Caso Bernardo

Psicóloga que trabalhou na tragédia da boate Kiss ajudará famílias de Três Passos

Fabiane Ângelo foi chamada para orientar os professores na retomada das aulas

Por: Maurício Tonetto, de Três Passos
21/04/2014 - 12h39min | Atualizada em 21/04/2014 - 14h29min
Psicóloga que trabalhou na tragédia da boate Kiss ajudará famílias de Três Passos Carlos Macedo/Agencia RBS
Na manhã desta segunda-feira, a psicóloga esteve no Colégio Ipiranga, em Três Passos Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS  

O luto coletivo que atinge Três Passos preocupa a direção do Colégio Ipiranga, onde Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, estudava.

Por isso, a psicóloga Fabiane Ângelo — que trabalhou com as famílias das 242 vítimas do incêndio da boate Kiss em janeiro de 2013 — foi chamada para orientar os professores na retomada das aulas, marcada para as 7h30min da próxima terça-feira, dia 22.

São 400 alunos na escola e milhares de familiares ligados emocionalmente com o assassinato de Bernardo, cujas suspeitas recaem sobre o pai (Leandro Boldrini), a madrasta (Graciele Ugulini) e uma assistente social (Edelvania Wirganovicz). Os três seguem presos.

Leia mais:
Padre celebra missa em homenagem a Bernando em Três Passos
Mãe de Leandro Boldrini diz que o filho "não merece" estar preso
"Hoje sumir com corpo é muito fácil", disse pai de Bernardo
Cotidiano de omissões, carência e frieza culminou no assassinato
Bernardo acreditou que seria levado a consulta com benzedeira, relata Edelvânia

— A ideia é que se fale sobre morte, sim. Mesmo que seja uma morte precoce, uma vida abreviada, é morte. A semelhança (com Santa Maria) é que envolve o luto público. São duas cidades atingidas por um evento trágico, em que a comunidade está envolvida, e isso precisa ser cuidado e olhado. Os rituais são importantes agora, foi necessário parar as atividades, dar o tempo às pessoas refletirem nas suas casas e as crianças se vincularem às suas famílias. O momento é de fortalecer as virtudes humanas — diz Fabiane.

Reunidos em uma sala do Colégio Ipiranga, todos os professores desabafaram com a psicóloga, expuseram seus sentimentos e buscaram fortalecer os vínculos para encarar dias difíceis, em que o assunto Bernardo tomará conta e não poderá ser evitado. Na entrada da escola, por exemplo, há diversos cartazes colados e mensagens de despedida e saudade, como os seguintes: "Mais uma estrelinha que brilha no céu"; "Volta Bê! Estamos contigo! Queremos você aqui! Te esperamos de portas abertas!"; "Bernardo, vamos lutar para você ser batizado santo das crianças"; "Quando a luz de um olhar se apaga, uma estrela no céu se acende". Na noite do domingo de Páscoa, durante uma missa realizada na Igreja da Matriz com homenagem especial a Bernardo, muitas crianças e adolescentes do colégio estiveram presentes e choraram a perda do amigo.

— Teremos um momento para as crianças e os jovens falarem o que estão sentindo também. Provavelmente, a turma do Bernardo (composta de 21 alunos, sem ele) receberá uma atenção especial, que ainda não definimos. Cada família tem suas crenças e poderá dar os encaminhamentos da forma que achar conveniente, mas sob o ponto de vista da Psicologia, a morte é incluída no nosso ciclo de vida e precisa ser aceita — explica Fabiane Ângelo.

Emocionado, o diretor do Colégio Ipiranga, Nelson Antônio Gabriel Weber, diz ter procurado a psicóloga porque ela apresenta um equilíbrio emocional acima da média. Isso foi demonstrado, segundo ele, nos delicados dias posteriores a tragédia na Boate Kiss, e a esperança de Nelson é que a experiência traga serenidade à cidade de Três Passos:

— Ela é uma pessoa gabaritada no assunto, demonstra equilíbrio. O colégio, tendo passado por esse momento de muita angústia e dor, onde nosso coração foi partido e nossos sentimentos fortemente machucados, busca esse equilíbrio. A situação pode ser a mais diversa possível e estamos nos preparando para trabalhar esses alunos. O Bernardo era muito sorridente, alegre, um momento que realmente deixou profundas lembranças, e elas não se apagarão.

Relembre o caso 

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugolini, 32 anos, para comprar uma TV.

De volta a Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.

Na noite de segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de Linha São Francisco, interior do município.

Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade. No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini — que tem uma clínica particular em Três Passos e atua no hospital do município —, a madrasta e uma terceira pessoa, identificada como Edelvania Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a identificação do corpo. O casal aparentava uma vida dupla, segundo relatos de amigos e vizinhos.

VÍDEO: homenagem a Bernardo reúne mil pessoas em Três Passos

 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.