída.

Na quinta-feira, Mujica confirmou que estava disposto a aceitar o pedido de Washington de receber, como refugiados, presos da polêmica prisão de Guantánamo.

— É um pedido por uma questão de direitos humanos — afirmou o presidente. Mas advertiu: "Não faço favores grátis, passo um recibo.

Entretanto, foi somente nessa sexta que Mujica revelou qual era o "recibo".

— Nós não fazemos isto por dinheiro ou coisas materiais — afirmou, em seu programa de rádio.

— Mas não temos problema algum em dizer que solicitamos ao governo dos Estados Unidos que faça o possível para libertar dois ou três prisioneiros cubanos que há muitos anos estão nesta prisão, porque isso também é uma vergonha.

Mujica se refere a cinco agentes cubanos detidos em 1998, e condenados por espionagem na Flórida. Três ainda estão presos.

Segundo a revista Búsqueda, que deu a primeira notícia sobre o acordo, o presidente decidiu aceitar a proposta "depois de uma série de consultas e de enviar emissários aos Estados Unidos e a Guantánamo".

Também informou que, durante sua última viagem a Cuba, em janeiro, Mujica conversou sobre o tema com o presidente cubano Raúl Castro, que concordou em apoiar a ideia.

Mujica indicou que as negociações com o governo americano "estão longe de estarem encerradas".

— Dependem, entre outras coisas, de diversas decisões fora de nosso alcance — destacou.

Logo, ainda não está claro quantos serão e nem quando vão chegar os refugiados

Uma alta fonte do governo uruguaio informou à AFP que serão cinco presos, e que eles devem ficar ao menos dois anos no país.

Segundo Mujica, os que forem ao Uruguai "serão homens livres", e "esse assunto de não sair do país durante dois anos é um gesto voluntário deles para conseguirem sair dessa vergonha, e não uma imposição nossa".

Ele destacou ainda que "já foram 18 países que ofereceram colaborações semelhantes para ajudar a acabar com esta vergonha, e 89 prisioneiros já saíram ou estão saindo de Guantánamo".

O anúncio foi recebido com dúvidas por juristas locais, que não sabem as condições em que vão chegar os presos, e com ceticismo pela oposição.

— É se meter em um tema que não tem nada a ver conosco — afirmou o senador do Partido Colorado José Amorín Battle. Já o deputado e pré-candidato a presidente Luis Lacalle Pou anunciou que vai convocar em caráter de urgência o chanceler Luis Almagro ao Congresso para que explique a decisão do governo.

Para Mujica, no entanto, o pequeno país ganhou "um pouco mais de autoridade moral para dizer aos mais poderosos: sejam um pouco menos orgulhosos, menos impositivos".

A prisão de Guantánamo virou símbolo dos excessos da "guerra ao terror" do ex-presidente americano George W. Bush, e o presidente Obama já prometeu mais de uma vez fechá-la.

As transferências de presos de Guantánamo ficaram mais rápidas nos últimos meses, embora 154 ainda estejam na criticada prisão. A maioria dos detentos sequer foi julgada pelas acusações de terrorismo que pesam contra eles.

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