Aniversário no Vaticano

O ano em que Jorge se tornou Francisco

Especialistas contam como um papa latino-americano, de formação voltada para o social, implementou uma mudança de estilo, abordando temas cotidianos que antes eram vistos com restrições pela Igreja Católica e conseguindo a proeza de unificar discursos de progressistas e conservadores

15/03/2014 | 12h02
O ano em que Jorge se tornou Francisco AFP PHOTO / OSSERVATORE ROMANO/OSSERVATORE ROMANO
Simplicidade se tornou uma das marcas do novo pontífice Foto: AFP PHOTO / OSSERVATORE ROMANO / OSSERVATORE ROMANO

Entre 13 de março de 2013 e a última quinta-feira, Mario Jorge Bergoglio se despiu da identidade portenha e, numa lenta transição, foi assumindo a aura de um homem do mundo. No caso, o Papa.
Tudo isso é verdade. Mas em termos.

Nesse ano de pontificado, o cardeal argentino Bergoglio incorporou o nome Francisco, que adotou como sinal de opção pelas causas sociais, esquivando-se da identidade típica de um papa, o responsável por zelar pela fé de mais de 1 bilhão de pessoas e pelas riquezas espirituais e também materiais do Vaticano.

Francisco se mostrou um latino-americano nos gestos, nas frases e, especialmente, nas preocupações. Repaginou a retórica da Igreja e até recebeu críticas isoladas por não implementar avanços. A maioria dos analistas, porém, identifica na expressão verbal uma genuína e importante ruptura. Moisés Sbardelotto, pesquisador da Unisinos e autor do livro E o Verbo se fez bit, diz que "a mudança de estilo já equivale a reconhecer uma mudança de substância, porque o papado sempre foi marcado pelos sinais de poder e de superioridade".

Lidice Meyer Ribeiro, professora de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, lembra que Francisco é um jesuíta que resgatou a missão de educar originária de sua ordem.

— Sua origem latino-americana logo se fez notar pela forma peculiar de se dirigir ao povo e de conduzir sua vida e a vida no Vaticano. O primeiro papa em 13 séculos com origem do outro lado do Atlântico traz consigo a vivência de mudanças de sistemas de governo e de revoluções, do choro das Mães da Praça de Maio e da luta dos teólogos da libertação — diz ela.

Essa conduta de Francisco foi capaz de um quase milagre: uniu opiniões habitualmente díspares, como as do teólogo da libertação Leonardo Boff e o integrante da Opus Dei Carlos Alberto di Franco (leia entrevistas nesta reportagem). Ambos identificam no Papa a adoção de uma nova forma de se comunicar, sem tergiversar sobre temas que normalmente eram vistos pela Igreja Católica como tabus, como o aborto, a participação da mulher no sacerdócio e a homossexualidade.

>> Leia todas as notícias sobre o papa Francisco

A simplicidade de Francisco se mostrou nas frases e nos gestos. Episódio curioso: um dia após a fumaça branca tê-lo indicado como Papa, Francisco telefonou para um incrédulo amigo de infância, Adrián Pallarols, a quem dizia "não me interrompa", percebendo que o interlocutor não acreditava no que ocorria. Outro: no refeitório da Casa Santa Marta, faz questão de se servir e de compartilhar a mesa no refeitório — no seu aniversário, os comensais foram um cachorro vira-lata e três moradores de rua, que compartilharam com ele um cappuccino e croissants. Mais um: ele recebe a visita do grande amigo, o rabino Abraham Skorka, com quem troca confidências, entre as quais a de que estava acima do peso.

Não é apenas sua forma de agir e falar, porém, que chamou a atenção neste ano de pontificado. É nítido seu esforço para mudar a imagem da Igreja católica, devastada pelos escândalos, com uma revolução pacífica marcada pela linguagem direta e simples. Vindo do "fim do mundo", como gosta de dizer (referindo-se ao Extremo Sul), ele insiste na ideia de uma Igreja pobre para os pobres. Rompeu paradigmas, improvisou discursos e falou abertamente, como um amigo — ou um pastor.

O site católico Religião Digital diz, em uma nota: "Em menos de um ano, Francisco conseguiu revitalizar uma Igreja triste e apagada, que se sentia perseguida por inimigos de fora e intrigas de dentro".

"Franciscomania"

Avessos a luxos e a rigores do protocolo, o Papa fez o Angelus de domingo se tornar o programa mais visto da TV pública italiana, fez suas audiências às quartas-feiras terem um aumento de 30% na presença de fiéis, beijou de rostos de crianças a pés de presidiários e provocou a cunhagem de um neologismo: "franciscomania". O Brasil pôde ver isso na primeira viagem internacional que ele fez como Papa, quando participou na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013. Francisco atraiu multidões de jovens e conquistou admiradores que sequer esperavam se deixar seduzir por seu carisma. A bordo do avião, no retorno ao Vaticano, fez seu verbo circular o mundo antes de a aeronave decolar:

— Se uma pessoa é gay e procura Jesus, quem sou eu para julgá-la? — perguntou, instado que foi, naquele mês de julho, a falar sobre homossexualidade.

Tantas fez o Papa, que a revista americana Time o escolheu, em 11 de dezembro de 2013, como a personalidade do ano de 2013, destacando que, desde sua chegada ao Vaticano, ele mudou "o tom, a preocupação e o enfoque de uma das maiores instituições do mundo". Nancy Gibbs, editora da revista, escreveu: "Raramente um novo personagem no cenário internacional capturou tanta atenção tão rápido — jovem ou velho, crente ou cínico — como o papa Francisco." Também a irreverente revista Rolling Stone, bíblica da cultura pop, pôs sua foto na capa de fevereiro com a manchete "Os tempos estão mudando".

>> O "milagre" de unir opostos

A ideia de ouvir opiniões divergentes se viu frustrada por obra e graça do papa Francisco. Sua atuação recebe a aprovação de expoentes da Opus Dei e da Teologia da Libertação. De um lado, o doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra Carlos Alberto di Franco, integrante da Opus Dei (Obra de Deus, em latim), uma das instituições mais poderosas da Igreja, fundada na Espanha em 1928 e esteio da doutrina católica tradicional. De outro, o filósofo e teólogo Leonardo Boff, crítico da tradição católica, ordenado sacerdote em 1964 e, em 1985, condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida por Joseph Ratzinger (depois papa e hoje papa hemérito Bento XVI), a um ano de "silêncio obsequioso", perdendo cátedra e voz na Igreja em razão dos conceitos que exprimiu no livro Igreja, Carisma e Poder.

Leia as duas entrevistas:

.

VEJA TAMBÉM

     
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.