Organização criminosa

Quadrilhas italianas expandem domínio na Europa

Máfia tira proveito da dificuldade econômica vivida pela região

Por: Jim Yardley
12/05/2014 - 00h52min
Quadrilhas italianas expandem domínio na Europa  Gianni Cipriano/The New York Times
Restaurante era usado como fachada para prática de lavagem de dinheiro Foto: Gianni Cipriano / The New York Times  

Os pequenos comércios estavam espalhados por toda capital italiana: um restaurante localizado a algumas quadras do Senado, uma lanchonete situada no entorno do sofisticado distrito diplomático, uma sorveteria perto do Panteão. Havia até mesmo um hotel não muito distante do topo do monte da estátua de Giuseppe Garibaldi, o herói da unificação italiana.

Numa cidade onde o governo e o turismo são os principais motores da economia, esse comércio parecia típico até uma operação policial os expor como frentes para a lavagem de dinheiro das organizações mafiosas sediadas no sul da Itália. Somente em janeiro e fevereiro, a polícia italiana apreendeu em Roma 51 milhões de euros em propriedades e outros bens da máfia, o que nos dá uma pequena ideia do leque de negócios lícitos que os clãs do sul comandam na capital.

A operação em Roma expôs apenas uma minúscula parte do que os policiais descrevem como a economia do crime, que rapidamente se expandiu por toda a Europa. Num período de austeridade, com a Itália afogada em dívidas e lutando pela recuperação econômica, os grupos do crime organizado estão nadando em rios de dinheiro.

Eles aproveitaram a crise econômica para acelerar a infiltração nos negócios legítimos fora das suas fortalezas no sul da Itália, e agora controlam atividades comerciais em Roma e Milão, assim como na França, na Alemanha, nos Países Baixos, na Escócia, na Espanha e além.

— Nos últimos 20 anos, eles tiveram muita liquidez. Isso é um problema hoje. Eles têm dinheiro demais e não conseguem investir tudo. É o oposto do que ocorre com os empresários comuns, declarou Michele Prestipino, o promotor público que supervisionou a recente operação e as apreensões em Roma.

Se a Europa achava que as famílias do crime organizado eram um problema italiano – e se muitos italianos achavam que o problema fosse relacionado, predominantemente, ao sul do país – a expansão dos bens do crime organizado por todo o continente está forçando uma reavaliação. Em fevereiro, o Parlamento Europeu criou uma nova portaria que facilita o confisco de bens dos criminosos, em resposta à evidência de que o crime organizado havia adquirido propriedades e empresas por toda a Europa.

Os especialistas afirmam que a Europa precisa criar leis rígidas contra o crime organizado, como as já existentes na Itália, e expandir os esforços no sentido do cumprimento da lei. Alguns dizem que a mesma ênfase utilizada no combate contra o terrorismo precisa ser empregada no combate ao crime organizado. Além do crime organizado italiano, os especialistas afirmam que outras organizações criminosas, inclusive as da Albânia, da China e da Rússia, também estão migrando para os setores de negócios lícitos na Europa.

— As democracias subestimam a luta contra a máfia. As máfias se tornaram mundiais. Elas fazem negócios e lavam dinheiro internacionalmente. Porém, as agências anti-máfia são nacionais e regionais, disse Giuseppe Lumia, senador e membro da Comissão Anti-Máfia Italiana.

Determinar o valor que as organizações mafiosas italianas movimentam com atividades ilícitas em um único ano é extremamente difícil, com estimativas variando amplamente entre cerca de 14 bilhões até 305 bilhões de dólares. Uma das maiores associações comerciais da Itália, a Confesercenti, estima que as contas do crime organizado sejam responsáveis por aproximadamente 180 bilhões de dólares de movimentação anual – cerca de sete por cento do PIB italiano. A Confesercenti também estimou que esses grupos tenham cerca de 90 bilhões de dólares em reservas orçamentárias.

— Eles têm somas inacreditáveis de dinheiro. Em algumas investigações, as quantias eram tão consideráveis que, em vez de contar o dinheiro, a polícia utilizou uma balança para pesá-lo, afirmou David Ellero, especialista no crime organizado italiano da Europol, a agência policial da Europa.

Acredita-se que a família mais rica do crime organizado seja a 'Ndrangheta, um grupo da região da Calábria que controla a maioria do tráfico de cocaína da Europa. Segundo os analistas, a 'Ndrangheta atua na Grã-Bretanha, França, Alemanha, Espanha e Suíça. As outras duas principais organizações são a Camorra, clãs sediados na região de Nápoles - que são especialmente poderosos no sul da Espanha - e a Cosa Nostra, as famílias mafiosas da Sicília retratadas no filme "O Poderoso Chefão", que operam em toda a Europa.

Em suas regiões de origem, os grupos do crime organizado na Itália quase sempre operam como estados paralelos, infiltrando-se na polícia regional e controlando o território através da intimidação e da violência. Os analistas dizem que esse domínio regional explica por que as organizações estão profundamente envolvidas nos setores como construção civil, mineração, gestão de resíduos e transporte, onde sua influência política lhes permite direcionar os contratos do governo às suas empresas prediletas.

No norte da Itália e em outros países europeus, as organizações da máfia operam bem menos conspicuamente, de acordo com os analistas, especialmente porque não têm o mesmo nível de influência política ou territorial. No entanto, um relatório apresentado recentemente aos funcionários da União Europeia concluiu que as ramificações da máfia se estendiam a praticamente todos os setores: hotéis, casas noturnas, o setor imobiliário, jogos de azar, postos de gasolina, roupas e joias no atacado, processamento de alimentos, o setor de saúde, energia renovável e mais.

— Eles têm predileções específicas por certos setores. Esses são os setores aparentemente mais vulneráveis e onde as regulamentações são mais ausentes, disse Michele Riccardi, um pesquisador do Transcrime, o instituto de pesquisa em Milão que compilou o relatório apresentado a União Europeia.

A Itália tem um dos estatutos anti-máfia mais rígidos da Europa, o que explica a fuga de muitas organizações criminosas para outros países europeus. A Alemanha se tornou um caso especialmente expressivo.

Embora a Alemanha e outros países da União Europeia tenham negado a existência do problema, a conscientização começou a aumentar. Em fevereiro, autoridades italianas e alemãs realizaram uma operação conjunta contra a Cosa Nostra e prenderam, nos dois países, mais de doze suspeitos acusados de roubarem milhões de dólares de subsídios agrícolas da União Europeia. Esse mês, policiais italianos e franceses colaboraram na prisão de um chefe da Camorra em Nice, França.

Dois anos atrás, a União Europeia criou uma comissão de combate à máfia, embora a Europol tenha admitido em 2011 que a instituição tinha uma lacuna de informações sobre as atividades da máfia. Ela encomendou uma pesquisa geral, divulgada no ano passado, que constatou que os grupos criminosos eram uma ameaça, particularmente, para os setores comerciais lícitos porque os criminosos podiam se dar ao luxo de operar 'com prejuízo', criando, em longo prazo, a situação de quase monopólio que enfraquece os princípios básicos do livre mercado.

Contudo, mesmo dentro da Itália, muitas pessoas continuam considerando o crime organizado como um problema do sul do país.

Quando o escritor Roberto Saviano, conhecido pelo seu trabalho expondo as atividades do crime organizado, usou um programa televisivo de 2010 para falar sobre a infiltração da máfia no norte, o jornal sediado em Milão, Il Giornale respondeu com um abaixo assinado online contra ele com o título, "Prezado Saviano, o norte não é mafioso".

— As organizações criminosas estão todas em Roma e no Norte. No sul, a presença delas é como uma presença militar. Em Roma, e no norte, é econômica, declarou Saviano em uma entrevista recente.

Os grupos criminosos há muito são uma presença silenciosa em Roma, onde os lojistas dizem ter que pagar extorsões, conhecidas como "pizzo", porém, a operação policial recente mostrou que os grupos do crime organizado agora estão investindo diretamente no comércio da cidade. Um dos 23 restaurantes e pizzarias confiscados em janeiro foi a Pizza Ciro, que faz parte da rede mais popular de pizzarias da cidade.

— A questão não é dinheiro no caixa no fim do dia. Trata-se de lavagem de dinheiro, disse Enrico Fontana, diretor da Libera, um grupo representativo das associações italianas de combate à máfia.

Prestipino, o promotor público, concordou que a lavagem de dinheiro tinha importância, mas acrescentou que os chefes do crime também estão procurando jeitos de criar canais de acesso aos líderes políticos. Segundo ele, nenhum político pode se encontrar diretamente com um chefe do crime organizado. Contudo, ao investir em negócios, os grupos do crime organizado conseguem criar uma rede de empresários em Roma que podem negociar abertamente com os políticos e com os funcionários públicos.

— É um sistema com múltiplas vantagens. O homem de negócios ganha as vantagens econômicas. O mafioso não tem de ir a Roma. E o político não tem de sujar as mãos, Prestipino disse.
 
 
 
 
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