Sem milagres

Padre espanhol que se radicou no Brasil, José de Anchieta é canonizado

Após 417 anos de espera, o padre jesuíta foi reconhecido nesta quinta-feira como santo pelo papa Francisco

04/04/2014 | 05h02
Padre espanhol que se radicou no Brasil, José de Anchieta é canonizado Divulgação/Museu Anchieta - Pateo do Collegio
Quadro de Benedito Calixto (1901) reconstitui Anchieta escrevendo na areia versos à Nossa Senhora Foto: Divulgação / Museu Anchieta - Pateo do Collegio

O primeiro santo de 2014 aguarda na fila da canonização desde sua morte, há mais de quatro séculos. Intelectual e missionário, o padre espanhol que se radicou no Brasil Colônia e foi cofundador de São Paulo e do Rio de Janeiro integrou uma congregação que chegou a ser execrada no século 18, a Companhia de Jesus – a ordem do papa Francisco, que nesta quinta-feira o reconheceu santo.

O chamado Apóstolo do Brasil não é lembrado por nenhum milagre em especial. Seu legado está presente no campo missionário e no mundo das ideias. Homem culto e letrado, dominava o latim e outros idiomas e foi o criador da primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi, a Arte de gramática da língua mais usada na Costa do Brasil, impressa em 1595 em Coimbra – edição com apenas sete exemplares remanescentes.

Em sua missão evangelizadora, buscou uma aproximação com os indígenas, adotando uma postura mais amena em relação a seu contemporâneo padre Manuel da Nóbrega, que chegou a considerar a possibilidade de impor a conversão dos gentios pela força.

Um dos cofundadores de São Paulo, foi também quem redigiu a carta que é considerada a certidão de nascimento do Rio de Janeiro. O jesuíta deixou ainda um legado para a literatura colonial brasileira, escrevendo cartas de rico valor literário e poesias em estilo medieval como o Poema à Virgem, além de outros escritos que misturavam traços religiosos e indígenas.

A demora na santificação de Anchieta pode ser atribuída à perseguição sofrida pelos jesuítas no século 18, segundo o teólogo e professor emérito da UFRGS Luiz Osvaldo Leite. De populares e influentes, passaram a ser considerados traidores da Igreja e "politiqueiros". Leite conta que os jesuítas se aproximaram da corte e dos nobres não porque quisessem ter influência política, mas sim missionária. É que, naquela época, vigorava o entendimento de que a religião do povo era a religião dos reis – por isso, os jesuítas atuavam na conversão desse centro de poder, o que ajudaria a converter a população à causa católica.

Esse era o ideal, mas, na prática, não foi o que aconteceu. Somente no Brasil, cerca de mil jesuítas foram expulsos na época em que Marquês de Pombal exercia função-chave no reino de Portugal. Em 1773, a Companhia de Jesus foi extinta pelo papa Clemente XIV e só foi restaurada 41 anos depois.

Mesmo com a restituição da ordem, os jesuítas ainda foram muito hostilizados. Leite conta que no fim do século 19, quando se discutia se eles seriam aceitos novamente no Nordeste, o então presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, teria atuado em favor dos missionários: "Se não tem lugar para eles aí em cima, pode mandá-los aqui para baixo que eu os aceito", teria dito Medeiros, que conhecia o trabalho jesuíta no Ginásio Conceição de São Leopoldo e junto aos colonos alemães.

José de Anchieta foi canonizado sem a comprovação dos dois milagres geralmente necessários para o processo, um para a beatificação e o outro antes de ser considerado santo. Segundo Leite, isso ocorreu em parte porque muito dos testemunhos coletados à época, inclusive alguns que atribuiriam milagres a Anchieta ainda em vida, se perderam durante esse período de supressão da Companhia. No Brasil, pelo menos três milagres atribuídos a Anchieta eram acompanhados pela Igreja Católica, mas a dificuldade em comprová-los levou a uma mudança de estratégia. A alternativa foi investir na amplitude da devoção e provar que Anchieta já tinha seguidores e fiéis, com mais de 50 devotos em cada Estado.

Anchieta é o terceiro santo que tem ligação com o Brasil – os outros dois são Madre Paulina, canonizada em 2002, e Frei Galvão, em 2007. Nesta quinta, além de Anchieta, foram santificados dois beatos nascidos na França e ligados à evangelização do Canadá: D. Francisco de Laval (1623-1708) e irmã Maria da Incarnação (1599-1672).

O papa deve celebrar a missa de canonização em 24 de abril, em Roma. No Brasil, acontecerá em 4 de maio, em Aparecida (SP).

São José de Anchieta

Padre espanhol que se dedicou aos índios, às letras e ao ensino veio ao Brasil em busca do clima ameno

Por que América Latina

Nascido em 19 de março de 1534 em Tenerife (Ilhas Canárias, Espanha), ingressou aos 17 anos na Cia. de Jesus, congregação religiosa fundada no século 16 e responsável pelo processo de evangelização na América Latina. Estudou cinco anos no Colégio das Artes em Coimbra. Há teorias que sustentam que deixou a Espanha pela origem judaica da sua avó materna, que dificultaria os estudos na Espanha. Acometido de tuberculose óssea, que o deixou corcunda, chegou ao Brasil aos 19 anos em busca do clima ameno com outros seis jesuítas.

O conciliador

Em 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos Tamoios rebelou-se contra os tupiniquins, que recebiam suporte dos portugueses. Viajou à aldeia de Iperoig (hoje Ubatuba, em São Paulo) ao lado do padre Manuel da Nóbrega, chefe da primeira missão jesuítica, para conter a revolta e se ofereceu como refém nas negociações. No cativeiro, que durou cinco meses, prometeu dedicar um poema a Nossa Senhora se saísse casto. O Poema à Virgem, com 4 mil versos, foi escrito na areia, como retrata o quadro de 1901 de Benedito Calixto.

As obras

Aprendeu a língua nativa (o tupi) e, com a ajuda de curumins (crianças índias) que exerciam o papel de tradutores, escreveu o livro Artes de grammatica da lingoa mais usada na Costa do Brasil, que ajudava outros religiosos a entender a língua indígena durante o processo de catequização do Brasil Colônia. Produziu uma extensa obra que incluiu poesias, sermões, cartas, peças teatrais religiosas.

Fundação de São Paulo

Em janeiro de 1554, participou da missa de inauguração do Colégio de São Paulo de Piratininga, hoje o Pateo do Collegio, local que deu origem à cidade de São Paulo e que foi transformado em museu. Em 1565, participou, ao lado de Estácio de Sá, da fundação da cidade do Rio de Janeiro e, nesse ano, foi ordenado sacerdote em Salvador. Foi o autor de uma espécie de certidão de nascimento do Rio de Janeiro, quando redigiu sua carta de 9 de Julho de 1565 ao padre Diogo Mirão.

Longa canonização

O processo tem início logo depois de sua morte, em 1567, e para em 1634, depois que dom Urbano afirma que é preciso esperar 50 anos. Os documentos voltam a ser analisados e ele recebe o título de Servo de Deus em 1652. O processo parou por falta de dinheiro em 1668 e voltou a ser analisado em 1702. Em 1773, o processo para depois da suspensão da Companhia de Jesus pelo Papa e só é retomado após 1883, quando a companhia é restabelecida pela Igreja. Em 1980, é beatificado pelo papa João Paulo II.

Conheça São José de Anchieta

Padre espanhol que se dedicou aos índios, às letras e ao ensino veio ao Brasil em busca do clima ameno

Por que América Latina
Nascido em 19 de março de 1534 em Tenerife (Ilhas Canárias, Espanha), ingressou aos 17 anos na Cia. de Jesus, congregação religiosa fundada no século 16 e responsável pelo processo de evangelização na América Latina. Estudou cinco anos no Colégio das Artes em Coimbra. Há teorias que sustentam que deixou a Espanha pela origem judaica da sua avó materna, que dificultaria os estudos na Espanha. Acometido de tuberculose óssea, que o deixou corcunda, chegou ao Brasil aos 19 anos em busca do clima ameno com outros seis jesuítas.

O conciliador
Em 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos Tamoios rebelou-se contra os tupiniquins, que recebiam suporte dos portugueses. Viajou à aldeia de Iperoig (hoje Ubatuba, em São Paulo) ao lado do padre Manuel da Nóbrega, chefe da primeira missão jesuítica, para conter a revolta e se ofereceu como refém nas negociações. No cativeiro, que durou cinco meses, prometeu dedicar um poema a Nossa Senhora se saísse casto. O Poema à Virgem, com 4 mil versos, foi escrito na areia, como retrata o quadro de 1901 de Benedito Calixto.

As obras
Aprendeu a língua nativa (o tupi) e, com a ajuda de curumins (crianças índias) que exerciam o papel de tradutores, escreveu o livro Artes de grammatica da lingoa mais usada na Costa do Brasil, que ajudava outros religiosos a entender a língua indígena durante o processo de catequização do Brasil Colônia. Produziu uma extensa obra que incluiu poesias, sermões, cartas, peças teatrais religiosas.

Fundação de São Paulo
Em janeiro de 1554, participou da missa de inauguração do Colégio de São Paulo de Piratininga, hoje o Pateo do Collegio, local que deu origem à cidade de São Paulo e que foi transformado em museu. Em 1565, participou, ao lado de Estácio de Sá, da fundação da cidade do Rio de Janeiro e, nesse ano, foi ordenado sacerdote em Salvador. Foi o autor de uma espécie de certidão de nascimento do Rio de Janeiro, quando redigiu sua carta de 9 de Julho de 1565 ao padre Diogo Mirão.

Longa canonização
O processo tem início logo depois de sua morte, em 1567, e para em 1634, depois que dom Urbano afirma que é preciso esperar 50 anos. Os documentos voltam a ser analisados e ele recebe o título de Servo de Deus em 1652. O processo parou por falta de dinheiro em 1668 e voltou a ser analisado em 1702. Em 1773, o processo para depois da suspensão da Companhia de Jesus pelo Papa e só é retomado após 1883, quando a companhia é restabelecida pela Igreja. Em 1980, é beatificado pelo papa João Paulo II.

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