Chile

Valparaíso tenta se reerguer após incêndio

Moradores, familiares e voluntários trabalham para reconstruir lares destruídos pelo fogo que deixou 15 mortos

06/05/2014 - 18h26min
Valparaíso tenta se reerguer após incêndio Rafaela Ely/Agencia RBS
Moradores que perderam as casas estão abrigados em barracas em seus terrenos Foto: Rafaela Ely / Agencia RBS  

O incêndio na cidade chilena de Valparaíso que começou na tarde de sábado, 12 de abril, atingiu a parte mais alta de cinco de seus 42 morros. A maior parte da população que vive ali tem poucos recursos e luta agora para recomeçar sua vida.

Moradores mostram seu apoio às vítimas do fogo com a mensagem "Fuerza Valpo" pintada nos vidros traseiros dos carros. Nos morros incendiados, o cenário parece de guerra. Forças da Armada, da Marinha, do Exército e da polícia estão presentes para ajudar e para manter a segurança.

A mensagem "Fuerza Valpo" foi escrita nos vidros traseiros dos carros. Foto: Rafaela Ely/Agência RBS

— Parece que uma bomba caiu aqui. Isso é pior que um terremoto, nunca vi tanta destruição — relata o Coordenador Acadêmico do Corpo de Bombeiros da Região de Valparaíso, Héctor Rauld, que trabalhou no combate ao fogo e na evacuação dos moradores durante os três dias de incêndio.

— Nos sentíamos pequenos, não havia nada que pudéssemos fazer para apagar as chamas, pois a carga de combustível era muito grande. Tiramos o máximo de pessoas possível, mas algumas se negavam a sair. Passamos por um homem que tentava apagar o fogo na sua casa com um balde e se recusava a sair porque seu pai não podia se mover. No fim, eles foram encontrados mortos, deitados na cama e abraçados um ao outro — recorda.

Quinze pessoas morreram durante o incêndio e cerca de 2,9 mil casas foram destruídas. Agora, bandeiras do Chile em mastros marcam o território de cada família. Onde antes estavam casas, agora estão barracas e "casitas de emergência" feitas de madeira. Uma dessas barracas abriga o carpinteiro Luis Ramírez, de 55 anos. A casa em que ele vivia com sua esposa e seu filho mais novo, de 19 anos, foi completamente destruída pelo fogo.

Ramírez foi um dos primeiros moradores daquela área do Cerro La Cruz. O imóvel, construído há 15 anos, tinha dois andares, três quartos, banheiro, sala, cozinha, água, luz e internet. Disso, nada ficou. Agora ele dorme dentro da barraca que lhe foi dada, onde cabe somente um colchão pequeno. As doações que recebeu ficam guardadas em sacolas plásticas espalhadas pelo terreno.

— Durante o incêndio, pensava na historia da minha família, que foi perdida. Todas nossas fotografias viraram cinzas — lamenta.

Luis Ramíres era o dono de uma das 2,9 mil casas destruídas pelo incêndio. Foto: Rafaela Ely/Agência RBS

Na primeira semana após o incêndio, Ramírez ficou em um dos albergues criados para acolher as vítimas. Sua mulher e seu filho foram para a casa de familiares. Ele voltou para sua propriedade em seguida, para tentar reconstruir o imóvel.

— Tenho que começar de novo. Vai ser difícil, mas tomara que consiga fazer uma casa ainda melhor — torce.

Para ajudar nesse novo início das famílias que perderam tudo, milhares de voluntários participam de um mutirão de solidariedade. Algumas instituições de ensino cancelaram as aulas na semana seguinte ao incêndio para que os alunos pudessem auxiliar as comunidades afetadas. Na Universidad Técnica Federico Santa Maria (UTFSM), são cerca de mil acadêmicos que trabalham diariamente no apoio às famílias atingidas.

O presidente da Federação de Estudantes da UTFSM, Jorge Maldonado, 24 anos, estudante de engenharia civil informática, explica que a universidade suspendeu as aulas também na semana retrasada após a campanha do "Paro Solidário", promovida pelos alunos, para que se pudesse seguir com o apoio às vítimas do fogo.

— Precisávamos de mais tempo para fazer esse trabalho mais urgente, de remoção dos escombros, reconstrução das moradias, arrecadação e distribuição de donativos — conta.

O secretário acadêmico da Federação, Harold Diaz, estudante de engenharia civil, 24 anos,ressalta que os alunos vao seguir auxiliando a população no longo prazo.

— Voltamos às aulas na semana passada, mas continuaremos ajudando a comunidade, pois ja criamos um vínculo com eles — afirma.

Alunos da UTFSM trabalham voluntariamente para ajudar as vítimas. Foto: Rafaela Ely/Agência RBS

A Federação de Estudantes da UTFSM faz um trabalho autônomo e focado no Cerro La Cruz. Eles começaram o voluntariado já na primeira noite do incêndio, mobilizando-se para conseguir doações.

— Percebemos que os centros de apoio para onde íam os donativos estavam muito cheios e não faziam a distribuição adequada. Decidimos entregar os produtos diretamente às famílias — relata Maldonado.

Agora, as doações recebidas são organizadas em caixas com material de higiene, alimentos, água e outros ítens. Cerca de 50 desses kits são entregues a cada dia para as famílias cadastradas.

— Esse é um trabalho cansativo, estamos aqui da manha até a noite, mas vale a pena. Nossa recompensa é a gratidao das pessoas por cada pequeno gesto que fazemos — diz a secretária de bem-estar estudantil da Federação, Mariana Millan, 24anos, estudante de engenharia elétrica.

A solidariedade dos universitários tocou a Rauld, que também é voluntário, como todos que trabalham como bombeiros no Chile.

— Fiquei emocionado ao ver a massa de jovens subindo os morros para ajudar. Me orgulhei da juventude chilena — celebra.

 Bombeiro Hector Rauld mostra os estragos causados pelo incêndio. Foto: Rafaela Ely/Agência RBS

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