242 anos

No aniversário de Porto Alegre, as mãos que constroem e mudam a cidade

O responsável por esculpir a nova face da metrópole, espalhando novos prédios, é um exército anônimo de 140 mil trabalhadores

26/03/2014 - 05h02min
No aniversário de Porto Alegre, as mãos que constroem e mudam a cidade Diego Vara/Agencia RBS
Em 40 anos, Aires (à direita) passou de servente a encarregado de obras Foto: Diego Vara / Agencia RBS  

Aos 242 anos, Porto Alegre continua em construção. A cidade, que aniversaria nesta quarta-feira, exibe uma fisionomia renovada, distinta da que tinha apenas cinco ou 10 anos atrás, graças a uma expansão imobiliária intensa, rumo ao norte e ao sul, e principalmente para cima, e a projetos de infraestrutura que espalharam canteiros de obras por todos os lados.

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O responsável por esculpir a nova face da metrópole, espalhando prédios comerciais, edifícios residenciais e condomínios de casas, é um exército anônimo de 140 mil trabalhadores, habituados a manejar cronogramas apertados e a conviver com reclamações por atrasos e desvios no trânsito. 

À frente de um time de 150 pessoas, Aires Alexandrino Amaral da Silva, 59 anos, é o encarregado-geral das obras do entorno do Estádio Beira-Rio, conduzindo a duplicação das avenidas Edvaldo Pereira Paiva e Padre Cacique e a construção do viaduto da Pinheiro Borda. O desafio de concluir as intervenções até o início do mundial de futebol é o ápice de uma carreira de mais de 40 anos, 30 deles dedicados às ruas da Capital.

Aires participou de grandes projetos, que mudaram a cara da cidade, como o trensurb, a pavimentação das avenidas Ceará e Farrapos, o corredor de ônibus da Sertório e a rótula na intersecção da Carlos Gomes com a Protásio Alves. Começou como servente, o operário a quem é delegado o serviço mais pesado, tendo de forcejar com picaretas e “virar” concreto com pá. Depois conquistou posições de maior responsabilidade e passou a chefiar grupos cada vez mais numerosos, como encarregado de frente e mestre de obras.

– Gosto quando a obra sai das fundações, quando começa a levantar e você pode enxergá-la. Gosto do que faço. Toda obra dentro de uma cidade grande dá transtornos, mas depois dá alegria. Me sinto trabalhando para o povo – afirma.

Aires não nasceu nem mora na cidade que lhe consome quase 12 horas diárias de esforço. É natural de Minas do Butiá e reside em Cachoeirinha. Investiu a maior parte da vida profissional em iniciativas para desafogar o trânsito, mas admite a limitação das melhorias viárias diante de uma frota de veículos crescente.

– É muito carro. Todo mundo pega o seu carrinho e vai para o serviço, e eu também. A maioria tem uma pessoa só. Dá para contar nos dedos os que têm duas ou três. Há 30 anos, dirigir não era o inferno que é hoje.

Ele atesta também uma mudança no perfil dos trabalhadores. Segundo o encarregado-geral, os funcionários mais tarimbados foram se aposentando, e os mais novos não conseguem suprir as vagas com o mesmo nível de capacitação. Há outros setores a atrair a atenção dos jovens.

– A gurizada quer coisa leve, quer computador, e não pegar no pesado. Na minha época, a gente fazia hora extra para aumentar o salário. Hoje o ajudante quer fazer só o feijãozinho com arroz e ir embora – avalia.

Em uma década, o dobro de empregos

Aposentado, Aires ainda não pensa em abandonar as atividades. Questionado sobre os empreendimentos em que gostaria de se envolver, cita o metrô. 

– Porto Alegre é uma cidade maravilhosa. Está mais bonita, tem mais parques, mas tem de ter metrô. Quando botarem várias linhas, o pessoal vai deixar o carrinho em casa – conclui.

Um contingente equivalente a 10% da população de Porto Alegre está empregado na construção civil na cidade. Aires é apenas uma das 144 mil pessoas em atuação no setor, entre operários, engenheiros e técnicos, conforme dados do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil (Sticc). 

Outros números, do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado (Sinduscon-RS), apontam que, em dezembro de 2012, havia 40.194 empregos formais em Porto Alegre – 10 anos antes, eram 18.822. Somente no ano passado, 4.495 novas unidades residenciais e comerciais (projetos na planta ou em andamento) foram colocadas à venda.

– O atual momento é muito bom. As empresas estão empregando mais, e a escassez da mão de obra fez com que aumentasse a formalidade – analisa Neusa Diefenbach Biehl, do Departamento de Economia e Estatística do Sinduscon, que acompanha a movimentação de cerca de 60% do mercado da cidade.

Bairros como Serraria, Ipanema, Restinga e Lami, na Zona Sul, e ao longo da Avenida Protásio Alves, em direção a Alvorada, concentram grande volume de obras. Em um piscar de olhos, bairros novos surgiram quase do nada. É o caso do Jardim Europa, na Zona Norte.

No local, em 26 de março de 2006, Porto Alegre ganhou de aniversário o Parque Germânia. De lá para cá, o entorno da área verde viu surgirem uma série de ruas e prédios novos. Ao avaliar o setor, Gelson Santana, secretário-geral do Sticc, saúda a fartura de empreendimentos, mas aponta uma discriminação a ser superada.

– Esses trabalhadores constroem os grandes e belos prédios da cidade, mas, no outro dia, se pararem na frente desses prédios, vão achar que eles estão ali para roubar. Não vão nem convidar para entrar e ver aquilo que construíram. Vão achar que são ladrões – lamenta Santana.

Irmãos para toda obra

Pela variedade e extensão dos currículos, os três irmãos já poderiam ter erguido uma cidade inteira, com casas, prédios, hospitais, escolas, bancos, shopping center. Somada, a experiência dos Gonçalves Silveira na construção ultrapassa os 80 anos.

Começaram por necessidade e porque o incentivo estava dentro de casa – o pai, mestre de obras, levou um por um para o trabalho, ensinando o ofício que permitia o sustento dos seis filhos. José Altair, hoje com 50 anos e 32 anos de experiência, foi o primeiro, e depois se seguiram João Ramiro, 48, anos e Jair, 41 anos.

– O pai puxava mais com a gente do que com os outros. Foi bom professor – diz João Ramiro.

Trabalham a maior parte do tempo juntos, dividindo tarefas em um mesmo local e aproveitando juntos a pausa do almoço. Dedicam-se agora a um prédio de 10 andares no Partenon. Além da parceria profissional, são vizinhos – construíram, em conjunto, as casas onde vivem, no bairro Camaquã, Fazem de tudo: piso, azulejo, alvenaria, reboco.

– Começamos no bate-estaca e terminamos no telhado – afirma João Ramiro.

Também muito experiente, José Raimundo Costa de Jesus, há 40 anos como empregado da construção civil, conseguiu dar um passo além, iniciando o próprio negócio há três meses.

À frente de uma empreiteira ainda nem batizada, o pequeno empresário que começou como auxiliar do avô, aos nove anos, hoje tem dois funcionários. Lembra de uma Porto Alegre repleta de “mato e campo” que ajudou a preencher com construções importantes: contribuiu com o Tribunal de Contas do Estado, o Praia de Belas Shopping e os parques Marinha do Brasil e Ararigboia.

– A Restinga era uma vilinha, hoje é uma cidade – comenta sobre o bairro onde reside. 
Aos 56 anos, no início de uma carreira como administrador do próprio tempo, ele aproveita o ânimo renovado.

– Se largar a colher, não sei o que fazer. Trabalho o dia inteiro e não sinto canseira.

Programe-se!

Veja algumas das atividades com entrada franca em comemoração ao aniversário

Quarta-feira
- Concerto da Orquestra Filarmônica da PUCRS, às 18h30min, no teatro do prédio 40 (Av. Ipiranga, 6.681).
- Tributo a Tim Maia, às 20h, no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685).

Quinta-feira
Apresentação da Imperadores do Samba, escola campeã do Carnaval de Porto Alegre, e do cantor Kadinho Dias, às 18h, no Largo Cultural do Shopping Total (Av. Cristovão Colombo, 545).

Sábado
- Baile da Cidade, às 20h30min, na Prainha da Usina do Gasômetro. Abertura com Banda Municipal e Nei Lisboa. Na sequência, show Lupi 100 Anos. Encerramento com Conjunto Fama e DJ Claudinho Pereira.

 
 
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