Crime brutal

Polícia apreende carta e vídeo feitos durante cárcere de casal assassinado

Para os investigadores, provas corroboram hipótese de que a motivação do crime era reverter testemunho sobre outro assassinato de 1999

18/03/2014 | 12h16
Polícia apreende carta e vídeo feitos durante cárcere de casal assassinado Vanessa Kannenberg/Agência RBS
As folhas e as imagens teriam sido produzidas para retirar culpa de uma mãe de santo, condenada pela morte do cunhado Foto: Vanessa Kannenberg / Agência RBS

A polícia apreendeu, nesta segunda-feira, a carta e o vídeo feitos durante o cárcere privado de Lonia Gabe, 67 anos, e Antônio Celestino Lummertz, 59 anos. Os documentos, que foram inclusive registrados em cartório, são apontados pela polícia como a motivação do sequestro do casal em Vale do Sol e posterior assassinato, em Rolante.

Segundo o delegado titular de Vale do Sol, no Vale do Rio Pardo, Marcelo Chiara Teixeira, o advogado de Marli Machado Martins, 48 anos, mãe de santo apontada como a mandante do crime, entregou, espontaneamente, as três folhas escritas à mão por Lummertz e o vídeo de cerca de 10 minutos em que ele lê a carta. 

— Essas provas apenas corroboram nossa hipótese de que Marli obrigou a vítima (Lummertz) a produzir esse novo testemunho para se livrar da condenação antiga e depois matou ele e a companheira para apagar as provas — afirma Teixeira.

Mari foi condenada a mais de 12 anos de prisão pelo assassinato do cunhado, ocorrido em 1999, em Torres, mas nunca cumpriu a pena, pois vinha recorrendo. Na época, Lummertz que teria sido responsável por apontar a mãe de santo como mandante do crime, pois ele mesmo a havia apresentado ao autor da facada que matou o marido da irmã dela.

De acordo com o delegado Luciano Menezes, titular da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) de Santa Cruz do Sul, a carta e o vídeo foram produzidos logo após o sequestro, que aconteceu na noite do domingo, 2 de fevereiro, em Vale do Sol. O casal teria sido levado no próprio carro e com outros dois Palios como escolta até Rolante, no Vale do Paranhana, e, antes da segunda-feira amanhecer, Lummertz teria sido coagido a escrever e ler a carta.

O vídeo foi gravado na cozinha da casa de Marli, mesmo local onde o casal foi assassinado, em um cenário supostamente montado, com uma cortina branca e uma toalha branca sobre uma mesa, para não ser identificado.

— Notamos que o texto é bem montado, bem programado. Ele (Lummertz) se engasga e gagueja, demonstrando que estava sendo pressionado, e demora 10 minutos pra ler apenas três folhas — conta Menezes.

Lummertz e Lonia teriam sido mantidos em cárcere privado em Rolante e foram mortos cinco dias depois do sequestro. Ambos teriam sido estrangulados e colocados dentro de uma geladeira velha, onde foram queimados durante 14 horas.

Marli, identificado como a mentora do sequestro e morte do casal, Valdir Ribeiro de Carvalho, 58 anos, que teria assumido a execução dos homicídios, e uma familiar de Marli, que não foi identificada pela polícia e que teria auxiliado as ações, permanecem presos temporariamente em Santa Cruz do Sul. Um quarto suspeito está na mira da polícia, mas ainda não foi detido.


CRONOLOGIA DO CRIME

Como se desenrolou o sequestro Antonio e o assassinato, conforme a polícia:

2 DE FEVEREIRO
O sequestro (Vale do Sol e Rolante)
Lonia Gabe, 67 anos, e Antônio Celestino Lummertz, 59 anos, foram sequestrados na noite do domingo. Eles estavam na casa que viviam no interior de Vale do Sol. Segundo a Polícia Civil, o crime foi arquitetado por Marli Martins, 48 anos, mãe de santo que queria se vingar por Lummertz tê-la denunciado à Justiça como uma das mandantes do assassinato do cunhado dela, em 1999. Ainda segundo a investigação, acompanhada de pelo menos mais duas pessoas, seqüestrou o casal e os levou no Civic deles, usando outros dois carros como escolta. O destino foi a casa de Marli em Rolante, onde Lonia e o companheiro foram mantidos em cárcere privado por cinco dias.

5 DE FEVEREIRO
O cartório (Osório)
Lummertz foi obrigado a gravar um vídeo e assinar um documento em que dizia que Marli não era culpada do crime de 15 atrás. Foi levado a um tabelionato em Osório para registrar um  documento em que assumia ter produzido o material espontaneamente.

7 OU 8 DE FEVEREIRO
Os assassinatos (Rolante)
À noite, Valdir Ribeiro de Carvalho, 58 anos, estrangulou Lummertz, com as próprias mãos, pelas costas, na cozinha da casa de Marli, em Rolante. O aposentado foi pego de surpresa ao voltar do banheiro. Depois, ele arrastou o corpo até o pátio, onde já havia uma fogueira dentro da carcaça de uma geladeira, e o depositou dentro. Após, teria ido ao quarto onde Lonia dormia, e também a matou asfixiada, ainda na cama. Os corpos queimaram por 14 horas, segundo Carvalho disse em depoimento.

10 DE MARÇO
As prisões e as provas (Rolante,Santo Antônio da Patrulha e Dom Pedro de Alcântara)
A polícia prende temporariamente três suspeitos de envolvimento no caso. Marli e Carvalho foram detidos na mesma residência onde cometeram os homicídios, em Rolante. No pátio da casa, foram encontradas, enterradas e carbonizadas, peças do Civic que pertencia ao casal. Uma familiar de Marli também foi presa, junto com um dos Palio usado na escolta do sequestro, em um sítio, no interior de Santo Antônio da Patrulha, no Litoral Norte. Dois dias depois, em Dom Pedro de Alcântara, no Litoral Norte, a polícia prendeu o quarto suspeito, com o outro Palio, que estava em um bananal.

14 DE MARÇO
As revelações (Rolante)
Os policiais voltaram à casa junto com Marli e Carvalho para procurar provas e remontar o crime. Restos mortais do casal foram encontrados às margens de uma rodovia, a geladeira carbonizada, no pátio da residência, e o motor Honda Civic ao lado de um córrego.

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