Latrocínios em 24h

Mortes em assaltos alertam para o risco da reação

Casos aconteceram em Porto Alegre, Novo Hamburgo e Gravataí

21/06/2014 - 06h01min
Mortes em assaltos alertam para o risco da reação Charles Dias/Especial
Familiares de empresário morto ao tentar defender a família e moradores de Novo Hamburgo protestaram contra a violência Foto: Charles Dias / Especial  

Em apenas 24 horas, três pessoas foram mortas ao enfrentar assaltantes para defender a família ou o patrimônio no Rio Grande do Sul. Os casos de latrocínio (roubo com morte) registrados nesta semana em Novo Hamburgo, Gravataí e Porto Alegre mostram a importância de se reforçar um mantra da polícia e de especialistas em segurança: não se deve reagir à investida de bandidos.

Em dois casos ocorridos quase no mesmo horário, mas em cidades diferentes, a ação de homens que testemunharam familiares sendo abordados por bandidos foi fatal. No município do Vale do Sinos, o empresário Gabriel da Silva Rodrigues, 32 anos, percebeu quando três ladrões desceram de um carro e um deles, Ronaldo da Rosa Moreira, 20 anos, aproximou-se da mulher e da filha, na garagem de casa.

— O Gabriel veio em defesa da mulher, e o cão (da família) avançou na mão do Ronaldo. Só que o Ronaldo entrou em luta com o Gabriel e deu cinco disparos — descreve o delegado Nauro Osório Marques, titular da 1ª Delegacia da Polícia Civil de Novo Hamburgo.

Com uma ficha criminal que inclui passagens por homicídio e condenação por roubo, o assaltante, que estava foragido do sistema semiaberto, deixou o empresário em desvantagem durante a luta e a disputa pela arma. O disparo contra o empresário foi fatal.

— Mesmo sendo uma pessoa jovem, ele (Gabriel) não tinha condições de reagir, pois o marginal já estava armado e acostumado a manusear o revólver. Para a pessoa que vive o drama é difícil raciocinar, mas é preciso lembrar que o bandido queria levar o carro e algum objeto e isso tudo a família recuperaria — reforça o delegado.

Na tarde de sexta-feira, cerca de 300 pessoas se reuniram em frente ao Fórum de Novo Hamburgo para pedir paz no município, mobilização decorrente da morte, na segunda-feira. O protesto teve como foco o pedido de suspensão das saídas dos detentos do semiaberto e o fechamento do presídio na cidade.

Responsável por investigar um dos recentes latrocínios registrados na Capital, o delegado Herbert Ferreira, titular da 4ª Delegacia da Polícia Civil, diz que a orientação principal em assaltos é não reagir e avisar a polícia. No entanto, mais importante do que procurar o telefone para discar o número da Brigada Militar (190) e pedir socorro, é prestar atenção nas características dos assaltantes, alerta Gustavo Caleffi, especialista em gestão de riscos.

— No momento em que se presencia um assalto, avisar a polícia é muito difícil, porque tudo ocorre em uma fração de segundos. Sugiro que, mesmo que a pessoa esteja sendo levada, tente identificar a situação e as pessoas para tentar passar para a polícia em uma busca — orienta.

Ele comenta que o latrocínio é um crime totalmente imprevisível e que a maioria das mortes são acidentais e não intencionais, pois o objetivo do bandido é roubar pertences e bens, como veículos.

Fins trágicos em 24 horas

Novo Hamburgo, 19h de segunda-feira 

O empresário Gabriel da Silva Rodrigues, 32 anos, tentou defender a mulher de um assalto e foi morto. O assaltante rendeu a mulher e a filha caçula do casal no momento em que elas entravam de carro na garagem de casa. O empresário estava em casa com o outro filho e a empregada, e saiu ao perceber a situação. Atacado pelo cachorro da família, o assaltante Ronaldo da Rosa Moreira, 20 anos, deixou cair a arma e Rodrigues pegou. Ele reagiu desferindo uma coronhada e um tiro na mão de Moreira, mas o bandido pegou a arma de volta e disparou cinco tiros no empresário. O criminoso era foragido do regime semiaberto e foi levado ao hospital. Outros três bandidos teriam participado da ação e fugido ao verem a briga do empresário com o comparsa. Conforme o delegado Nauro Osório Marques, a investigação busca confirmar a identidade deles.

Gravataí, 20h10min de segunda-feira 

Ao perceber que o filho seria roubado por três criminosos, no momento em que parava o carro na frente de casa, na Rua Dante Alighieri, Antônio Ferreira de Lima, 53 anos, jogou-se contra os bandidos. Houve luta corporal, e Lima foi atingido por um tiro no peito. De acordo com o delegado Endrigo Veiga, os três criminosos fugiram sem levar nada e ainda não foram identificados.

Porto Alegre, 18h de terça-feira

O microempresário Adão da Rosa Padilha, 56 anos, dono de um bar na Capital, foi morto depois de reagir ao assalto a seu estabelecimento, na Zona Norte. Durante a troca de tiros, Padilha acertou um disparo na testa de um dos três bandidos e foi também atingido. Um dos assaltantes morreu, outro ficou gravemente ferido e o terceiro, um adolescente, já foi identificado pela polícia, conforme o delegado Herbet Ferreira.

Como prevenir assaltos

- Na rua: evite caminhar sozinho em lugares desertos e sem iluminação e procure não sair com joias ou objetos que possam chamar a atenção do assaltante. Carregue sempre a bolsa voltada para frente e, ao retornar para casa, observe se há alguma movimentação suspeita nas proximidades.

- No carro: mantenha os vidros fechados quando sair à noite ou parar em algum sinal. Não estacione em lugares desertos ou com pouca iluminação, prefira estacionamentos vigiados. Nunca deixe documentos, talões de cheque, cartões de crédito, dentro do carro. Mesmo que seja uma parada rápida, sempre feche o veículo ao estacionar.

- Em bancos e caixas eletrônicos: quando precisar de ajuda, dirija-se somente ao funcionário do banco. Em caso de saque, procure estar sempre acompanhado e coloque o dinheiro em vários bolsos. Evite abrir carteiras ou bolsas na frente de todo mundo e certifique-se de que não está sendo seguido ao entrar na agência.

Como agir se for assaltado

- Mantenha-se calmo e fale mansamente: cabe à vítima amenizar a tensão da ação. Quanto mais calma estiver, mais terá condições de controlar a situação. O ladrão sempre está mais nervoso que a própria vítima, porque sabe que pode ser preso e até mesmo morrer. Ele tem medo de uma reação da vítima, de outra pessoa ou da chegada da polícia.

- Obedeça as ordens do ladrão e encurte o tempo do crime: quando se atende as ordens do criminoso, automaticamente se encurta o tempo do crime. Se começar a negociar a carteira, o computador por causa dos dados que tem dentro, prolonga-se o período em companhia do ladrão.

- Peça autorização para realizar qualquer movimento: se vai destravar o cinto, pegar a carteira, mexer na bolsa, por exemplo, pode dar a entender que está reagindo. Procure mostrar as mãos e comunicar ao ladrão o que vai fazer.

- Carregue mais dinheiro e menos cartões. Em um assalto, os criminosos querem dinheiro. Se você tiver apenas cartões de crédito tem grande chances de ser vítima de um sequestro-relâmpago. Se você tiver mais dinheiro e menos cartão, a tendência é que ele libere a vítima rapidamente.

Fontes: Carlos Alberto Portolan, consultor em segurança, e Jorge Lordello, especialista em segurança pública e privada

ENTREVISTA: Jorge Lordello, especialista em segurança pública e privada

Formado em Direito e delegado no Estado de São Paulo por mais de duas décadas, Jorge Lordello, também conhecido como "Dr. Segurança", publica em livros e ensina em palestras como se prevenir de assaltos e a importância de não reagir.

Em diferentes oportunidades, as pessoas tomam conhecimento de que não devem reagir a assaltos. Por que mesmo assim a atitude ocorre?

Para você convencer alguém a mudar um hábito, tem que trazer estatística e mais informação do que dizer simplesmente "não reaja". Lancei meu primeiro livro em 1999, chamado Como conviver com a violência, três anos antes desse livro, fiz uma pesquisa criminal intensa para entender a cabeça de vítimas e de marginais. Um dos meus focos foi a reação. Se você pegar os números de assaltos ocorridos, registrados ou não, e verificar o percentual de morte, vai ver que ele é muito pequeno, em torno de 0,08%. Ou seja, uma ínfima parcela das pessoas assaltadas são mortas. Isso mostra que o assaltante não quer matar, ele quer o bem material de alguém.

E por que acaba matando?

Há algumas questões que influenciam esse resultado. Primeiro, a vítima reage. Ou seja, 90% das pessoas que reagirem ao assalto à mão armada acabam levando um tiro, se vai morrer ou não é uma questão de destino ou sorte. O primeiro erro é da pessoa que quer reagir ao assaltante armado ou desarmado, porque às vezes é o comparsa que está dando cobertura que está armado. Segundo, são as vítimas que tentam fugir do crime. Por exemplo, o motociclista ou o motorista do carro que acelera para fugir do assalto, ou o pedestre que quer correr. Nesses casos, há uma tendência de o marginal fazer um disparo contra a vítima. Terceira questão: a vítima que realiza um movimento brusco e dá uma impressão ao marginal de que está reagindo. São posturas das vítimas que consideramos inadequadas durante um assalto. Há ainda, na pequena parcela de casos de morte, aquele marginal que não tem habilidade com arma de fogo e, sem intenção, faz o disparo da arma de fogo ou se sentem irritados com a vítima e acabam matando-a, que a menor das porcentagens.

A reação ao ser assaltado seria um instinto da pessoa de proteger o patrimônio e ou as pessoas?

Tem muita gente que está com o carro ou moto financiado, sem seguro, e que na hora do assalto pensa no patrimônio e não na vida. Ela só vê o dinheiro, não vê a integridade física. Tem também quem vê o parente sendo assaltado e quer defendê-lo. Só que a pessoa não entende que está colocando em risco muito maior os parentes e a própria vida.

Os latrocínios no Estado

- Conforme a Secretaria da Segurança Pública (SSP-RS), o Estadoregistrou 26 latrocínios no primeiro trimestre deste ano. No mesmo período do ano passado, foram 40 casos — seis deles envolvendo a morte em série de taxistas na Capital e na Fronteira Oeste.

- Em 2014, o Rio Grande do Sul viveu a maior onda de roubos com morte para fevereiro, desde 1999. Foram pelo menos 15 casos noticiados, mas a SSP-RS contabilizou 12 deles.