Israel/Gaza

Leon Chrempach: "É uma angústia permanente"

Porto-alegrense radicado em Israel conta como é viver na zona da guerra

30/07/2014 | 05h02

O derramamento de sangue no confronto entre Israel e Hamas prossegue e milhares de pessoas sem vínculo militar têm as vidas atingidas pela guerra. ZH conversou com um israelense que vive em uma região alvo dos mísseis disparados pelo Hamas e com um palestino que foi obrigado sair da cidade onde morava, na Faixa de Gaza, por causa da incursão do exército israelense. Na entrevista a seguir, o paramédico porto-alegrense Leon Chrempach, 35 anos, que mora em um kibutz perto de Beersheva, no centro-sul de Israel, conta como é viver na região do conflito:

ZH — Por quantas operações você já passou?
Leon Chrempach —
Essa é a terceira na Faixa de Gaza. Teve uma outra no Líbano também. É a quarta desde que eu estou aqui.

ZH — Quando os primeiros foguetes começaram a cair onde você mora?
Chrempach —
Faz mais ou menos cinco ou seis anos, estou te falando de cabeça. Foram as primeiras vezes que eles (o Hamas) conseguiram chegar aqui. Mas em Israel, de modo geral, faz 14 anos.

ZH — Os lançamentos de mísseis vêm aumentando nos últimos anos?
Chrempach —
Vêm aumentando muito (nos últimos anos). Quando começou a guerra atual, eram cerca de 200 por dia em todo país. Agora, depois do início da operação, deve estar perto dos 100, talvez menos. Cada dia tem diminuído um pouco, porque Israel tem conseguido atingir os lançadores de foguetes.

Leia todas as últimas notícias de Zero Hora
Leia todas as notícias sobre o conflito
Entenda a origem da crise na Faixa de Gaza

ZH — Mas existe também o sistema de proteção, o Domo de Ferro, não?
Chrempach —
Exato, mas há uma diferença. O sistema não faz diminuir o número de lançamentos, mas o dos que caem em terra, que tentam matar gente. O que evita o número de tiros é a operação com força aérea e os soldados que entraram, que buscam destruir os lançadores e os terroristas que os operam.

ZH — Algum amigo está na operação?
Chrempach —
Não existe pessoa em Israel que não tenha pelo menos um conhecido na operação. Pode ser um vizinho, um amigo, alguém do trabalho. Mais de 50 mil reservistas foram convocados. Aqui no Kibutz, entre 10 e 20 pessoas foram convocadas.

ZH — Você é casado, tem filhos?
Chrempach —
Sou casado, minha esposa também é brasileira de Porto Alegre. Temos um filha pequena de um ano e dois meses.

ZH — Há alertas de mísseis no kibutz ou é apenas em Beersheva?
Chrempach —
Se você tivesse ligado cinco minutos antes, iria escutar ao vivo uma sirene nessa conversa, que foi a sexta sirene desde as 14h de hoje (terça-feira).

ZH — O que vocês fazem quando escutam a sirene?
Chrempach —
Depende onde a gente está. Aqui em casa, temos um quarto, que não é um bunker, mas foi construído com paredes mais fortes, com porta e janela de ferro, e vamos para lá. Cada região, de acordo com a distância da Faixa de Gaza, tem um tempo para que você entre no abrigo. Aqui temos um minuto (a partir do momento que se escuta sirene), o que é bastante. Por exemplo, a minha filha estava dormindo no segundo andar. Em um minuto, tenho que subir as escadas, pegá-la, descer as escadas, entrar no quarto, fechar as janelas e a porta.

ZH — É quase uma angústia permanente?
Chrempach —
Não quase. É uma angústia permanente. Se eu não estou em casa... Hoje, em uma das sirenes, eu não estava em casa. Estava em Beersheva. Até eu conseguir falar com a minha família e ver que estava tudo bem, foi um estresse geral. Por que eu não sabia onde eles estavam, não sei se havia um abrigo por perto, se conseguiram fazer tudo o que têm que fazer no tempo de um minuto. Ou seja... Ó! Pode ser que tenha sirene daqui a pouquinho, já está tendo em Beersheva. Opa! Tá tendo sirene, só um pouquinho, a gente precisa entrar no quarto. Uísque, vem! (chama o cachorro). Já estou aqui dentro, pode falar.

ZH — Que barulho é esse?
Chrempach —
Estamos fechando as janelas e a porta de ferro.

ZH — Você trabalha como paramédico. Já atendeu algum ferido por causa dos mísseis?
Chrempach —
Sim, mas não nessa operação. Na guerra anterior, sim. Eu não trabalho na Magen David Adom, o que seria a Cruz Vermelha, que é quem vai onde eles explodem. Trabalho em uma empresa particular.

ZH — Qual o tipo de estrago que o míssil provoca quando atinge o chão?
Chrempach —
Se cai numa casa, destrói a casa. Não fica nada. Não dá para voltar a morar nela. Se cai perto, há os estilhaços que podem derrubar uma parede ou quebrar as janelas. Mas o estrago maior não é na casa, é no nervosismo das pessoas. Eu tenho um minuto, mas quem mora na cidade de Sderot, por exemplo, tem 15 segundos. Sabe o que são 15 segundos quando você está dormindo? Não dá tempo de abrir os olhos. Essas pessoas estão dormindo faz um mês dentro do quarto de segurança. Você escuta uma porta de carro batendo forte na rua, já fica apavorado, já acha que é alguma coisa. Está todo mundo nervoso. Às vezes, você está vendo uma reportagem na televisão e escuta uma sirene gravada de antes... Até entender que é gravada...

ZH — Já é o seu quarto conflito. Pensa em se mudar?
Chrempach —
Não. De jeito nenhum. Mas o que eu quero falar é que a gente, os nossos amigos e familiares que estão na guerra, soldados que estão se ferindo ou morrendo, não quer estar nessa guerra. Mas também não queremos os terroristas do Hamas.

ZH — Acha que os civis de Gaza estão se sentindo como você?
Chrempach —
Imagino que sim. Lá tem famílias, mas a guerra não é contra Gaza, é contra o Hamas, que usa Gaza como escudo humano. Eu não conheço lá, mas imagino que tenha gente que quer levantar de manhã, ir trabalhar e levar os filhos para o colégio como qualquer pessoa normal do mundo inteiro. Mas quem comanda lá são os terroristas do Hamas.

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.