Polêmica no Vale

Declarações de promotora que disse que povo açoriano é "mais condescendente com o crime" repercutem em Taquari

Melissa Juchen deu entrevista a um jornal local após ter pedido transferência para Carlos Barbosa

03/04/2014 | 13h51

"É um problema da comarca de Taquari, no sentido de que o corpo de jurados daqui é condescendente com o crime, por exemplo, acha que em uma tentativa de homicídio, já que não houve a morte, a conduta pode ser perdoada. Isso tem muito a ver com a natureza da cultura."

Frases como essas, ditas pela promotora Melissa Juchen durante uma entrevista ao jornal O Fato Novo, de Taquari, não foram bem aceitas pela comunidade no Vale do Taquari. Moradores se sentiram incomodados, vereadores assinaram uma moção de repúdio e a diretoria local da OAB vai se reunir para avaliar se vai agir no caso.

Melissa deu as declarações há duas semanas, após ter anunciado que estava se transferindo para o Ministério Público (MP) de Carlos Barbosa, na Serra. Ela atou cerca de três anos em Taquari. Na entrevista ao jornal, fez um comparativo:

"Cidades de origem alemã, em que as pessoas são mais rígidas e corretas, as condenações em júris são praticamente 100%. Aqui, que é uma cidade de origem açoriana, em que a população se acostumou a conviver com um cinturão de pobreza, violência e drogas, sendo a comunidade um pouco mais condescendente com determinadas práticas violentas e criminosas."

Melissa ainda apontou que suas percepções são fundamentadas no histórico de trabalho, incluindo outras regiões e suas origens:

"Durante esses 10 anos como promotora, trabalhei em comarcas de diversas etnias, alemã, italiana e portuguesa, reputando que Taquari possui simetria funcional com a comarca de Itaqui, onde iniciei minha carreira. Similar na formatação social, nas demandas e nesta questão dos júris. A absolvição no júri é uma questão social mesmo, de cultura, de pensamento da população."

Manifestando insatisfação com as afirmações da promotora, o vereador Luís Porto (PT) apresentou, na semana passada, uma moção de repúdio à entrevista que foi assinada por seis parlamentares. Na moção, os vereadores alegam que:

"(...) a promotora mostra diversos preconceitos que consideramos inaceitáveis. (...) Quando coloca que em cidades de colonização Alemã as pessoas são mais rígidas e corretas e o faz em comparação com Taquari, de colonização Açoriana, torna este fato pejorativo a nossa comunidade, pois dá ao entender que somos incorretos. Por que seríamos incorretos? Pode-se fazer uma relação direta entre rigidez e correção? (...) Causa-nos estranheza e perplexidade que em pleno ano de 2014 ainda exista, e principalmente por parte de tal autoridade, a ideia que o crime tem a ver com a questão social."

Melissa se recusou a falar com a reportagem sobre as declarações e seu embasamento. Nesta quarta-feira, devido à repercussão do caso, após reunião com o presidente da Associação do Ministério Público (AMP) do Estado, Victor Hugo Palmeiro de Azevedo Neto, a promotora e Azevedo Neto emitiram uma nota de esclarecimento, na qual destacam que:

"(...) nenhuma das opiniões reproduzidas pela reportagem do jornal teve como objetivo ofender ou desqualificar quem quer que seja. Além disto, todas decorrem de observações levadas a efeito durante o período em que atuou na comarca. Basta examinar, para verificar a adequação das opiniões à realidade, o conjunto de processos criminais que, no período, tramitaram e tramitam na Comarca de Taquari".

 
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