Atendimento à saúde

Como está o programa Mais Médicos no RS um ano depois

Doze meses depois da criação de programa do governo federal, ZH retoma histórias retratadas ao longo do período para mostrar o cenário atual

Atualizada em 26/07/2014 | 23h5826/07/2014 | 13h01
Como está o programa Mais Médicos no RS um ano depois Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
As mãos do dominicano Carlos Sena: a cada consulta, uma conversa sobre obstáculos na comunicação Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Desde que o governo federal instituiu o Mais Médicos, em julho do ano passado, 1.081 profissionais começaram a atender em postos de saúde do Estado – 14 mil em todo o país. Eles assumiram vagas em municípios do Interior e na periferia das grandes cidades, locais carentes de clínicos dispostos a encarar a missão sem a estrutura adequada.

Mesmo decorrido um ano da criação, o programa segue alvo de controvérsias, tanto que já entrou na campanha eleitoral. Recentemente, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, afirmou que não irá “aceitar as regras do governo cubano”, nação fornecedora da maior parte dos estrangeiros do projeto. Candidata à reeleição, a presidente Dilma Rousseff (PT) disse que o adversário é contrário ao Mais Médicos.

O tucano ecoou o discurso de entidades da classe médica brasileira. Uma das maiores críticas da categoria é a dispensa do Revalida, prova obrigatória para liberar o exercício da profissão aos formados no Exterior. Para as associações, a falta do exame coloca em risco a qualidade do atendimento.

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Associações contestam, prefeituras comemoram

– Não sabemos quantos são e se de fato são médicos, e até hoje não recebemos a resposta de todos os erros médicos que encaminhamos ao Ministério Público e ao Ministério da Saúde (30 casos) – diz Fernando Weber de Matos, presidente do Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers).

Presidente do Sindicato Médico do Estado (Simers), Paulo de Argollo Mendes completa:

– O programa não fez nenhuma diferença. As emergências continuam lotadas, faltam leitos.

Nos postos, a percepção é de que os moradores aprovaram a chegada dos estrangeiros. Nas prefeituras, a comemoração é por terem conseguido profissionais dispostos a trabalhar 40 horas semanais.

– Houve um volume expressivo de consultas e também uma diminuição no número de internações – avalia o médico e professor da UFRGS Alcindo Ferla.

Apesar de o RS ter pedido 1.323 profissionais, recebeu 1.081 (81%). Representante do Ministério da Saúde, Heider Pinto diz que há razões para o número inferior. Pedidos foram negados se as cidades solicitaram mais médicos do que a quantidade de postos, se o número de equipes era considerado suficiente ou se o intercambista iria substituir um médico contratado.

Em Porto Alegre, dos 123 integrantes do programa, somente sete são brasileiros – número quase igual ao de dominicanos, que somam seis. Um deles é Carlos Manuel Torres Sena, que pega ônibus e caminha um trecho lomba acima para chegar ao posto no bairro Nonoai, onde recebe pacientes de consultas pré-marcadas e de seis fichas liberadas diariamente. No consultório, costuma dizer:

– Bom dia, como vai? Meu nome é Carlos, sou da República Dominicana, não falo muito português, mas vou fazer um esforço para que a senhora possa entender, tá? Se não entender qualquer coisa, pode perguntar. Não pode sair daqui com dúvidas, tá bom?

Dominicano Carlos atende em unidade de Porto Alegre
Foto: Ronaldo Bernardi, Agência RBS

Em Arroio do Sal, população ajudou casal cubano a montar casa

Em dezembro passado, Manuel Macías Oria, 45 anos, desembarcou com outros cubanos no aeroporto Salgado Filho. Carregava sua bagagem e a da mulher, a também médica Dunia Herrera, 37 anos.

Quase oito meses depois, o casal que saiu da cidade de Morón esbanja orgulho pela missão que assumiu para ajudar outra nação. Nos atendimentos, o carinho com o paciente é visível, assim como foi a recepção que tiveram em Arroio do Sal, no Litoral Norte.

– No primeiro dia, o povo ficou na estrada esperando. Quando chegamos, a prefeitura alugou uma casa para nós, depois ganhamos coisas que a população comprou, como micro-ondas, máquina de lavar, sanduicheira, cafeteira, cobertor, roupas e abrigos. Em Cuba, não faz frio e não temos casacos. Me presentearam de tudo, incrível – relembra Dunia.

Desde então, não escapam de convites para churrascos com pacientes e amigos. Manuel, que está vermelho do sol da praia, conta que já foi até cobrado por esquecer de um almoço no domingo. Na segunda, ouviu as queixas da anfitriã que ficou esperando.

– Nunca imaginei que fôssemos fazer tantas amizades. No fim de semana, nunca cozinhamos em casa – conta o médico.

Em vídeo, veja o atendimento domiciliar feito por Manuel e Dunia:

Saudade do filho nutre plano de volta

O carinho parece ser um reflexo do atendimento e da humildade do casal. Para conversar com os pacientes, Manuel mudou a estrutura tradicional do consultório, deixando as cadeiras mais próximas. Além da atuação em quatro postos, eles fazem visitas semanais a doentes crônicos, com dificuldade para se locomover.

Com paciência, repetem as perguntas aos ouvidos cansados. Parabenizam até mesmo pequenas vitórias, como a de Galdino Marcos Cardoso, 97 anos, que conseguiu atender ao pedido de respirar fundo para ser examinado na cama, onde passa a maior parte do dia. Em outra casa, Dunia visita Virgilio Ignacio de Mattos, que tem as duas pernas amputadas.

– Dor não tenho nenhuma – diz Virgilio, já confortável com a presença de Dunia.

– Pero esta tosse molesta (irrita), hein? – fala a cubana, repreendendo o fumante de 83 anos.

– Solamente – contrapõe o idoso, em espanhol e aos risos, garantindo que está bem.

Formados em um país que exige dos médicos um período de trabalho na zona rural, Dunia e Manuel dizem que ninguém os obrigou a participar do programa e que recebem cerca de R$ 4 mil por mês cada um, contando com o auxílio da prefeitura e o salário pago pelo governo federal. Em Cuba, receberiam R$ 139 cada.

Apesar da boa relação com os pacientes, o casal planeja voltar para seu  país em três anos. Dunia deixou com a mãe o filho de cinco anos, que deve reencontrar nas férias em novembro. Ela não esconde a saudade e a ansiedade para que o dia chegue.

Doran atende 25 pessoas por dia

Médica cubana em atendimento
Foto: Secretaria da Saúde, Divulgação RBS

Em Porto Vera Cruz, município da fronteira com 1,8 mil habitantes, a cubana Doran Mesa, 34 anos, preencheu a vaga deixada por um médico brasileiro que desistiu do programa. Desde que ela chegou, assegura a secretária de Saúde, Glaucia Carmona, não há mais fila no posto.
A médica cubana recebe, em média, 25 pacientes por dia e domina bem o português.

– Para nós, foi uma maravilha, era isso que estava faltando. Ela gostou da cidade e da população, disse até que quer ficar no Brasil depois – conta Glaucia.

Doran confirma o desejo. Neste ano, já programou férias para novembro, pois quer passar novamente Natal e Ano-Novo em companhia dos brasileiros.
 
– Claro que senti falta da família, da minha sobrinha, mas eles (colegas da prefeitura) amenizaram a saudade. Gostei do Brasil pelo acolhimento das pessoas. Quero ficar aqui, quem sabe achar um namorado, mas, para isso, tenho de conseguir revalidar o título (registro profissional) – diz Doran.

Mais Médicos diminui superlotação das emergências, diz ministro da Saúde

Atendimentos são multiplicados em Pelotas

Antes da chegada do Mais Médicos a Pelotas, no sul do Estado, o posto Cohab Pestana contava com apenas um profissional durante um turno, uma vez por semana.

Era o que a prefeitura conseguia oferecer pagando R$ 35 a hora trabalhada. Mesmo a oferta de emprego por concurso, com salário de R$ 1,6 mil, não atraía candidatos. Agora, a cidade conta com 26 médicos do programa federal, 19 deles cubanos.

Noel Marzo Lores Noel foi um dos primeiros caribenhos a desembarcarem no sul do Estado. Depois, chegaram outros dois compatriotas ao Cohab Pestana: Abdel Kasan Montpellier Diaz e Alexander González Rodríguez. Juntos, eles transformaram os 10 atendimentos semanais em 120.

– A fama é tanta que vem gente de fora da nossa área de cobertura, e isso está prejudicando nosso trabalho. É uma amostra da demanda reprimida que havia – diz Manoel Castro da Silva, um dos servidores mais antigos do posto.

A estrutura física do posto já não suporta a nova rotina. Se antes sobravam salas, agora faltam. Duas vezes por semana, um dos cubanos tem de deixar de atender em um turno porque os atendimentos de ginecologia e pediatria ocupam os consultórios.


Médicos Noel, Diaz e Rodríguez
Foto: Nauro Júnior, Agência RBS

Eles também foram contratados para implantar o programa Estratégia de Saúde da Família, voltado ao atendimento domiciliar da população. Mas a falta de contratação de agentes comunitários impede a adoção do projeto.

Isso acaba atrasando até a especialização obrigatória oferecida pelo Ministério da Saúde a todos os participantes do Mais Médicos.

– Temos tarefas de cadastramento, por exemplo, previstas no curso, que deixam de ser cumpridas – lamenta Rodríguez.

Mas essa é a única queixa que deixam escapar. De resto, aprovam a vida em Pelotas. Nem sempre foi assim. No primeiro mês, os sete cubanos que chegaram foram abrigados em uma casa provisória da prefeitura, enquanto buscavam imóvel para alugar.

Quando saíram, havia uma conta de luz de R$ 127 a ser paga e nenhum deles tinha dinheiro para desembolsar. Uma funcionária da prefeitura se solidarizou e acabou quitando a dívida.

Uma república feminina e bem-humorada em Guaíba

Foto: Mauro Vieira, Agência RBS

Se a despedida do Brasil e da missão de atender em postos de saúde de Guaíba fosse hoje, Dianelys, Diurbys, Estrella, Marlene e Marlyn levariam uma lembrança especial do país: o caloroso acolhimento na cidade.

Antes de se mudarem para uma casa alugada pela prefeitura, em fevereiro, as cubanas ficaram hospedadas no Hotel Brasil Real. Fizeram amizade com hóspedes e os donos do estabelecimento.

– São pessoas simples, acessíveis, comunicativas e tranquilas, que se enturmaram bem. Já estive na casa delas. Recentemente, meu filho teve bebê, e o levou para elas conhecerem. Todos gostam muito delas – conta Katia Camargo Sperotto, proprietária do hotel.

É de amigos como Katia que as cubanas se lembrarão quando completarem três anos de atendimento pelo programa e retornarem ao país caribenho. Mesmo com a possibilidade de ficar o dobro de tempo no Brasil, as cinco médicas deixaram filhos em Cuba e a saudade tende a fazê-las voltar.

Até poderiam trazê-los, pois o governo de Raúl Castro está permitindo a vinda dos familiares, mas temem que a mudança seja muito brusca. As férias, marcadas para o próximo mês para três delas, devem acalmar o coração.

– Vamos matar um pouco da saudade por 30 dias – diz Marlene Muñoz Sanchez, 43 anos.

Enquanto ficam em Guaíba, cultivam hábitos simples. Vão ao trabalho de ônibus, revezam-se diariamente para fazer a comida e semanalmente para limpar a casa. Para as compras no mercado, vão em grupo. Não se separaram nas horas livres, quando costumam pegar o catamarã e seguir até Porto Alegre para ver as lojas.

– Se nos convidam para churrascos, vamos todas, ninguém fica na casa – conta Marlene.

O prato típico já virou um trunfo quando oferecem outra tradição que não as agradou:

– Quando nos convidam para tomar chimarrão, respondemos: ‘Um churrasquinho é melhor’ – diverte-se Marlyn Gomez, 48 anos.

Nesses meses em Guaíba, estreitaram a relação com os pacientes, dos quais vêm a maior parte dos convites para almoços e jantares nos fins de semana.
Do período no Brasil, destacam apenas duas mudanças drásticas: o frio, com o qual não conseguem se acostumar, e a dieta de Marlyn, conquista que rende elogios.

– Marlyn está indo na academia. Tem emagrecido muito. Quantos quilos? – pergunta Dianelys Fuentes Diego, 40 anos.

– São 18 – comemora Marlyn.

Do grupo, também faz parte Maritza Castillo. No dia em que receberam ZH, ela estava doente e não pôde participar da entrevista.

Primeiros já têm férias

Estreantes nos postos de saúde do Estado há nove meses, os cubanos Abetain Almanza (que aparece na página reproduzida abaixo) e Ernel Antonio Gómez Cantero estão em férias. Previsto em contrato, o descanso de 30 dias foi combinadas com a prefeitura de Sapucaia do Sul, onde eles atuam.

Conforme o secretário da Saúde, José Wink, a prefeitura alugou um apartamento para o casal e disponibiliza transporte até os postos. Lúcia Gimenes Passero, coordenadora de Atenção Primária em Saúde, conta que Abetain – assim como os outros profissionais do país caribenho – mudou a forma de se relacionar com os pacientes.

– Na consulta, o usuário senta ao lado dela. Abetain é tranquila e muito carinhosa com os pacientes – relata Lúcia.

Em Sapucaia, atuam 11 cubanos.

O PROGRAMA

- Lançado em julho de 2013, por meio de medida provisória, o Mais Médicos levou profissionais para atuar durante três anos na atenção básica à saúde em regiões pobres do Brasil.

- Para isso, o Ministério da Saúde paga bolsa de R$ 10,4 mil aos profissionais. As prefeituras arcam com as despesas de moradia e alimentação. A carga horária é de 40 horas semanais (32 horas para atuação na atenção básica e oito horas para curso teórico).

- Em Porto Alegre, 16 nacionalidades estão representadas no Mais Médicos. Em primeiro lugar, estão os cubanos (40 médicos). Depois, aparecem venezuelanos (25), argentinos (12) e uruguaios (11).

*Colaborou Júlia Otero

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